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Se fosse possível traçarmos um perfil das inúmeras Conceições processadas na 8ª Pretoria entre os anos de 1900 e 1905 a partir dos dados aqui discutidos, poderíamos afirmar, com uma certa margem de segurança, serem elas em sua maioria, “vagabundas e desordeiras”, de nacionalidade brasileira, naturais do Rio de Janeiro, solteiras, com idade entre 15 e 25 anos, de cor preta e de profissão lavadeira.

Obviamente, esse exercício seria falho e passível de anacronismos. Entretanto, esse parece ter sido justamente o modelo de mulher a ser perseguido pelos policiais nas ruas do Rio de Janeiro do início do período republicano. Era esse arquétipo de mulher a antítese daquele pretendido pelas elites republicanas em seu projeto de modernização e branqueamento nacional. Discutir esse modelo é uma forma de desvendar como, porquê e em que medida esse projeto teve êxito ou não. É, exatamente, através das estratégias desses indivíduos, para os quais desejava-se estabelecer padrões, que estes questionamentos tornam-se passíveis de especulações.

O objetivo desse capítulo foi identificar quais aspectos do cotidiano dessas tantas Conceições pode ter contribuído para a formação do senso comum e da consolidação de estereótipos relacionados às mulheres pobres de modo geral. Busco não perder de vista uma análise de gênero capaz de funcionar de forma relacional, levando em consideração outros aspectos que compunham o emaranhado de diferentes universos determinantes de suas vidas, em especial, a raça. A partir de combinação de dados quantitativos e da análise qualitativa de processos do tipo inquérito, extraí alguns aspectos a serem retomados no decorrer do trabalho com o objetivo final de discutir as implicações da formação desse senso comum e desses estereótipos na constituição da mulata – sujeito histórico capaz de revelar algumas das contradições do eterno debate nacional em torno da questão racial.

Apesar da cor não se apresentar de modo explícito nas fontes processuais pesquisadas, o processo de racialização dos sujeitos surge de modo perverso e sutil, tornando essa ausência plena de significados intrínsecos, os quais saltam aos olhos na

proporção em que se avança em direção ao debate. O passo seguinte será discutir mais a fundo como esses elementos ressurgem quando essas mulheres são postas diante de juizes, sejam elas como rés – agressoras ou vagabundas – ou como vítimas, em geral da violência de companheiros, vizinhas ou rivais. No próximo capítulo analiso mais detidamente os casos de agressão e de vadiagem e discuto as diversas estratégias das mulheres envolvidas nesses episódios para livrar-se da policial ou utilizar o aparelho judicial a seu favor. Desse modo, pretendo questionar a vitimização desses sujeitos e apresentar elementos relativos à sua consciência em relação aos que se esperava delas. Com isso busco resposta a algumas perguntas centrais aos objetivos deste trabalho: de que maneiras gênero, classe social e raça eram acionados pelos diversos grupos envolvidos nos processos em seus momentos de embate? Como esses aspectos contribuem para a formação da identidade dessas mulheres? E para a constituição de estereótipos?

Capítulo II

“Vítimas” e “vagabundas”

No dia 04 de fevereiro de 1903, após grande confusão promovida pelos envolvidos em um episódio de ciúmes que culminou em agressão na estalagem localizada na Rua Senador Pompeu, número 294, a testemunha José Porfírio P. da Silva, de 52 anos, brasileiro, casado, trabalhador, analfabeto e morador do referido local, deu à polícia o seguinte testemunho:

“(...) que estava dormindo e acordou devido à algazarra e barulho na estalagem em que mora e viu entrar em luta Sabino, o ofendido presente, com o acusado presente, que procurou separá-los e já nessa ocasião, Sabino estava ferido pelo acusado presente que (...) antes já havia agredido e ferido com a mesma faca a uma baiana; a ofendida presente, com a qual lutara e até [derrubou] seu tabuleiro de quitandas. (...) E mais não disse.”96

Outra testemunha, também morador do local, de nome João Dias, 26 anos, solteiro, empregado no comércio e de nacionalidade portuguesa, confirmando o depoimento de seu vizinho, disse que:

“(...) viu agora mesmo, onze e meia da noite, quando subia um lance de escadas na estalagem dos Melões, à Rua Senador Pompeu, 294, a ofendida presente, vendedora de doces, com o tabuleiro à cabeça, ser rispidamente agredida pelo crioulo que é o acusado presente que empunhava uma faca, a presente neste ato; que viu embalarem-se e caírem o tabuleiro gritando a baiana (...), que viu a mesma com um golpe no ombro esquerdo, e, tendo (...) Sabino de Tal, o ofendido também presente, e vindo em socorro da mulher foi por sua vez agredido e

[ferido] pelo acusado presente (...). E mais não disse”.97

Apesar do adiantado da hora ter despertado do sono os moradores da “Estalagem dos Melões”, os motivos que os levaram à delegacia, entretanto, tiveram início ainda pela manhã do mesmo dia. Por volta de 10 horas, a vendedora de doces Ignácia Marinha da Conceição, 29 anos, solteira, natural da Bahia e moradora da Rua Camerino, número 80, parece ter sido o centro de uma disputa amorosa ocorrida nos jardins da Praça da República, seu local de trabalho. A agressão que culminou no processo teve seu desfecho no fim do dia quando Ignácia, levando consigo seu tabuleiro de quitutes foi procurar abrigo na casinha de uma amiga situada na Estalagem dos Melões, com medo de sofrer represálias por parte de seu companheiro enciumado. Qual não é nossa surpresa quando, ao lermos o testemunho da vendedora de doces, esta revela que, lá chegando, encontrou o motivo da discórdia entre a vítima e seu agressor: o freguês comprador de amendoim, Sabino Cardozo da Silva, coincidentemente, ou não, morador da referida estalagem. A confusão inicia-se quando, de acordo com o testemunho de Ignácia e Sabino, chega à estalagem Dario, que ao vê-los conversando na escada – “cumprimentando-se”, nas palavras de ambos – parte para cima de Ignácia utilizando como arma a faca de seu ofício de sapateiro, ferindo-a. Sabino, vindo em socorro da mulher é também ferido.

Interessa-nos, por ora, o fato de que, por ter ocorrido em uma estalagem, a briga conjugal passou a envolver, não apenas o casal de amásios, mas também, outros moradores que serviram como testemunhas no inquérito policial, alguns deles, inclusive, intervindo diretamente na discussão. Conflitos desse porte tendiam a mobilizar todos os moradores, tornando ainda mais tênue a linha que separava o espaço comum a todos e o ambiente privado, praticamente inexistente nesses locais. Brigas conjugais como esta entre a vendedora de quitutes de tabuleiro e seu amásio Dário José Ferreira revelam alguns retalhos do cotidiano de tantas outras Conceições como Ignácia, que, apesar de ficarem de fora das estatísticas oficiais, engrossaram as fileiras de trabalhadoras informais na cidade do Rio de Janeiro durante o início do século XX. Através de fragmentos de suas histórias de vida é possível trazer para a discussão o cenário no qual seus conflitos se desenrolaram,

os demais personagens que deles tomaram parte e os acontecimentos de largo porte pelos quais passavam o país e, especialmente, a cidade do Rio de Janeiro.

O objetivo desse capítulo é discutir a presença, através das histórias daquelas tantas Conceições apresentadas na primeira parte desse trabalho, de todas as demais mulheres que dividiram com elas a cena do cotidiano criminal carioca na Freguesia de Santana, no início do século XX, tomando como base a análise das duas principais categorias de tipificação dos episódios que aparecem nos processos analisados – a saber, a agressão e a vadiagem. Para isso, divido esse capítulo em duas partes.

A primeira busca recuperar os casos de agressão ocorridos em habitações coletivas. Nesses episódios, a privacidade dos indivíduos vem à tona nos momentos de conflitos diversos, permitindo-nos discutir suas dimensões. Trato, também, de episódios de agressão nos quais as ruas e/ou outros espaços não residenciais foram como o cenário para o seu desenrolar. Esses locais eram considerados inadequados à presença feminina pelo pensamento jurídico e médico ou pela regras de moralidade das elites. No entanto, entre as camadas mais pobres da população, eles representavam uma extensão de seus lares, seus locais de trabalho e sociabilidades diversas. A segunda parte do capítulo, trata da questão da vadiagem e da presença feminina em locais públicos.

A presença de mulheres nesse tipo de fonte nos remete às discussões historiográficas sobre o papel feminino nos debates da virada do século XIX. Naquele momento histórico e na ótica dominante, ser mulher trazia consigo uma série de significados e exigência de comportamentos determinados, a partir da definição dos âmbitos da moralidade em uma República ansiosa por parecer antenada com o mais moderno e civilizado98. O contato com as fontes, entretanto, evidencia a necessidade de dissociar a rotina de uma delegacia desta imagem “ideal” de mulher. A partir dessas discussões, é possível dimensionar as formas como os indivíduos envolvidos lidavam com a tênue linha que separava os espaços coletivos dos espaços privados nos momentos de conflito. Por outro lado, também nos conduz em direção a uma relativização do rótulo de vítima, supostamente intrínseco às mulheres envolvidas nos casos de agressão ao contrário

98 Ver: Esteves, Martha Abreu. Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989; e Caulfield, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.

das prisões por vadiagem, que funcionam aqui como uma espécie de antítese desse modelo.