4.3 ESCOLA E CIDADANIA
5. RELAÇÕES COM A MATEMÁTICA
5.3. MATEMÁTICA: Competências Elementares e Cotidiano
Nesta categoria os alunos percebem o estudo da matemática como sendo necessário para apreensão dos assuntos mais elementares da disciplina, geralmente como uma oportunidade para se desenvolverem apenas as competências requisitadas nas relações com o mundo cotidiano, normalmente as práticas comerciais.
Este é um fato típico, principalmente quando se consideram escolas populares e merece algumas considerações importantes. Para diversos autores, a matemática da escola não deve ser confundida com a da rua; são saberes distintos, e esta confusão torna-se um problema cultural com múltiplas implicações em sala de aula. Este problema é estudado sob o prisma das ciências humanas ( sociologia, antropologia, psicologia, etc. ), que podem contribuir com suas pesquisas para os educadores matemáticos apreenderem, ou se possível constatarem, como se dão os transportes de conhecimentos de uma instância para outra.
Assim, para muitos pesquisadores devemos considerar a existência de uma matemática escolar formal e de uma matemática informal da rua. Para Ginsburg ( 1982 ), devemos distinguir a existência de três sistemas, a saber: um primeiro, informal ( por ser desenvolvido fora da escola ) e natural ( por não envolver técnicas transmitidas culturalmente ), caracterizado pelo uso de técnicas quantitativas por crianças que não conhecem o sistema numérico quando tentam solucionar problemas de quantidade; o segundo é classificado como informal por se desenvolver fora da escola, mas cultural por depender da transmissão social de uma informação cultural ( requer o uso de contagem para solução de problemas aritméticos ); por fim, existe o sistema formal e cultural, pois faz o uso de símbolos, algoritmos e princípios geralmente ensinados na escola ( Cf. Nunes, T., Schliemann, A . L.. D. , Carraher, D. W. , 1993, p. 2 ).
“ Tudo parece sugerir uma razão pela qual sempre ouvimos, de pessoas comuns, que boa parte da matemática escolar é inútil ou irrelevante, e talvez mesmo toda ela: é possível aprender na rua a maior parte da aritmética da rua. Não é que não haja aritmética na rua: é que ela é outra.”
( Lins, R. C. & Gimenez, J. 1997, p. 16 )
Para muitos estudiosos, a constatação dessa problemática é um fato, porém não esclarece qual a natureza desse processo informal típico que é a matemática cotidiana ( Cf. Nunes, T., Schlieman, A . L. D., Carraher, D. W., 1993, p. 2 ) e o fato de que a escola normalmente não leva em consideração os significados e procedimentos próprios dessa matemática da rua, e vice-versa ( Lins, R. C. & Gimenez, J., 1997, p. 17 ), causando dificuldades significativas para o processo ensino-aprendizagem, na medida em que não se utilizam as possibilidades de conexão destes conhecimentos para sedimentar o sentido das atividades desenvolvidas.
Devemos comentar que levar em consideração os conhecimentos prévios dos alunos na resolução de problemas de sala de aula é amplamente recomendado para uma efetiva prática pedagógica:
“ ... a importância de levar em conta o conhecimento prévio dos alunos na construção de significados geralmente é desconsiderada. Na maioria das vezes, subestimam-se os conceitos desenvolvidos no decorrer das vivências práticas dos alunos, de suas interações sociais imediatas, e parte-se para um tratamento escolar, de forma esquemática, privando os alunos da riqueza de conteúdos provenientes da experiência pessoal.” ( PCN, 1998, p. 23 )
Pensamos que, assim como os conceitos apreendidos na rua são fundamentais para que o sujeito organize suas atividades, suas relações com o mundo, os conceitos matemáticos, sistematizados em conteúdos programáticos e atividades pedagógicas construtivas também devem colaborar para sedimentar
esta relação, dando um sentido mais profundo não só à matemática, mas à própria escola.
De uma forma geral, estas matemáticas aparecem como coisas distintas nas falas dos alunos, embora alguns percebam as possibilidades de eventualmente os conhecimentos da rua serem usados em sala de aula.
Para muitos, a matemática é vista como sendo um conhecimento necessário, independentemente do fato de se gostar ou não, porque ela é útil no dia a dia:
“ Eu tento aprender. Eu acho matemática muito difícil, mas só que a
matemática você precisa no supermercado e na hora da conta é lógico que você tem de conferir, mas se você não souber matemática não adianta de nada. A matemática é uma das bases da vida.” ( N. T., 8 A )
“ Eu acho importante sem matemática você não saberia administrar o seu
dinheiro.” (T. M., 6 I )
“ A matemática é importantíssima, na nossa vida a matemática está
presente em tudo. Eu acho que a matemática poderia ser mais divertida de aprender. Mas é muito interessante. No fim a matemática acaba sendo tudo de uma vez.” ( J., 8 C )
“ A matemática é um complemento essencial em nossa vida, pois nela só
vemos que, se um dia, ela sumir, não seremos nada. Particularmente não gosto muito de matemática, mas na vida tudo se aprende mesmo não querendo ou gostando. Hoje, tive que aprender a gostar de matemática e vi que ela é muito importante no nosso cotidiano. Além disso, precisamos aprendê-la bem para ninguém nos passar para trás por um simples erro bobo. Mesmo ela sendo um pouco chata, pelos seus muitos cálculos, temos que aprender a gostar de uma coisa que faz parte de nossa vida. " ( E., 8 A )
Nas respostas seguintes, podemos perceber claramente que para muitos alunos, a matemática está ligada basicamente ao aprendizado das competências mais elementares, inclusive para alunos de oitavas séries, já introduzidos no cálculo algébrico:
“ A matemática é uma ótima matéria pois nós dependemos muito da
soma, subtração, divisão, multiplicação, para quase tudo o que fomos fazer, mas a matéria é um pouco complicada, mas prestando a atenção dá para entender.”
( A. L., 8 A )
“ A matemática é uma matéria legal. Aprender a fazer as contas e os
ângulos retos, etc.” ( T. C., 6 F )
“ Nós aprendemos a somar, multiplicar, dividir, etc., e para quem sabe é
muito gostoso.” ( A ., 6 F )
“ Conta, multiplicação ... etc.” ( C. R., 6 I )
“A matemática para mim não é uma das melhores matérias mas é muito
importante ( ... ) porque sem ela não saberia nem contar e nem fazer contas.” (
F. M., 8 A )
Alguns estudantes emitem opiniões um tanto diferentes quanto ao quesito competências: para eles a matemática é importante para o desenvolvimento do raciocínio. Esta é uma concepção um tanto freqüente nos diversos meios sociais: a matemática é uma ginástica mental que desenvolve a inteligência.
“Aprender matemática é uma das coisas maís importante por que sem a
“A matemática é muito difícil, mas é só você querer que aprende e serve
para aumentar meu raciocínio.” ( L., 8 A )
“...A matemática para mim serve para aprendermos a raciocinar o cérebro
... treinar o cérebro para outros raciocínios ...” ( L. G.,8 A )
“ Uma matéria muito boa. Bom porque você aprende a calcular mais
rápido e raciocinar.” ( D., 6 F )
“ Sim, a matemática ensina a calcular e a pensar muito.” (D., 8 C)