2 Formação humana cidadã
2.2 Mas afinal, onde se dá o processo formativo humano?
Quando Suchodolski (2002), Freire (1996) e Severino (1994, 2001, 2005, 2006, 2010) discutem o processo de educação humana é comum, entre alguns pesquisadores e pesquisadoras de educação, interligá-los apenas aos espaços formais de educação. Entretanto, as pessoas se formam não apenas nestes espaços. Com o intuito de trazer clareza sobre a possibilidade de formação em diversos espaços, traz-se Gohn (2010), com uma visão ampla sobre o assunto.
Ao discutir processos de formação e de educação, Gohn (2010) aponta para três possíveis locais de educação: formal, informal e não formal. A educação formal é aquela relacionada principalmente à escola e espaços onde se possui o objetivo de transmitir conteúdos, com planejamento prévio. A exemplo pode-se citar, além da escola, cursos, seminários, faculdades, etc. A educação informal é fruto da espontaneidade das relações intrapessoais na família e fora dela, seja com um grupo de amigos, um clube, uma igreja, etc. Nela são apreendidos conhecimentos e saberes pela simples convivência entre seus pares. E por último, a educação não formal, que será mais detalhada nesta pesquisa, visto a relevância para o debate deste trabalho quando surge o diálogo
com o processo formativo nos movimentos sociais. Tanto que Gohn (2010) traz que o uso do termo educação não formal surge de uma necessidade de dar nome aos processos formativos que ocorriam nos movimentos sociais e outras práticas associativas na década de 1980 e que não eram a priori reconhecidos como espaços formativos. E, desde então, a autora vem trabalhando academicamente com mais profundidade esta categoria de análise, que foi sendo construída.
Mas o que seria a educação não formal? Para Gohn (2010), apenas podemos caracterizar como educação não formal os processos em que se busca coletivamente a cidadania. Valores como o individualismo e o egoísmo não cabem dentro da educação não formal.
Nela, os sujeitos que participam de ações coletivas vão contribuindo com a formação uns dos outros. Desta forma, na medida em que se colocam a caminho, juntos em busca de algo, acabam por contribuir com a aprendizagem de todos sem a necessidade de um professor ou mestre nesse processo. Ao se compreender os processos de formação que as pessoas vivenciam, sejam informais, formais ou não formais, amplia-se a visão do processo educativo do ser humano de forma mais integral (GOHN, 2010).
Como nesta pesquisa o objeto central serão movimentos sociais, e entendendo-os como palco privilegiado da educação não formal, traz-se uma síntese das características que, para Gohn (2010), teria uma educação não formal:
• Acontece em espaços em que os participantes escolhem estar - existe intencionalidade;
• Não existe uma figura responsável pelo papel educativo, este processo se dá de forma coletiva, com uma integração entre os participantes;
• “A educação não formal, [...], não é herdada, é adquirida. Ela capacita os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo, no mundo” (GOHN, 2010, p. 19);
• Está relacionada aos aspectos de solidariedade e cidadania, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência política, ou, como Gohn (2010) prefere dizer, contribui para desenvolver um acervo sociocultural e político15;
• Colabora com o desenvolvimento de uma identidade coletiva dos participantes;
• Forma para a vida como um todo, não tendo seu olhar voltado apenas para o mercado de trabalho;
• A autonomia e a emancipação dos participantes são desenvolvidas;
• Articula-se ao campo de uma educação cidadã.
O conceito de educação não formal geralmente surge pela negação daquilo que ela não é. Assim, por exemplo, em vez de definirem educação não formal, os autores geralmente a caracterizam como educação não escolar (Gohn, 2010). Neste sentido, a autora busca propor uma conceituação:
Chegamos portanto ao conceito que adotamos para educação não formal. É um processo sociopolítico, cultural e pedagógico de formação para a cidadania, entendendo o político como a formação do indivíduo para interagir com o outro na sociedade. Ela designa um conjunto de práticas socioculturais de aprendizagem e produção de saberes, que envolve organizações/instituições, atividades, meios e formas variadas, assim como uma multiplicidade de programas e projetos sociais (GOHN, 2010, p. 33).
Importa perceber que, independentemente se ao longo da vivência humana se está participando de processos de educação formal, informal ou não formal, esses são processos que contribuem para constituir as pessoas. Sendo assim, colaboram com a formação humana. Como o foco é analisar esta formação nos movimentos sociais na cultura digital, faz-se necessário compreender estes espaços formativos, nominados de não formais.
Quando propõem uma educação virada para o futuro, para a autonomia e para a cidadania, Suchodolski (2002), Freire (1996) e Severino (1994, 2001, 2005, 2006, 2010), respectivamente, entendem que frente à realidade é possível construir outras possibilidades de sociedade, de um mundo pensado para todos e não fechado em privilégios como no atual sistema capitalista. Este olhar avança além dos espaços de educação formais, sendo possível uma educação cidadã para todos os espaços, formal, não formal e informal. Nos movimentos sociais tem-se palco privilegiado deste tipo de formação não formal, com a possibilidade de olhar com esperança para o futuro, frente a uma realidade com possibilidade de transformação.
Quando um movimento social vive seu cotidiano, mesmo que não preveja espaços de formação dentre seus participantes, esses estão participando de uma educação não formal. Assim, ao participarem de um movimento social, as pessoas acabam por aprender saberes e vivências necessárias à vida cidadã (GOHN, 2010). Os movimentos sociais ampliam a formação humana de seus participantes sem, necessariamente, este ser o foco de suas atuações.
Ao defender uma educação como processo de emancipação, com o exercício da autonomia, Freire (1996) propõe que a educação acompanhe seus participantes, sem expectativas de controle, mas com liberdade e respeito. Para ele, ser humano é ser mais, é justamente a possibilidade que se tem de sair de onde se está e avançar individualmente e coletivamente. Assim, uma formação que olha para as pessoas com um recorte adaptativo, como já dito, é desumanizadora.
Se as pessoas são feitas para a liberdade, apenas se permite aceitar um processo formativo que colabore com a construção de outras sociedades. Discursos como “É assim que as coisas são, cabe apenas aceitarmos” não corroboram com uma formação humanizadora. Ressalva importante é que a liberdade só existe frente ao respeito aos outros, pois a “liberdade amadurece no confronto com outras liberdades” (FREIRE, 1996, p. 105). Assim, ser humano é justamente construir um mundo cada vez mais justo entre todas as pessoas, cada vez mais livre.