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PARTE I. QUADROS TEÓRICOS E PROBLEMÁTICA

2. CAPÍTULO Das ferramentas na actividade de trabalho e no trabalho de

2.3. As ferramentas e(m) perspectivas e(m) definições

2.3.1. Marx e Vygotski: o meio como vector de transformação

O trabalho é percepcionado por Marx como um acto49 que ocorre entre o homem e a natureza, e em que o homem, através da sua própria acção, media, regula e controla tal relação (1867/1993). É percepcionado como uma forma exclusivamente humana de operar no mundo, considerando-se que, no fim do processo, se obtém um resultado que já no início deste último existiu na imaginação do trabalhador. Assim, para além do esforço corporal implicado, o que distingue o trabalho humano de uma operação executada, por exemplo, por animais, é a própria capacidade humana de projectar a sua acção no mundo, como uma vontade orientada para um determinado propósito, e que se manifesta como atenção durante o tempo de execução (Correia, 2007). A actividade é, desta forma, concebida pelo autor como realizando uma dada modificação no seu objecto com o recurso aos designados meios de trabalho. Assim, neste processo de trabalho, o autor distingue três principais elementos: i) «[l]’activité personnelle de l’homme ou travail proprement dit», ou seja, a actividade do homem orientada para um dado fim ou o trabalho propriamente dito; ii) «[l]’objet sur lequel le travail agit», isto é, o seu objecto; e iii) «[l]e moyen par lequel il agit»; os meios utilizados, portanto (Marx, 1867/1993, p. 37). Ainda sobre este terceiro constituinte, aduz o autor (1867/1993):

«Le moyen de travail est une chose ou un complexe de choses que le travailleur introduit entre lui-même et l’objet du travail et qui lui sert de conducteur effectif de son activité sur cet objet. Il utilise les propriétés mécaniques, physiques et

48 Não obstante sejam interessantes as ligações entre os trabalhos de ambos os autores, optamos por uma apresentação dos seus estudos de forma separada.

chimiques des choses, pour le laisser agir comme moyens de pouvoir sur d’autres choses, selon les fins qu’il vise. ».

Ora, o meio de trabalho, de que nos fala Marx – ou a ferramenta ou o instrumento –, produto histórico de uma dada sociedade, molda de uma forma específica o trabalho, dando-lhe uma forma particular, para além de formar também aquele que o utiliza. É, assim, um importante mediador entre o homem e o objecto do seu trabalho e entre o homem e os outros. Porém, poder-se-á aplicar esta visão a qualquer trabalho, incluindo o do próprio professor? Mais especificamente, quais são os meios de trabalho do professor? E quais são os objectos sobre os quais este último trabalha? De forma sintética, pode dizer-se que o objecto do trabalho docente compreende os processos psíquicos dos alunos. Por outras palavras, o professor trabalha sobre os modos de pensar, de falar e de agir dos discentes, devendo transformá-los em função das finalidades específicas definidas pelo sistema escolar (Schneuwly, 2000). E quais são então tais meios? E quais são as suas propriedades? Quais as propriedades que permitem agir sobre o objecto de trabalho do professor? E como?

Para responder a estas questões, a teoria vygotskiana do desenvolvimento e da construção dos sistemas psíquicos pelas ferramentas ou pelos instrumentos psicológicos, inspirada directamente da teoria marxista do trabalho, oferece uma possibilidade. O autor advoga ser o comportamento de um adulto contemporâneo e evoluído em termos culturais o resultado de dois processos diferentes, mas complementares, de desenvolvimento psíquico: i) um processo de evolução biológica, que conduziu ao surgimento do “homo sapiens”, e ii) um processo de desenvolvimento histórico, através do qual o homem primitivo se desenvolveu culturalmente (Vygotski, 1930/1985c, p. 38).50

«Les instruments psychologiques sont des élaborations artificielles, ils sont sociaux par nature, et non pas organiques et individuels, ils sont destinés au contrôle de processus du comportement propre ou de celui des autres, tout comme la technique est destinée au contrôle des processus de la nature.».

50Processos estes – biológico e cultural – que, se surgem de forma separada na filogenese – constituindo-se, aliás, como o objecto de estudo de duas disciplinas diferentes da psicologia –, encontram-se fundidos, a nível da ontogenese, aí residindo, precisamente, a dificuldade do estudo das designadas funções psíquicas superiores (Bronckart, 2003; Bronckart, 1996a; Schneuwly, 1999, 1987).

Os instrumentos psicológicos são, assim, as ferramentas de transformação do comportamento; e o ensino, como toda a educação, reestrutura, pelo seu uso, e de forma significativa, todas essas mesmas funções do comportamento (Schneuwly, 1988; Thevenaz-Christen, 2005).

Ora o signo, estímulo artificial criado pelo homem como meio de controlo do desenvolvimento – do seu ou do de outros (Vygotski, 1993/1985, 1930/1985b, 1930/1985c) –, representa, precisamente, o instrumento psicológico, artefacto social, assim como o é o instrumento técnico, fazendo cada signo parte de um sistema semiótico. Elementos estes que, aliás, (e) naturalmente, fazem parte da herança cultural da humanidade: foram produzidos e utilizados pelos seres humanos e evoluíram ao longo dos séculos, conservando, tendencialmente, a sua função (Brossard, 2004; Clot, 1999; Sève, 1999). As ferramentas e os signos são também considerados pelo autor como fazendo parte de uma mesma categoria de mediadores:

«The basic analogy between sign and tools rests on the mediating function that characterises each of them. They may, therefore, from the psychological perspective, be subsumed under the same category.» (1931/1978, p. 54)

«The invention and use of signs as auxiliary means of solving a given psychological problem (to remember, compare something, report, choose, and so on) is analogous to the invention and use of tools in one psychological respect. The sign acts as an instrument of psychological activity in a manner analogous to the role of a tool in labor.» (Vygotski, 1931/78, p. 52).

Figura 3 A actividade mediatizada, característica comum do signo e da ferramenta

Actividade mediatizada

Em Mind in society, Vygotski afirma, então, a estreita ligação entre as ferramentas e os signos, asseverando que a sua articulação se constitui, precisamente, como o coração de toda a actividade psicológica superior, condicionando-a profundamente (1931/1978, p. 55). A diferença substancial assenta na forma como afectam o comportamento humano. As ferramentas têm uma finalidade externa, encontrando-se ao serviço da actividade humana e visando o domínio da natureza. Os signos, por seu turno, e ao contrário, têm uma finalidade interna, sendo um meio interno de controlo. Porém, estas duas funções não são mutuamente exclusivas, podendo dizer respeito à mesma ferramenta e exprimindo a dualidade de relação que liga o uso exteriormente orientado à sua contra-parte interior. Em Pensée

et langage (Vygotski, 2005, 1934/1997), aliás, o autor, condenando aqueles que vêem

a origem do desenvolvimento da actividade psíquica na resolução de problemas e na definição dos objectivos por ela implicada (Moro & Rodriguez, 1997; Moro, Schneuwly, & Brossard(dirs), 1997), vai insistir, precisamente, em tal relevante relação: a entre os signos e les ferramentas, portanto (Vygotski, 2005, 1934/1997):

«[…] pour expliquer de manière satisfaisante le travail en tant qu’activité de l’homme appropriée à une fin, nous ne pouvons nous contenter de dire qu’il a pour origine les buts, les problèmes qui se posent à l’homme mais nous devons l’expliquer par l’emploi des outils, par l’application de moyens originaux sans lesquels le travail n’aurait pu apparaître; de même encore la question centrale pour expliquer les formes supérieures de comportement est celle des moyens qui permettent à l’homme de maîtriser le processus de son propre comportement [...]»

«Toutes les fonctions psychiques supérieures sont unies par une caractéristique commune, celle d’être des processus médiatisés, c’est-à-dire d’inclure dans leur structure, en tant que partie centrale et essentielle du processus dans son ensemble, l’emploi du signe comme moyen fondamental d’orientation et de maîtrise des processus psychiques.»

«Dans la formation des concepts, ce signe est le mot, qui sert de moyen de formation des concepts et devient par la suite leur

symbole. Seule l’étude de l’utilisation fonctionnelle du mot et de son développement, de ses diverses formes d’application [...] peut fournir la clef permettant d’analyser la formation des concepts ».