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TÓPICO 3 - PRIMÓRDIOS DA ARQUITETURA: EGITO

4.1 MASTABAS E PIRÂMIDES

As moradias comuns eram feitas de junco, sapé e madeira. Por não serem materiais duráveis, não eram construídas para a eternidade. Os túmulos, ao contrário, eram feitos em tijolos de barro (adobe). Posteriormente, para aumentar a durabilidade, passaram a ser utilizadas pedras na construção.

A mastaba era um túmulo primitivo cujo projeto se baseava nas habitações dos vivos. Era uma construção em forma de tronco piramidal, contendo uma sala menor para oferendas e outra câmara para o corpo e a estátua que o acompanhava.

FIGURA 26 – DESENHO ESQUEMÁTICO DE MASTABAS

FONTE: Fazio (2011, p. 41)

A religião egípcia evoluiu e com isso a importância do faraó aumentou. A mastaba foi, então, proporcionalmente ampliada, surgindo assim a pirâmide. O conceito que explica a forma da pirâmide, como citado anteriormente, reside na relação entre o faraó e o deus Rá.

A ideia era de que, após a morte, o faraó acompanhasse o deus-sol em sua jornada diária pelo céu, por isso a forma da pirâmide aponta para o céu: ela assim o induziria para cima, para os céus. A pirâmide representava, simbolicamente, o renascimento tanto diário quanto anual, ao longo de toda a eternidade.

As primeiras pirâmides tinham uma forma escalonada (em degraus) e verticalizada, aos moldes do zigurate mesopotâmico. A pirâmide escalonada de Saqqara é considerada a primeira construída no Egito, por volta de 2630 a.C.

O primeiro arquiteto conhecido pelo nome, Imhotep, é considerado o autor desse projeto, a primeira construção monumental em pedra do Egito. A pirâmide fazia parte de um complexo funerário para o faraó Djoser, da Terceira Dinastia (2630 – 2611 a.C.), em Saqqara, nos subúrbios de Mênfis.

Esse projeto foi precursor das pirâmides posteriores, e sua importância é tamanha que Imhotep foi tanto reconhecido por sua genialidade quanto cultuado como um deus.

Os túmulos atraíam ladrões, pois continham objetos de valor e oferendas em seus interiores. Por isso, uma das primeiras alterações no projeto foi a adição de um túnel profundo sob a edificação, que era preenchido com pedra e argamassa para deter possíveis intrusos. O corpo ficava na base, e na câmara acima do solo apenas uma estátua do falecido recebia as oferendas.

FIGURA 27 – PIRÂMIDE ESCALONADA DE SAQQARA, CERCA DE 2630 a.C.

FONTE: Fazio (2011, p. 43).

O complexo funerário de Djoser, retangular e cobrindo uma área de 14 hectares, está cercado por uma muralha de 10 metros de altura e 1600 metros de perímetro. Há apenas um acesso, que se dá por uma pequena porta. Adentra-se o complexo pelo salão processional para só através dele poder acessar o pátio principal.

A pirâmide escalonada tem sua base com dimensões de aproximadamente 120 x 100 metros, e 60 metros de altura. Esta passou por algumas fases de construção e teve seu exterior revestido com blocos de arenito, culminando na aparência que tem hoje.

Os pátios e edificações ao redor da pirâmide parecem ter sido construídos para representar o palácio de Djoser em Mênfis, tendo seus detalhes imortalizados agora em pedra: colunas em forma de feixe de junco ou caule de papiro, tetos de toras de madeira etc. Na verdade, era um hábito copiar, com maior ou menor exatidão, palácios, casas ou até jardins que tivessem sido habitados pelo morto, no interior dos complexos funerários, com o objetivo de deixar o falecido faraó mais confortável.

Muitas das práticas ritualísticas realizadas pelos egípcios nesse período não são perfeitamente entendidas na contemporaneidade. Apesar disso, através do estudo da linguagem escrita e do estudo de suas manifestações artísticas foi possível compreender algumas de suas crenças, como a ideia de que o sucesso da agricultura dependia de uma boa relação entre o faraó e os deuses.

O grande pátio que aparece na planta do complexo de Djoser, por exemplo, seria o cenário para a corrida anual realizada pelo faraó para garantir campos férteis. A corrida deveria acontecer nos dois sentidos do percurso ao redor do pátio, no sentido horário para uma metade do reino e no anti-horário para a outra.

Nesse período de unificação entre Baixo e Alto Egito mais recente, era bastante importante para um faraó afirmar seu domínio sob ambos os territórios.

Por esse motivo, Djoser tinha duas câmaras mortuárias que representavam seu poder e sua paternidade em relação ao Alto e ao Baixo Egito.

A câmara abaixo da pirâmide era onde repousava sua múmia. A entrada era bloqueada por uma pedra com 1,8 metro de diâmetro e seis toneladas de peso;

apesar disso, relata-se que os ladrões encontraram uma maneira de entrar no túmulo ainda na antiguidade.

Em 1928, arqueólogos descobriram a segunda câmara, ao sul da muralha.

Ela continha, originalmente, os órgãos internos do faraó embalsamados, simbolizando sua fertilidade e a proteção do Baixo Egito. Há uma decoração de azulejos assentados em faixas de pedra horizontais e verticais nas paredes dessa câmara, a única coisa que não foi saqueada do recinto.

FIGURA 28 – PLANTA BAIXA DO COMPLEXO FUNERÁRIO DE DJOSER, SAQQARA, EGITO, CERCA DE 2630 a.C.

FONTE: Fazio (2011, p. 43).

Altar Blocos de pedra

Entrada Salão processional Pátio Heb - Sed Pirâmide Templo funerário Grande Pátio

Desde sua origem em Saqqara os túmulos piramidais passaram por algumas transformações em relação a seus projetos, antes de chegar ao auge daquilo que conhecemos como pirâmides. Assim, primeiro, surgiram as mastabas, depois as pirâmides escalonadas, e por fim, o que conhecemos como pirâmides plenas.

Esta última tipologia tem as representantes mais famosas de que se tem notícia, as três pirâmides de Gizé, nos subúrbios do Cairo, construídas durante a Quarta Dinastia. Estas foram construídas ou modificadas por Sneferu (2575–2551 a.C.), um dos primeiros faraós da Quarta Dinastia, que continuou sendo cultuado por mais de dois mil anos após sua morte.

Sneferu acrescentou uma camada externa ao núcleo escalonado que compunha os primeiros projetos de pirâmides. Cada uma destas edificações é, na verdade, composta de duas construções sobrepostas. Na figura a seguir podemos observar seis pirâmides no total.

FIGURA 29 – PIRÂMIDES, GIZÉ, EGITO, CERCA DE 2550–2460 a.C.

FONTE: Disponível em: <https://www.epochtimes.com.br/piramides-de-gize-uma-das-sete-maravilhas-mundo-antigo/#.WaStjOm1vIU>. Acesso em: 28 ago. 2017.

A pirâmide de Quéops é a que fica mais ao fundo, à direita da pirâmide de Quéfren (destaca-se pelos resquícios de pedras de revestimento externo no topo).

Em frente a Quéfren fica a pirâmide de Miquerinos. Por fim, as três pirâmides bem menores no primeiro plano pertenciam às rainhas de Miquerinos.

Nessas pirâmides, o acesso se dava por um corredor descendente, indo para baixo do solo e, então, se elevando até a câmara mortuária no centro da base da pirâmide.

A pirâmide de Quéops é uma das Maravilhas do Mundo, com aproximadamente 146 metros de altura e uma base de 230 metros, ainda é uma das maiores construções de toda a história da humanidade.

Os mesmos construtores da pirâmide de Quéops foram responsáveis pela figura conhecida como Esfinge, a primeira estátua de pedra calcária desse porte, esculpida in loco, que representa uma criatura mítica com corpo de leão e uma cabeça humana.

FIGURA 30 – A GRANDE ESFINGE DE GIZÉ, EGITO (2558 - 2532 a.C.)

FONTE: Disponível em: <https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/1 2/19/o-enigma-da-esfinge/>. Acesso em: 30 ago. 2017.

Sneferu também foi responsável pela criação da chamada pirâmide

“torta”. O colapso de uma de suas pirâmides, sendo construída em Meidum, acabou por afetar a construção da pirâmide de Dahshur, dando origem a uma pirâmide de aparência diferente.

Após o colapso da pirâmide em Meidum, os construtores em Dahshur alteraram a inclinação para um ângulo menor, quando a pirâmide já estava pela metade. Deste modo, a pirâmide ganhou mais estabilidade, e uma aparência diferente das demais.

FIGURA 31 – PIRÂMIDE REFULGENTE DO SUL (PIRÂMIDE TORTA), EM DAHSHUR, A 10 KM DE SAQQARA

FONTE: Disponível em: <http://www.fascinioegito.sh06.com/pirtorta.htm>. Acesso em: 28 ago. 2017.

Por volta de 2600 a.C. as pirâmides alcançaram o seu auge. E apesar de sua indiscutível beleza geométrica e apelo simbólico, foram consideradas obsoletas a partir de cerca de 2000 a.C.

As primeiras oito dinastias egípcias deram lugar a uma fase de instabilidade social, quando senhores feudais começaram a ameaçar a unidade obtida por Menes. O faraó deixou de ser como um deus, absoluto e divino, como era no Reino Antigo, para se tornar um senhor feudal com vassalos locais.

As tumbas reais deste período ainda tinham grande importância para a arquitetura, mas eram edificadas em outras formas, não mais piramidais.

Tornaram-se o que conhecemos como túmulos de rocha, que eram estruturas subterrâneas, na tentativa de enganar os saqueadores, ou ainda templos mortuários, que eram estruturas sob o solo, como será mostrado na sequência.

A mudança de tipologias não apaziguou a ganância humana: a maioria dos túmulos faraônicos foi saqueada por ladrões. Um dos que escapou foi o de Tutancâmon, descoberto apenas em 1922, pelo arqueólogo britânico Howard Carter.