Da mesma maneira que as missões católicas que tinham como um dos seus objetivos a catequese e a conversão, considera-se a literatura carolíngia e o conflito entre exércitos que representam católicos e não-católicos importantes para entendermos a Congada de Ilhabela. Nesse sentido, a investigação a respeito dos motivos que teriam levado à guerra encenada se torna uma das trilhas necessárias. Aliada às muitas interpretações correntes entre os praticantes, familiares e moradores da ilha, procura-se no entrecho as passagens que anunciam os motivos da rivalidade e do conflito. O próprio Embaixador revela ao Rei os motivos da cisão. Inicialmente o Embaixador apresenta razões quase casuais.
Embaixador Pela carreira que eu vinha depressa de uma banda para me amparar, encontrei com vossa gente
que me vinham aprisionar. Eu ordenei à minha gente que tudo em assentos assim pra ver se dando pequenos festejos Deus tinha dó de mim.
Mas minha reis, já como bruto sou porém não sendo a falta do batistério eu apelo por Deus do céu
que não me leve ao seu império porque este Santo Benedito que vimos hoje festejar e vindo do céu, vindo da terra vindo deste lugar,
pode ser que com a vossa vinda o rei me mande soltar
porque hoje o rei está contente em louvor de São Benedito. Abulo!
O Embaixador afirma que está em busca de amparo e não de guerra, percebendo o ataque, ao invés de revidar, manda que se faça festa em louvor de São Benedito. Depois de se darem os
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primeiros contatos entre os dois exércitos o Embaixador é levado à presença do Rei. A negociação toma corpo e no Segundo Baile o Embaixador se sente afrontado pelo Rei. O diálogo também expõe o motivo da cisão.
Rei Embaixador, como é que fugistes dos meus pés?
Embaixador A cruel batalha de Massangana foi a causa. (...)
Rei Vós sois bem atrevido, Embaixador.
Embaixador Contai-me logo o motivo.
Rei Que alvoroço foi hoje nesse dia? Eu recebi de bem o motivo de
tua chegada, cheio de mumulos e coices, todos de muquetes armados. Que um raio vos partisse! A tu e ateu povo amotinado!
Embaixador São faltas que eu vejo.
Rei Pois todos os termos são devidos!
(...)
[Sobre a Congada de Ilhabela. Cap. 1 “Formas do Olhar”. (13’35”) ]
Depois de transcorridas diversas cenas dos bailes, o Embaixador convence o Rei que sua devoção é verdadeira, conseguindo assim a ordem de liberdade. No Terceiro Baile, após a revelação do parentesco entre Rei e o Embaixador, mais uma vez se faz referência ao motivo da rivalidade.
Embaixador Primeiramente me mande a bênção.
Rei Bimbiazami in apuco aquiriri!
Embaixador, como é que vós fugistes de meus pés? Embaixador Soberano, a cruel batalha de Maçangana foi a causa.
Rei Sois fidalgo?
Embaixador Sou sim senhor.
Rei Então sentai-vos.
Esta passagem enigmática já mencionada no Capítulo 2 me parece uma das mais significativas para investigar os motivos que teriam levado os dois soberanos, Embaixador de Luanda e Rei Congo, a se tornarem inimigos. O motivo que fez o Embaixador fugir dos pés do Rei foi a cruel batalha de Maçangana. Supondo provável a hipótese de Andrade (1982a) de que o entrecho se refere, de fato, a eventos ocorridos na África, informações a respeito da região de Maçangana (ou Massangana[o]) podem mostrar aspectos reveladores sobre o conteúdo da encenação. Retomando algumas questões anteriormente aventadas: Qual (ou quais) teriam sido as batalhas
ocorridas em Massangano? Seria uma batalha anterior opondo os mesmos exércitos? Teria o Embaixador sido derrotado nessa batalha se tornando um subjugado insurgente, que não se submete ao poder opressor? Qual teria sido a motivação que ocasionou a cruel batalha?
A historiografia aponta, entre outras, duas significativas batalhas ocorridas na região de Massangana (ou Massangano). Uma teria ocorrido em 1583 e a outra teria acontecido em 1648. As narrativas de guerras na região de Congo e Angola dão uma ideia do tipo de atrocidade que se praticava em nome da expansão da fé católica. Baltazar Barreira, padre jesuíta e um dos chefes do chamado levante dos “amos” em Angola, escreve em 1585 a José de Anchieta, então provincial do Brasil, narrando a batalha de Ilamba ocorrida no mesmo ano. Na carta Baltazar diz como os três embalos (nome em quimbundo dos esquadrões, contingentes militares ambundos) do Dongo haviam sido quase todos mortos ou capturados. “Jazia dizimada a aristocracia ambundo. Junto com centenas de narizes decepados, as cabeças dos chefes foram ensacadas e levadas para Luanda nas costas de vinte carregadores” (Carta do padre Baltazar Barreira, Maçangano, 28/08/1585, MMA [Monumenta Missionária Africana], III, p. 323-5 Apud Alencastro, 2000: 173).
Esse tipo de narrativa se encontra nos documentos que tratam dos fatos ocorridos no final do século XVI na região de Massangano. Também Roy Glasgow em seu trabalho a respeito da Rainha de Matamba Nzinga, menciona fatos dessa época, nessa mesma região. O autor relata que Paulo Dias Novais teria realizado aliança com o ngola (senhor) em 1576 contra um soba recalcitrante chamado Kisama, em troca o rei consentiria o tráfico em seus domínios. No entanto, três anos mais tarde teria eclodido uma inevitável guerra entre os ambundos e os portugueses. Se referindo ao rei Álvaro II do Congo (1574 – 1614), o autor escreve: “Em fevereiro de 1580, Dias enviou o padre Baltazar Barreira ao Congo a fim de solicitar a ajuda do rei Mpanzi Mini a Lukeni Lua Mbandi” (Glasgow, 1982: 31). Inicialmente o ngola atacou e expulsou 60 soldados portugueses e 200 africanos. Logo em seguida, no mesmo mês os reforços congoleses com 10.000 soldados entraram no Ndongo, mas antes mesmo de poderem entrar em contato com Dias Novais foram derrotados por um contingente ambundo.
Isso mostra que desde o final do século XVI, Congo e Angola tinham suas desavenças acirradas devido ao posicionamento junto aos portugueses: Congo em geral se colocando a favor dos portugueses, e Angola sempre numa posição ambigua. Somente em meados do século XVII os congoleses se colocam por um certo período de tempo contra os portugueses, isso se dá justamente num contexto em que Garcia II, rei do Congo, se aproxima dos holandeses quando estes invadem e dominam a praça de Luanda (de 1641 a 1648).
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Foi em 1582 que o padre Barreira consegue reunir “(…) soldados, víveres e munições, junto aos grupos leais de portugueses residentes no Congo. A 24 de junho de 1582, este reforço se incorporou a seus compatriotas sitiados e derrotou os ambundos, inclusive o soba de Songa (Mushima Kita Mbonje), um importante conselheiro de Ngola” (Glasgow, 1982: 32). Tanto para Roy Glasgow quanto para Ralph Delgado (s/d: 305) parece evidente que Dias Novais estava atrás das minas de ouro e prata situadas mais a leste. Dias resolve marchar para Cambambe, na direção da capital do reino Ngola.
Um grande conflito parecia inevitável. As tropas se defrontam em 2 de fevereiro de 1583, o rei Nzinga Mbandi Ngola Kiluanji (que era o pai da famosa rainha Jinga, Nzinga Mbandi) à frente dos exércitos ambundos contra Paulo Dias e o soba de Songa, à frente de um enorme contingente de portugueses e a guerra preta (exércitos africanos de sobas aliados). A batalha foi muito violenta e teria durado cerca de duas horas. Milhares de africanos foram mortos de ambos os lados. Dias proclamou-se vitorioso. Muito cansado para poder avançar, recuou até a confluência do rio Lucala com o rio Cuanza, fundando a cidade de Massangano (Vila Vitória de Massangano) (Glasgow, 1982: 32-3).
Na busca pelas minas, Glasgow mostra que Dias Novais compreendeu que não podia avançar muito além de sua cidade fortificada de Massangano sem derrotar o ngola. Ainda segundo o autor, sempre que possível os portugueses usavam táticas terroristas antes de se arriscarem nas batalhas regulares.
A paixão secular e clerical pela violência foi descrita por Balthazar Afonso, SJ, a 4 de julho de 1585, o qual relatou entusiasticamente como os portugueses queimavam vivos ‘os pagãos em suas choupanas e como várias cabeças eram expostas a fim de amedrontar os adversários’. Continuando, o sacerdote fazia referência a uma ocasião ‘em que 619 narizes foram cortados como troféus portugueses, outra ocasião em que um chefe foi compelido a pagar 100 escravos para garantir sua segurança, e então foi executado (Glasgow, 1982: 34).
Ralph Delgado também faz menção ao enfrentamento de 1583 como batalha de Nossa Senhora das Candeias. Depois de diversos reveses registrados – entre eles a morte de 100 portugueses por doenças e o desbarato do exército bacongo no princípio do ano de 1581 na fronteira angolana –, ao Congo coube o papel de auxiliar na conquista territorial. Mas os ânimos se inflamaram em torno da relação com o Ngola Kiluanje. Se por um lado, as vitórias portuguesas juntavam a Paulo Dias falsas amizades, as suas derrotas provocavam o afastamento das alianças momentâneas receosas do castigo do Ngola Kiluanje. Foi assim que a situação do governador Paulo Dias se tornou absolutamente insustentável. O padre Baltazar Barreira, sabendo da infeliz derrota do exército congolês decidiu acudir o governador pessoalmente. Segundo Delgado, perante a
coragem do padre jesuíta, o prestígio de sua força de vontade e a fluência da sua palavra convincente, deu-se uma mudança imediata de cenários (Delgado, s/d: 303). Recebido de forma gloriosa já quando subia o rio Cuanza, sua recepção exortou os soldados à batalha de tal forma que anunciada a aproximação do inimigo, logo saltaram ao seu encontro e logo o derrotaram.
Foi o padre Barreira quem batizou o soba Songa em janeiro de 1582, apadrinhado por Paulo Dias. O soba Songa era o sogro de Ngola Kiluanje e seu conselheiro. Possuia grande prestígio entre as populações nativas. A conversão do soba Songa incitou uma quantidade enorme de pessoas ao desejo de batismo, “o padre Barreira, só por si, baptizou perto de quatrocentos, num dia” (Delgado, s/d: 304). Ainda em 1582, Luís Serrão esteve, por ordem do governador, à frente de uma coluna de 80 soldados para socorrer sobas aliados contra o rei de Angola. Da mesma maneira, outras duas diligências como esta se efetuaram num período de três meses. Na ambição de seguir caminho para Cambambe em novembro de 1582 a coluna destruiu outro soba, o Bamba Antungo, conquistando a região do Bonge, muito fértil e bela. Assim que os portugueses se instalaram deram dois tiros que foram ouvidos pelo rei de Angola em Cabaça onde estava. Fazendo-o a seguir em fuga.
Contudo, a fuga de Kiluanji era apenas momentânea. Percebendo que os portugueses avançavam sobre seu território, o rei de Angola organizou então “o maior exército até então reunido” (Delgado, s/d: 305). A referência dada por Delgado aponta a data de 02 de fevereiro de 1583, dia de Nossa Senhora das Candeias, como o dia em que uma multidão de aproximadamente “um milhão e duzentos mil homens” chefiados pelo rei de Ngola Kiluanji se defrontaram com os exércitos portugueses chefiados por Paulo Dias. Vendo tão grande exército, vários sobas aliados aos portugueses debandaram. Às três horas da tarde, Dias deu ordem para acometê-los com três esquadrões com a guerra preta à frente. O empenho foi tamanho que os portugueses conseguiram derrotar uma avalanche de soldados dos exércitos angolanos.
No dia seguinte, trinta carregadores entraram no arraial português, carregados de narizes dos mortos, sendo seguidos por outros (...). Em memória de tão grande mercê de Nossa Senhora, os portugueses tomaram-na como padroeira do reino, com a designação de Nossa Senhora da Vitória. Depois o governador, ‘para com mais propósito fazer esta conquista’, retirou-se obra de uma jornada atrás de Cambambe, para um lugar tão fortalecido da natureza que pôde ficar nele com pouca gente, mandando à guerra todos os mais. O ponto escolhido foi Massangano, mais tarde batizado com o nome de Vila Vitória, em consequência da estrondosa derrota infligida aos negros (Grifos de Delgado. Carta do padre Baltazar Barreira de 20 de novembro de 1583, Apud Delgado, s/d: 306).
A respeito dessas operações contra o rei de Angola nas quais Paulo Dias de Novais logrou êxito, o padre Barreira diz que sem a conversão dos sobas que se tornaram aliados não teria sido
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possível conservar as conquistas e aumentar o conquistado. Mais uma vez observa-se a conversão como uma importante instrumento da política expansionista: o batismo enquanto um código indexado, uma espécie de chave para a atuação dos exércitos de Novais na conquista das terras ao sul do Congo. Foi dessa maneira que os jesuítas auxiliaram na instalação de um sistema de atuação por meio de alianças embasado no antagonismo entre agrupamentos étnicos diversos, ao qual se deve grande parde do êxito da conquista territorial (cf. Delgado, s/d: 307). Esse sistema de alianças nutrido pelo antagonismo dos grupos étnicos teria como colaborador essencial os padres da Companhia de Jesus.
Esta é a primeira grande batalha que teria ocorrido na região de Massangano. Tanto em Delgado (s/d) quando em Glasgow (1982) e Alencastro (2000), percebe-se que essa guerra entre ambundos e portugeses teria seus antecedentes alocados no contexto não só de expansão colonial por busca de contingentes populacionais, mas por minas de ouro e prata. Nos relatos, a violência e o horror são espantosos. O rei de Angola, pai da rainha Jinga teria sofrido muito com essa batalha. Colocada por Glasgow (1982) como uma batalha que teria terminado em empate, já que a ambas as partes teria sido arrogada a vitória, tal evento pode ser entendido como significativo para a compreensão das políticas de Jinga frente aos portugueses. Especialmente interessantes considerando a hesitação da rainha em aceitar o batismo cristão e abandonar as práticas pagãs, canibais e poligâmicas. Esta poderia ter sido a primeira batalha que, com apenas um ano de idade, Jinga Mbandi Ngola Kiluanji presenciou entre os exércitos ambundos liderados por seu pai e os portugueses liderados por Paulo Dias de Novais.