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A narrativa “história de uma hora” não apresenta qualquer outro motivo que pode levar o leitor a ver o casamento de Louise como indesejável e alguns leitores podem perguntar: é o suficiente para ela se sentir insatisfeita com sua vida? Ou é como Chopin lança luz sobre o casamento como um sistema social que priva uma mulher da possibilidade de sentir livre? Como atestamos anteriormente, a senhora Mallard mostra que nem ela sabia que estava infeliz. A natureza é que lhe traz esta

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percepção. Nos contos de Kate Chopin não há marcas de abuso físico ou sexual como e abordado nos contos de Divakaruni e Colasanti.

No episódio final do conto “A história de uma hora”, a protagonista vê o retorno do seu marido, então infarta e morre. “Quando os médicos chegaram, disseram que ela havia morrido do coração – de alegria fulminante”. 66 (CHOPIN, 2011, p.82). A apresentação da mulher de Chopin é mais enfocada quanto ao casamento.

Na literatura brasileira chegamos a tal representação mais abertamente em

Gabriela, Cravo e Canela (1958) de Jorge Amado, onde a protagonista de Amado se

sente mais insegura quando ela se junta a Nacib como uma amante e não como uma esposa com segurança.

Enquanto no conto “Athenaïse”, Cazeau esboça o perfil de um esposo relutante em resgatar sua companheira de volta para casa, a fim de fazê-la desistir do rompimento, em “A história de uma hora” o narrador apenas descortina o marido no final da narrativa quando se descobre que a morte dele foi um engano.

Alguém abria a porta da frente com a chave da casa. Era Brently Mallard que estava entrando, um pouco empoeirado de viagem, serenamente carregando sua maleta de viagem e seu guarda-chuva. Ele estivera bem longe da cena do acidente e nem mesmo sabia que ocorrera um acidente. 67(ibidem, p.82)

Diferentemente do que ocorre no conto “Athénaïse”, em “A história de uma hora” não sabemos nada sobre o protagonista masculino "marido", nem o narrador faz qualquer esforço para dar detalhes da vida de casado, seus enganos ou lazer. O leitor não "conhece" o marido de Louise Mallard, por isso não se depara com qualquer razão sólida para insatisfação por parte da mulher, como se vê ao contrário das histórias indianas, em cujas narrativas, os esposos são rudes e agressivos quando são contrariados por suas mulheres.

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When the doctors came they said she had died of heart disease – of joy that kills. 67

Someone was opening the front door with a latchkey. It was Brently Mallard who entered, a little travelstrained, composedly carrying his grip-sack and umbrella. He had been far from the scene of accident, and did not even know there had been one.

Ao contrário do Chopin, a escritora brasileira aborda a questão da violência doméstica como algo comum na sociedade brasileira. Os contos escolhidos retratam que, na comparação com os maridos descritos por Chopin ou por Divakaruni, os maridos em conto de Colasanti são extremamente violentos. Ambos têm algo em comum: Eles são surtados pelo ciúme, especificamente o esposo em conto de Colasanti que se acha dono de tudo e quer apropriação do corpo feminino quando proíbe o uso de certas peças de roupa e decote, agressão física, espancamento e por último, feminícidio.

Nos contos indianos, os esposos são muito presos aos costumes e tradições familiares e por isso interpretam com preconceito a vontade de suas mulheres de agirem diferente do padrão. O marido de Anju, Sunil, mesmo apoiando ela em muitos momentos, não compreende que uma mulher indiana separada poderia voltar a trabalhar. Ramesh, o marido de Runu, não lhe permite que ela tenha a primogênita mulher. Já o esposo, no conto “Disappearence”, não entende porque sua mulher fugiu, porque sabe que isso é raro pela tradição das famílias indianas.

Chitra Divakaruni apresenta duas esposas em situações bem distintas: a autora mostra como o comportamento de esposos pode ser diferente, dependendo do espaço físico onde eles estão instalados, mesmo em sociocultural igual. O esposo de Anju (Sunil) está nos Estados Unidos, distante da família e sociedade indiana. No momento de gravidez, é descrito como um marido muito amável, que faz de tudo para agradá-la:

Quando Sunil chega em casa do trabalho, ele olha para meus pés e me faz deitar no sofá com os pés para cima. Ele os massageia com óleo de pinho, até um pouco de sentimento vem de volta para eles. Eu respiro profundamente por causa do forte odor pungente Eu o amo e sorrio para ele. "Eu me sinto muito melhor", eu digo, e realmente eu estou. (ibidem, p.208)68 (Tradução nossa)

Ao contrário dos maridos mostrados nos contos de Chopin e Colasanti, o personagem Sunil não se mostra rude, mas complacente com a situação da esposa,

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When Sunil comes home from work he takes one look at my legs and makes me lie down on the couch with my feet up. He massages them with pine oil until a little feeling comes back into them. I take in a deep breath of the strong pungente odor I’ve come to love and smile at him. “I feel much better”, I say, and really I do.

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a qual está grávida. Prestes a fazer um ultrassom, Anju indaga seu marido para o caso de o bebê ser uma menina. Ele se mostra flexível aos questionamentos de Anju e não vê maiores problemas nisso.

Você será muito feliz se for uma menina? ", perguntou Sunil, minha voz tremendo um pouco que eu tento controlá-la. Esta é uma conversa que tivemos vezes antes. "Claro, boba", ele responde com paciência, alisando meu cabelo. "E seus Parentes ..." Eles vão também. E mesmo se eles não entenderem a princípio, eles vão superar isso. Então, pare de se preocupar. (ibidem, p.208) 69 [Tradução nossa]

Runu, por sua vez não tem a mesma sorte, e ao casar com um homem mais tradicional, se vê aflita por ser obrigada a abortar sua primeira gravidez porque trazia no ventre uma menina. Ao contrário de Anju, Runu vive com a família de seu esposo e leva uma vida normal de nora indiana. Anju vive nos Estados Unidos e não tem a mordomia de ter empregados. Runu tem empregados, mas quando Runu é questionada por Anju acerca da sobrecarga de trabalhos domésticos em casa, ela afirma que já se acostumou e acha até normal servir à sua sogra e ao marido de forma zelosa.

“Você não se cansa quando seu marido vai embora?", Perguntei. O marido de Runu, Ramesh trabalhava para Indian Railways e tinha que viajar várias semanas fora do mês. "Ah não! Há sempre muito a ser feito! No início da manhã eu tenho que supervisionar a empregada quando ela ordenha as vacas. Então eu faço chá para a sogra, ela é muito particular, eu tenho que fazê-lo apenas na cor certa. Então eu digo a empregada o que trazer do mercado. Depois disso, há vegetais para cortar, o café, o almoço e o jantar para cozinhar". (ibidem, p.210-211) 70

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Will you be just happy if it’s a girl?” I ask Sunil, my voice trembling a bit though I try to control it. This is a conversation we’ve had times before. “Of course, silly,” he replies patiently, smoothing my hair. “And your parents... “They will too. And even if they’re not at first, they’ll get over it. So stop worrying!

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“Don’t you get bored when your husband is gone?” I asked. Runu’s husband Ramesh worked for

Indian Railways and had to travel several weeks out of the month. “Oh no! There’s Always so much to be done! Early in the morning I have to supervise the maid as she milks the cows. Then I make tea for Mother, she’s very particular, I have to get it just the right color. Then I tell the maid what to get from the market. After that there’s vegetables to cut, and breakfast and lunch and dinner to cook".

Ao contrário de Anju, que conta com um marido compreensivo, Runu é rodeada de cunhados exigentes e, por veze rudes. Runu representa uma esposa compassiva e consciente do seu papel de esposa indiana, como Sita.

A forma como um dos cunhados de Runu tinha feito um comentário rude quando ela queimou o pudim de arroz. A maneira como Ramesh, que havia retornado de sua assistência de negócios um par de dias antes de eu sair, tinha repreendido ela, levantando a voz com irritação, Arudhanti, quantas vezes eu lhe disse para não bagunçar o jornal antes de eu lê-lo. (ibidem, p.213) 71 (Tradução nossa).

Em linhas gerais, Runu não apenas é pressionada pelo marido a ser uma excelente dona de casa, mas também pelos cunhados que a tratam com rudeza, quando ela comete algum “erro” doméstico.

Anju demonstra ser uma esposa desafiadora. Embora conte com um marido muito compreensivo e morar na América, por vezes não entende o porquê de seu marido ser tão alheio aos problemas de sua amiga Runu.

Sunil considerava sua esposa Anju uma mulher de sorte, por ela ter um homem que não a agredia ou que dialogava as questões sem necessariamente impor suas ordens sobre ela. “Veja como você tem sorte de ter um marido como eu, a viver nesta cultura americana livre e fácil, parecia dizer. É melhor começar a trabalhar mais em ser uma boa esposa”. (ibidem, p.218).72 (Tradução nossa)

Runu representa uma esposa subalternizada, pois, ela não tem voz e nem altivez perante a sua família. Conforme o ponto de vista deles, nascer uma primogênita mulher seria muito mais vergonhoso para a linhagem genealógica da família. Runu recorre apenas a Anju para achar uma solução porque ela não quer matar sua filha que está prestes a nascer. “Eles querem matar o meu bebê". "O quê?

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The way one of Runu’s brothers-in-law had made a rude comment when she’d burnt the rice

pudding. The way Ramesh, who’d returned from his business tour a couple of days before I left, had scolded her, his voice rising in irritation, Arudhanti, how many times have I told you not to mess up the newspaper before I’ve read it.

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“See how lucky you are to have a husband like me, to live in this free and easy American Culture, it seemed to say. You’d better start working harder at being a good wife”.

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Eu tenho certeza que eu ouvi isso errado”. "Eles querem me fazer um aborto".

(ibidem, p.223) 73 (Tradução nossa)

Anju comenta com seu marido esperando por uma ajuda dele para a amiga, mas Sunil demonstra indiferença. Ela entende a postura de um homem indiano e comenta de forma enfática parecendo não aprovar sua apatia, embora a respeite "Você não é diferente de todos esses homens na Índia. Uma mulher não é senão uma máquina de bebê para você.” (idem, p.218) 74 (Tradução nossa)

Comparando Cazeau, Sunil, Ramesh e Brently Mallard parece óbvio que o mundo brasileiro é mais machista e o homem é mais violento. A mulher é apenas como um objeto que pode ser tratado como ele deseja.