2.1 ÁREA DE ESTUDO
A pesquisa foi realizada no âmbito do Projeto Arqueológico Carajás (PACA), o qual abrange um complexo de sítios localizados na Floresta Nacional de Carajás, Pará, especificamente na Serra Sul, abrangida pelo município de Canaã dos Carajás (Figura 1).
61 Figura 1. Mapa de localização dos sítios Bacaba e Capela na Serra Sul, Floresta Nacional de Carajás, Pará.
Esta área vem a ser um polígono dividido em dois ambientes com características diferentes: um em terras baixas e áreas abertas e outro em terras altas, com áreas abertas e fechadas. O polígono compreende uma área de 28.000 hectares e é delimitado pelas coordenadas N 9297000/E 567000 e N 9297000/E 587000 (MAGALHÃES et al., 2016a).
O maciço de Carajás, composto por rochas pré-cambrianas, teve seu aplainamento configurado entre os fins do Mesozóico e a primeira parte do Terciário. Já a sua província mineral desenvolveu-se sobre metavulcanitos básicos e formações ferríferas do Arqueano (AB’SABER, 1986; MAURITY; KOTSCHOUBEY, 1995). Ao final do Terciário Inferior a crosta litificada ou laterítica sofreu uma progressiva degradação causada por variações climáticas e por um lento e progressivo soerguimento regional, que causou o rebaixamento do nível de base. Na área, predominam os terrenos “firmes” (tabuleiros, baixo relevo de encostas e colinas cristalinas de vertentes convexilíneas), com poucas encostas realmente íngremes e dissecadas. As planícies verdadeiras são raras, ao longo da costa e do fundo dos vales dos rios de pequena e média extensão (AB’SABER, 1986; TEIXEIRA; LINDENMAYER, 2006).
O sítio Bacaba I corresponde a uma cavidade em que se destacam duas áreas de escavação, uma relacionada a três galerias dentro da cavidade e outra situada na porção externa à gruta, onde encontrou-se uma estrutura de combustão com relevante abundância de carvões e diversos vestígios botânicos. O Sítio Capela apresenta, aproximadamente, 318 m² e está associado um abrigo com cerca de 49 m², sendo que a superfície ampla sob a influencia de ambos corresponde a 700 m². As atividades foram realizadas em quatro fases, iniciadas em agosto de 2013 e encerradas em junho de 2014. Para o Sítio Capela, foram definidas quatro áreas de escavação, as quais revelaram uma abundante cultura material, sendo frequentes núcleos, lascas e instrumentos de cristais de rocha e hematita. Carvões e fragmentos de semente de palmeiras e outras plantas também foram frequentes. Fragmentos cerâmicos ocorreram esparsamente na superfície e nos primeiros 30 cm de alguns quadrantes.
As formações de floresta tropical nas encostas da Serra Sul de Carajás desenvolveram- se intensamente durante um período úmido no Holoceno inferior e, mais recentemente, a partir de 3.400 anos cal BP, correspondendo ao período de conformação das condições climáticas modernas (HERMANOWSKI; COSTA; BEHLING, 2012). As informações palinológicas na Serra Sul demonstram que eventos de incêndio se intensificaram nos últimos 9000 anos, havendo uma abundância de espécies pioneiras. A dinâmica do cenário ambiental pode ser parcialmente atribuída à intervenção humana (HERMANOWSKI; COSTA; BEHLING, 2012). A vegetação moderna da região de Carajás inclui vegetação de canga e floresta ombrófila aberta e densa em áreas baixas e elevadas (IBAMA, 2003). Na área de floresta
ombrófila, as famílias botânicas mais expressivas são Fabaceae, Arecaceae, Lecythidaceae, Meliaceae, Anacardiaceae, Bignoniaceae, Moraceae e Combretaceae (RIBEIRO et al., 1999). Na área de vegetação de canga, destacam-se Myrtaceae, Sapotaceae, Fabaceae, Euphorbiaceae, Poaceae, Orchidaceae e Rubiaceae (RAYOL, 2006).
A composição florística arbustiva e arbórea da vegetação de canga é marcada pela presença de Callisthene microphylla Warm. (Vochysiaceae), Mimosa acutistipula var. ferrea Barneby (Fabaceae), Alchornea discolor Poepp. & Endl. (Euphorbiaceae), Myrcia guianensis (Aubl.) DC., M. multiflora (Lam.) DC. e Eugenia flavescens DC. (Myrtaceae), além da presença de Xylopia aromatica (Lam.) Mart. (Annonaceae), Jacaranda ulei Bureau & K.Schum. (Bignoniaceae), Clusia leprantha Mart. (Clusiaceae), Cochlospermum orinocense (Kunth) Steud. (Bixaceae), Picramnia ferrea (Picramniaceae), Cupania diphylla Vahl, Matayba guianensis Aubl. (Sapindaceae), Pouteria spp. (Sapotaceae), Cereus hexagonus (L.) Mill. (Cactaceae) e Anacardium occidentale L.
2.2 COLETA E ANÁLISE DE DADOS
Os dados de carpologia apresentados correspondem aos macrorrestos coletados no Bacaba I e na Capela, em escavações realizadas entre 2013 a 2016 na Serra Sul, Floresta Nacional de Carajás, Canaã dos Carajás, Pará, Brasil. O método do Projeto PACA delimita quadrantes de 1x1 m, subdivididas em quadrículas de 0,5 x 0,5 m, escavadas segundo níveis artificiais de 5 cm de profundidade, para melhor controle das diferentes camadas arqueológicas. Todas as estruturas e feições evidenciadas (fogueiras, buracos de estaca, galerias de fauna, etc.) são registradas através de croquis e descrições detalhadas em fichas eletrônicas e cadernetas de campo. Amostras de carvão foram coletadas em ambos os sítios em diferentes níveis, as quais foram enviadas à Beta Analytic, para datação radiocarbônica.
A recuperação do material foi diferente para cada sítio. No sítio Bacaba I (PA-AT-346: S11D-093), ocorreram registros nas áreas de escavação 01 (AE1), 02(AE2) e 03(AE3) e nas Galerias 1.1, 1.2, 2.2, 2.6 e 3.3, onde foi realizada a coleta total do sedimento. No Sítio Capela, foram realizadas coletas sistemáticas por estrato, em baldes com volume padronizado de 15L, seguido da pesagem e flotação (SCHEEL-YBERT et al., 2006). Para o presente estudo, foram consideradas as coletas da escavação 1.1, a qual vem servindo de escavação piloto para algumas análises no sítio. Todo o material foi triado, recuperando-se sementes, carvões, cerâmica e lítico. Para cada grupo foi realizada a contagem e a pesagem, utilizando-se balança analítica de precisão.
As descrições dos morfotipos consideraram estado, forma de preservação (carbonizado ou não carbonizado), a parte preservada e seguiram um roteiro elaborado de acordo com os trabalhos de Silva (2012), Cornejo e Janovec (2010) e Pearsall (2015). As observações foram realizadas com auxílio de lupa e as imagens obtidas com o auxílio de câmera digital Dino-Lite Digital Microscope - Pro. Foi adotado o sistema de classificação de tipos de frutos de Barroso et al. (1999). A identificação foi realizada por meio de consultas a bibliografias especializadas como Barroso et al. (1999) e Cornejo e Janovec (2010); comparação com material da carpoteca do Herbário MG do Museu Paraense Emílio Goeldi, onde contou-se com o auxílio de um parataxonomista deste herbário. Foi adotado o sistema de classificação Angiosperm Phylogeny Group (APG IV, 2016).