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Nos capítulos anteriores discutimos a importância da inclusão de conhecimentos indígenas na educação em astronomia, formas com que algumas culturas indígenas percebem, vivenciam e se relacionam com a natureza conforme estudos da antropologia, e como os saberes sobre o céu estão sendo incluídos na educação em astronomia, este último ponto sendo discutido por meio de um levantamento de área em dois dos principais meios de divulgação e pesquisas em educação em astronomia do país. Isso posto, o presente capítulo tem por objetivo apresentar algumas reflexões e apontamentos iniciais sobre o produto educacional que elaboramos a partir de nossa pesquisa de mestrado.

Ressaltamos, de início, que a leitura dos trabalhos da RELEA e do SNEA, entre outras que realizamos, nos sugere que apesar da Lei 11.645/08 determinar a obrigatoriedade do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena em todo o currículo e níveis da Educação Básica, ainda não há uma discussão ampla na área de ensino de astronomia que ofereça fundamentos comuns aos professores para desenvolverem a inserção de conhecimentos indígenas sobre o céu, no ensino formal. Estamos, ao que parece, numa fase exploratória em que a experimentação em diversas frentes – sequências de ensino para a Educação Básica, cursos e oficinas voltados para professores, recursos didáticos - tem sido tentada, ainda que, vale ressaltar, em escala muito pequena considerando-se o ensino formal em escolas não indígenas. Consideramos que é importante que haja uma fase exploratória que, aliada a reflexões teóricas, possa ajudar a identificar formas não simplistas de se inserir os conhecimentos indígenas no currículo, ou seja, no espaço-tempo da escola. Mas ao mesmo tempo, é fundamental garantir que os professores sejam provocados para se envolverem, e tenham oportunidade de construir fundamentos para desenvolverem ações junto aos alunos.

Do ponto de vista das discussões e questionamentos teóricos, há alguns elementos que aparecem com certa frequência na fala dos autores dos trabalhos que examinamos na RELEA e no SNEA, em particular, a preocupação em evitar visões etnocêntricas, e o reconhecimento de que o trabalho com os conhecimentos indígenas pode ajudar a compreender a ciência como uma construção cultural, humana e histórica. Apesar disso, identificamos poucos questionamentos nos relatos, e pensamos que questões ligadas ao diálogo entre os conhecimentos produzidos no âmbito da ciência europeia-ocidental e os conhecimentos no âmbito das (diferentes) culturas indígenas deva ainda ser mais discutido e problematizado.

Nesse sentido, pensamos que o aprofundamento nos saberes e culturas indígenas, em suas especificidades na forma de perceberem e se relacionarem com a natureza de modo geral, como discutido por alguns estudos da antropologia (VIVEIROS DE CASTRO, 1996; LIMA, 1996), e em particular o aprofundamento sobre a forma de relacionarem seus conhecimentos sobre o céu com outros saberes e elementos de sua cultura, como se propõem autores que trabalham com a Astronomia Cultural (JAFELICE; 2015; LIMA et al., 2014) é algo fundamental de ser buscado numa proposta de formação para professores de ciências, quando se tem em mente a inserção dos conhecimentos indígenas no currículo formal.

Com isso, como produto de nossa pesquisa, elaboramos um material de leitura para professores de ciências, que terá como objetivo mais geral possibilitar a esses professores explorar motivações, fundamentos e recursos para a inserção de conhecimentos indígenas sobre o céu em suas aulas.

Parte do material será destinado a explorar visões sobre formas indígenas de conhecerem e se relacionarem com a natureza conforme estudos da antropologia, possibilitando uma aproximação mais crítica dos conhecimentos e culturas indígenas específicas que venhamos a explorar nesse e em outros momentos do próprio material.

Verificamos nas análises que os cursos de formação de professores são um número diminuto, principalmente se olharmos os que estão destinados a formação de professores para escolas não indígenas, logo, consideramos extremamente relevante e necessário um material destinado e específico para a formação, em que se abra momentos e sejam oferecidos fundamentos para a discussão sobre a inserção desses temas nos currículos escolares. Isso é particularmente importante quando temos em mente que é obrigatório incluí-los, e que para isso os professores necessitam de formação adequada para não adotarem uma visão simplista ou etnocêntrica no trabalho com esses saberes. Assim, organizamos alguns parâmetros para o desenvolvimento do material, que deve:

▪ Atender a um público de professores de ciências com atuação em escolas não indígenas; ▪ Discutir a relevância da inclusão da temática indígena tanto em espaços formais, quanto

em espaços não formais de ensino;

▪ Apresentar conhecimentos indígenas sobre o céu de forma conectada a outros saberes e dimensões diversas das culturas indígenas Guarani;

▪ Propor, ou levar como pauta de discussão, alternativas de aplicação que permitam professores e alunos vivenciarem a cultura discutida, mesmo que não entrem em “contato físico” com os membros dela.

Os procedimentos a serem realizados durante a construção do material foram:

▪ Aprofundar o estudo da literatura que abrange a inserção de conteúdos indígenas no ensino de ciências e de astronomia;

▪ Aprofundar o estudo sobre visões da antropologia sobre especificidades de culturas indígenas ameríndias, especialmente dos povos Guarani, suas formas de conhecer, viver e se relacionar com a natureza;

▪ Definir autor e seleção dos textos literários a serem trabalhados;

▪ Identificar e escolher recursos educacionais como calendários, imagens e vídeos para auxiliar em problematizações e na organização do conhecimento;

▪ Delimitação do conhecimento sobre o céu e outros saberes, acentuando sua relação com o homem/ambiente/sociedade de forma física e espiritual;

▪ Elaboração das estratégias e construção da proposta de material;

Desta forma o material está estruturado três módulos de formação, quais sejam: Módulo I: Os céus e as culturas – Reflete sobre a importância da inclusão de conhecimentos indígenas na educação em Astronomia, por meio da observação e discussão de asterismos Guarani e Mendonça; da sensibilização para a relação que cada participante (e seus ancestrais) possui com o céu; da problematização sobre os estereótipos que trazemos acerca dos povos indígenas; e do conhecimento da repercussão do Movimento Indígena Brasileiro na educação.

Módulo II: As culturas e os olhares – Busca um exercício de olhar para outras culturas identificando epistemologias diversas da nossa, por meio do estudo do perspectivismo, teoria antropológica sobre a visão de mundo de diversos povos ameríndios.

Módulo III: Céus e culturas Mendonça e Guarani Mbyá – Fomenta conhecimentos por meio de um material sobre conhecimentos tradicionais Guarani, em especial a relação terra-céu estabelecida por esses povos com a Lua e as constelações/asterismos, para serem levados às salas de aula da Educação Básica.

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