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Mas, afinal, o que tem o gênero a ver com a violência?

No documento Debates contemporâneos sobre , , (páginas 105-113)

Ao fazer uma rápida busca no site do Google,

percebemos que se define violência como a ação ou efeito de empregar força física ou intimidação moral contra algo ou alguém. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a violência como um problema mundial de saúde pública e, apesar de ser possível definir de diferentes maneiras, a OMS considera violência:

o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação (DAHLBERG, KRUG, 2002, p. 1165).

Nesse sentido, percebemos a ampliação do conceito para além da força física, reconhecendo também a dimensão do poder. Na perspectiva que trabalhamos, compreendemos que o poder perpassa todas as relações dos sujeitos e que se desenvolve, muitas vezes, de forma assimétrica e desigual. Entretanto, ele não pertence a algo (Estado, instituições) ou alguém (homem, proprietários, políticos, etc.). O poder

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conforme Michel Foucault assinala, é produtivo e se constitui em redes.

A concepção predominante nos estudos feministas foi por muito tempo a de homem dominante versus mulher dominada, e algumas estudiosas e estudiosos vêm problematizando essa concepção. Conforme Guacira Louro,

Aquelas/es que se aproximam de Foucault provavelmente concordam que o poder tem um lugar significativo em seus estudos e que sua

“analítica do poder” é inovadora e instigante.

Foucault desorganiza as concepções convencionais – que usualmente remetem à centralidade e à posse do poder – e propõe que observemos o poder sendo exercido em muitas e variadas direções, como se fosse uma rede que,

“capilarmente”, se constitui por toda a sociedade.

Para ele, o poder deveria ser concebido mais

como “uma estratégia”; ele não seria, portanto,

um privilegio que alguém possui (transmite) ou do

qual alguém se “apropria” (2011, p. 42).

Nesse sentido, a partir das compreensões de Foucault, passou-se a pensar nas relações entre os gêneros permeadas pelo poder. Seguindo as discussões das autoras feministas Joan Scott (1995) e Judith Butler (2003), podemos entender o gênero como a construção social de tudo que diz respeito ao feminino e ao masculino, e que é produzido em diferentes tempos e culturas. Tratam-se das formas como entendemos as masculinidades e feminilidades em uma sociedade, envolvendo um conjunto de fatores que expressam o que é ser homem e ser mulher – como seus comportamentos, expectativas, valores, identidades, lugares, vestimentas, entre outros.

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De forma binária, hegemônica e hierarquizada, esta construção tem sido colocada em xeque nos últimos tempos pelos movimentos sociais, governos e sociedade civil. Ela muitas vezes constitui e produz situações de violência pela imposição naturalizada dos corpos dos sujeitos. Butler (2003) aponta, a partir de sua teoria da performatividade, que o gênero se produz como atos repetitivos; ou seja, desde o nascimento construímos nosso entendimento de feminino e masculino; todos os dias que acordamos e nos vestimos, comemos, trabalhamos e nos divertimos, estamos reproduzindo o que é adequado para o gênero que nos é atribuído no nascimento ou que nos identificamos.

Muitas vezes, esses atos evidenciam uma masculinidade que para se sustentar precisa subjugar, oprimir e violentar as feminilidades. Segundo Marlene Neves Strey, Mariana Porto Ruwer de Azambuja e Fernanda Pires Jaeger (2004, p. 29)

“Meninos que não conseguem corresponder a qualquer um dos

estereótipos vigentes tanto em casa quanto na escola, estão fadados a encontrar algum caminho substitutivo para garantirem

sua masculinidade”. Tamanho e musculatura de seus corpos são alvo de vigilância, como aponta a autora. Quanto menor e menos atléticos forem seus corpos, mais violências sofrem e a sua sexualidade é colocada em xeque.

Quando se fala em cultura do estupro notamos que ela se sustenta por determinados estereótipos de masculinidade e feminilidade. Quem já não ouviu ditados populares como

“prendam suas cabritas que o meu bode está solto”? O que esta

expressão carrega? Em que situações a utilizamos? Provavelmente se pensarmos nessas questões, reconheceremos

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que elas dizem respeito aos estereótipos de virilidade dos homens e de recato das mulheres.

Ao atentar com mais cuidado para os últimos acontecimentos sobre estupros coletivos noticiados pela mídia no Brasil, notamos a recorrência ao lugar, horário e pessoas com as quais as vítimas estavam envolvidas. Nas situações abaixo descrevemos dois casos amplamente divulgados:

Situação 1: Um estupro coletivo no Rio de Janeiro com uma adolescente de 16 anos chocou o país. O crime foi gravado e transmitido em vídeos e fotos amplamente divulgados pelos agressores em suas contas das redes sociais. Sete pessoas foram indiciadas pelo crime. A adolescente está no programa de proteção do governo.

Situação 2: O estado do Piauí registra a terceira ocorrência de violência sexual. No presente caso uma adolescente de 14 anos sofreu com um estupro coletivo no banheiro poliesportivo da cidade por três meninos adolescentes e um maior de idade (ex-namorado da vítima). Eles tentaram fugir, mas foram pegos alegando o consentimento da vítima mesmo estando desacordada.

Diante dessas situações, aconteceram manifestações nas redes sociais e pelas cidades com as hashtags

#estupronãoéculpadavitima e #ninguemmereceserestuprada. Essas atividades estão interligadas com movimentos que vêm problematizando a culpabilização das mulheres na sociedade. O ano de 2011 marcou a emergência de um movimento que passou a ser chamado de “Marchas das Vadias”, a fim de protestar e

reivindicar justiça para as vítimas que são culpabilizadas por esses crimes. Este movimento foi desencadeado pela maneira

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com que as vítimas de violência sexual no Canadá eram tratadas e, segundo, a fala de um oficial de segurança – que ao discursar sobre os casos de violência, orientou as mulheres a não se vestirem como vadias.

Assim, as mulheres foram para a rua protestar contra a culpabilização da vítima de violência sexual. Ao se estender para outros países, destacamos um trecho da carta de manifesto da Marcha das Vadias do Distrito Federal:

No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo

em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que

denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos

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patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual (MANIFESTO, 2011).

Segundo Strey (2004), desde o século XIX as mulheres procuram visibilizar e combater as violências que sofrem por apresentar características denominadas como femininas em nossa sociedade. O filósofo Michel Foucault (1988), ao realizar um estudo que intitulou História da Sexualidade I, aponta que por séculos as mulheres foram resumidas aos seus corpos. Entretanto, a partir do movimento feminista de meados da década 1960, a masculinidade hegemônica que oprimia as mulheres passa a ser questionada. Até então, o Estado não se envolvia por acreditar ser este um assunto do âmbito privado, devendo ser resolvido dentro do lar. Temos a extensão dessa

compreensão em posicionamentos como “briga de marido e

mulher, ninguém põe a colher”.

De acordo com alguns autores (TERRA; LEITE; ARAUJO, 2008), desde o período colonial se instituiu normas que justificavam as violências contra as mulheres. Os autores citam que apenas recentemente, em 2005, o Código Penal brasileiro revogou o crime por adultério (art. 240) que instituía pena de detenção (BRASIL, 2005). A partir da constituição de 1988 os casos de violência relacionados às questões de gênero passaram a ser valorados envolvendo os Direitos Humanos fundamentais. Para os autores, no caso de proteção dos direitos das mulheres trata-se de “uma abordagem que envolve a pessoa

humana em sua integridade, sendo a ela garantidos os valores estabelecidos constitucionalmente, como o direito à vida, à

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saúde, à dignidade, à educação” (TERRA; LEITE; ARAUJO,

2008, p. 47).

Na Conferência Mundial dos Direitos Humanos, em 1993, o tema da violência contra as mulheres e meninas incorporou a agenda dos Direitos Humanos. Além disto, a Quarta Conferência Mundial das Mulheres em Beijing e posteriores ações das Nações Unidas passaram a enfrentar este problema histórico da violência que envolve o gênero. A convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher e a convenção interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher são compromissos assumidos pelo Brasil. Outro marco importante foi a Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que irá operacionalizar os tratados internacionais para os Direitos Humanos das mulheres (COSTA, 2008).

Atualmente campanhas como as da ONU Mulheres “O valente não é violento” e “Eles por Elas” vêm incorporando o

tema da violência contra as mulheres pela grande incidência das mesmas. Estas violências se produzem de diferentes formas, como aponta Strey (2004): física (empurrões, tapas, socos, facadas, tiros, etc), psicológica (deboches, insultos, ofensas, intimidação, etc.), econômica (privação de dinheiro), sexual (estupro).

De acordo com o Código Brasileiro, lei nº 12.015, de 7 de agosto de 2009, em seu artigo 241 aponta que estupro é "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso". O artigo 215 o complementa: "ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre

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manifestação de vontade da vítima" é “violação sexual mediante

fraude".

Nas situações de caso de estupro coletivo apresentadas notamos que, mesmo diante do fato, as vítimas são culpabilizadas. Segundo o estudo de Madge Porto (2008), há uma dificuldade de implementação da perícia psicológica nos casos de violência psicológica ou como sequela de violência sexual, por exemplo. Mesmo previsto em lei, é desconsiderado o direito da vítima de ser ouvida por psicólogos e o uso desses laudos nas provas. No caso de estupro do Rio de Janeiro, o delegado que iniciou o caso foi afastado e uma delegada passou a ficar à frente da situação. Segundo a vítima, o delegado tentou culpa-la pelo que lhe aconteceu.

Segundo a autora, “a cultura patriarcal deixou marcas

profundas nas relações de gênero de modo que concepções machistas e não igualitárias constituam a dinamizar formas de discriminação da mulher e persuadir nas representações sociais

de uma maneira geral” (PORTO; SANTOS; LEITE 2008, p.

63). Nesse sentido, a cidadania das mulheres é garantida, conforme a autora, em casos de bom comportamento.

Podemos notar esses entendimentos ao lançar um olhar mais atento para as informações das reportagens. Na primeira situação foram colocadas na reportagem informações como o fato de a menina frequentar bailes funks, ter feito uso de drogas na festa e saído voluntariamente com os jovens. Estas informações geraram discussões como a dúvida do estupro, mesmo com a existência de fotos e vídeos. Em nenhum ou poucos momentos foram abordados o problema das drogas nas comunidades, a segurança dos espaços sociais e, principalmente, a responsabilidade dos jovens que cometerem o ato criminoso.

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Na segunda situação podemos notar a ocorrência dessa violência no estado do Piauí. Além disso, a adolescente foi arrastada para um banheiro e o ex-namorado estava presente. Nos dois casos, existia a presença física de um conhecido da vítima.

Estes casos não são isolados e, apesar de serem visibilizados atualmente, não é um problema específico da contemporaneidade; mas sim estrutural, cultural, jurídico e social. Segundo a 10° edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil registrou em 2015 45.460 casos de estupro, sendo 24% deles nas capitais e no Distrito Federal. O estudo aponta que a cada hora cinco pessoas são estupradas no país. Não podemos desconsiderar que este número pode ser maior, visto que são contabilizados somente os boletins de ocorrências e denúncias.

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