Ana Luiza Coiro Moraes
Doutora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Fa-culdade Casper Líbero (FCL) – Brasil.
Contato: [email protected]
Artigo submetido em 30/09/2017 e aprovado em 28/11/2017.
1 Artigo desenvolvido a partir de trabalho apresentado no XX Encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação – Compós 201l (MORAES, Ana Luiza Coiro.
Epistemologia dos estudos culturais:
da dialética ao materialismo cultural.
In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, 20., Porto Alegre, jun. 2011. Anais... [s.l.]: Compós, 2011. Disponível em: <http://www.
compos.org.br/data/biblioteca_1660.
pdf>. Acesso em: 24 set.2017).
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Resumo
O artigo reconhece a legitimidade epistemológica dos Estudos Culturais como sustentáculo teórico e metodológico para orientar pesquisas, esboçando uma proposta de paradigma pautado pelo mapeamento dos pressupostos dessa cor-rente e de sua inserção na área das ciências sociais: dos autores e obras seminais dos cultural studies aos métodos e técnicas de investigação que vêm se conso-lidando nas práticas analíticas conduzidas sob sua orientação. Trata-se de uma linha de reflexão que, a partir dos padrões formadores desse campo, mais espe-cificamente investigando o conceito de materialismo cultural de Williams como legatário do materialismo dialético, sugere a filiação dos Estudos Culturais ao método dialético.
Palavras-chave: Estudos Culturais; método dialético; materialismo dialético; ma-terialismo cultural.
Resumen
El artículo reconoce la legitimidad epistemológica de los Estudios Culturales como sustentamiento teórico y metodológico para orientar investigaciones, esbozando una propuesta de paradigma pautado por el mapeo de los presupuestos de esa corriente y de su inserción en el área de las ciencias sociales: de los autores y obras inaugurales de los cultural studies a los métodos y técnicas de investigación que se vienen consolidando en las prácticas analíticas conducidas bajo su orientación.
Se trata de una línea de reflexión que, a partir de los patrones formadores de ese campo, más específicamente investigando el concepto de materialismo cultural de Williams como legatario del materialismo dialéctico, sugiere la filiación de los Estudios Culturales al método dialéctico.
Palabras clave: Estudios Culturales; método dialéctico; materialismo dialéctico;
materialismo cultural.
Abstract
The article recognizes the epistemological legitimacy of Cultural Studies as a the-oretical and methodological support to guide researches, outlining a paradigm proposal based on the mapping of the presuppositions of this current and its insertion in the area of social sciences: from seminal authors and works of the cultural studies to the methods and techniques of investigation that have been consolidated in the analytical practices conducted under its guidance. It is a line of thought that, from the formative standards of this field, more specifically in-vestigating Williams’ concept of cultural materialism as a legate of dialectical ma-terialism, suggests the affiliation of Cultural Studies with the dialectical method.
Keywords: Cultural Studies; dialectical method; dialectical materialism; cultural materialism.
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Introdução
O artigo institui sua linha de reflexão a partir do cenário histórico que remonta aos conceitos e aos padrões formadores das práticas de análise dos Estudos Culturais (EC), que se efetivam nas tantas especificidades, particularidades e contextualiza-ções de toda sorte de conjunturas sociais hoje articuladas em seu nome. Investido da premissa de que existe certo estranhamento em relação a esse projeto, que não quer ser reconhecido como “uma grande narrativa, ou um meta-discurso de qualquer espécie”, como pontua Hall (2003, p. 201), o objetivo aqui é investigar tanto os eixos teóricos quanto o instrumental metodológico presentes na própria gênese dos EC e consolidados ao longo das muitas pesquisas no campo da comuni-cação, cuja utilização, o mais das vezes de caráter qualitativo e empírico, vem ope-racionalizando o diálogo entre as estratégias de produção e o consumo cultural.
Isso significa trabalhar os fundamentos que qualificam os ECcomo uma teoria social crítica, como apontam Escosteguy e Jacks (2003), sinalizando as categorias teóricas que emergem da leitura de seus clássicos. Dentre tais categorias, aqui se foca, mais precisamente, o conceito de materialismo cultural, de Raymond Williams, e, aten-tando à afirmativa de Richardson (1999, p. 92) de que, “na parte central de uma me-todologia genuinamente crítica, encontra-se a lógica dialética”, busca-se verificar a filiação do materialismo cultural de Williams ao método dialético, mais especifica-mente ao materialismo histórico ou dialético formulado por Marx e Engels.
A vinculação política do projeto dos EC é evidenciada na interlocução com o pen-samento marxista e com as diversas reflexões que o sucederam e atualizaram, a partir do próprio ativismo contestatório de Raymond Williams, Richard Hoggart e Edward P. Thompson no contexto da cultura britânica do final dos anos 1950.
Isso indica que, para pesquisadores vinculados aos EC, as questões de ordem eco-nômica e política podem e devem integrar seu protocolo analítico.
Os estudos culturais constituem um corpo de teoria construída por investigadores que veem a produção de conhecimento teórico como uma prática política. Aqui, o conhecimento não é nunca neutro ou um mero fenômeno objetivo, mas é questão de posicionamento, quer dizer, do lugar a partir do qual cada um fala, para quem fala e com que objetivos fala. (BARKER, 2008, p. 27, tradução nossa)
Tal posicionamento, por uma crítica que transite por textos e contex-tos, de acordo com Hall (2003, p. 133) em Estudos Culturais: dois pa-radigmas, já estava presente nos livros seminais que formaram os EC, pois eles “constituíam respostas às pressões imediatas do tempo e da sociedade em que foram escritos, ou eram focalizados ou organizados por tais respostas”.
Ademais, justifica-se pensar no legado dos cultural studies britânicos para responder a questões epistemológicas que se situam no campo da comunicação, porque ao considerar os múltiplos discursos, formações e conjunturas abarcadas pelos EC, de acordo com Williams (1989, p. 152, tradução nossa), é possível “defini-los mais precisamente” junto aos “es-tudos de mídia, à sociologia comunitária, à ficção ou à música popular”.
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Isso leva o presente trabalho a organizar-se em dois momentos, que se seguem a esta introdução. Em primeiro lugar, empreende-se uma breve investigação crítica acerca da natureza epistemológica de con-ceitos e pesquisas que se tornaram clássicos dos EC para, depois, exa-minar o materialismo cultural de Williams como categoria teórica que, ao referenciar procedimentos metodológicos sob a rubrica dos EC, é legatária do método dialético, especialmente em sua feição ma-terialista ou histórica.