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7. ILUSTRAÇÃO CLÍNICA

7.2 PESQUISA DE DADOS

7.2.1 MATERIAL EXPRESSIVO: DESENHOS

Propus que desenhasse livremente. Pedro mostrou-se inibido,

"Não sei o que fazer. Diga algo que eu possa desenhar".

A resposta de Pedro demonstra seu receio diante das expectativas e seu acumulado sentimento de incapacidade; penso que seria bom começar por algo que lhe traga “chão”, e que se sinta capaz de realizar.

Parece ficar mais tranqüilo e um pouco mais à vontade. Entrego-lhe papel, e coloco à sua frente lápis preto, borracha e uma caixa de lápis colorido.

Peço-lhe então que desenhe uma casa, a partir das seguintes instruções verbais:

“Você pode desenhar uma casa? O desenho que você fizer estará certo, porque não haverá um crivo de correção, e sim uma leitura para compreender seu desenho como uma forma da sua expressão e linguagem”.

Pedro aceita e comenta:

"Parece coisa de criança".

Respondo: “Também, é uma vantagem pensar assim porque, em geral, as crianças não têm medo de errar com seus desenhos”.

Pedro sorri e inicia seu desenho.

Em seguida peço que desenhe uma árvore e uma pessoa.

Pedro aceita prontamente e após a conclusão dos desenhos, pedi que comentasse livremente cada um.

Pedro mostrou-se introspectivo durante a realização dos desenhos.

Os desenhos estão no Anexo A.

A seguir os comentários e associações de Pedro:

DESENHO: CASA

"Bem pequena. Meio afastada dos grandes movimentos. Mas é acolhedora, aconchegante".

"É uma casinha que está abandonada, tem aparência de abandonada.

Pequenininha por fora, mas grande por dentro. A fachada é bem pequena, mas por ser antiga é grande. Tem pé direito alto. Apesar de antiga, é bem robusta".

DESENHO: ÁRVORE

"Ramificações de galhos. Muitos galhos".

"No tronco desenhei um fungo, para mostrar que o ar é limpo. Só as árvores em ambiente com bastante oxigênio desenvolvem esse fungo no tronco.

Um tronco sólido, forte.

Ela ficou meio apagada.

Está no chão com as raízes, direitinho".

DESENHO: PESSOA

"Eu quis desenhar uma pessoa feliz!"

"E conseguiu?", Perguntei.

"Não!" (Risos).

"Ficou desproporcional, o tronco e as pernas".

"Não ficou tão feio como eu achava. Tem entre 20 e 30 anos'.

ANÁLISE DOS DESENHOS

CASA

Furth (2004, p.83) propõe que o psicólogo perceba sempre a primeira impressão que o desenho lhe causa e o sentimento que comunica. Para o autor há uma imagem que se revela para o observador que olha atentamente, além da imagem concreta que está no papel.

Ao olhar para o desenho, a primeira impressão que tenho é a de ser uma pequena igreja, no alto, que parece estar saindo do papel. Parece uma casa voadora, uma miniatura, sendo levada pelo vento.

Pode-se questionar se Pedro não está distante da realidade concreta, refugiando-se no mundo de idealizações e fantasias, reforçando aspectos da função pensamento, mentais e intelectuais, afastando-se da conexão com o elemento mais primordial, representado pela terra.

A porta ganha um destaque no desenho: tem degraus que fazem a ligação entre interior e exterior, o que pode expressar a sua introversão, representando sua dificuldade em estabelecer contato com o mundo exterior. Destaca-se no desenho o espaço de passagem, um vestíbulo ou umbral, como um espaço intermediário entre interior e exterior.

A maneira como Pedro vê a si mesmo revela-se através da imagem da casa:

pequena, um pouco isolada, abandonada. "Parece menor vista de fora do que por dentro” diz Pedro, pois tem uma estrutura grande, robusta, com espaço interno. "A fachada é bem pequena, mas por ser antiga é grande". A imagem externa de si mesmo não corresponde ao potencial de desenvolvimento e a história que carrega.

Apesar de um pouco isolada, "afastada, é acolhedora, aconchegante", há vida no seu interior. Os aspectos internos da personalidade são vistos de forma positiva, ainda que não consigam expressar-se externamente. Do ponto de vista psicológico, podemos pensar que o Ego não encontrou ainda uma adequada forma de se mostrar ao mundo, e está em busca da definição de uma persona adequada. A casa é apenas parcialmente visível, quase saindo do papel, como o próprio Pedro, de quem não se consegue ver completamente o rosto, escondido num emaranhado de cabelos.

A casa tem uma pequena sacada, fechada, mas demonstra uma possibilidade de abertura para o mundo externo. Olhando mais atentamente para a sacada, outra imagem aparece, e torna-se visível um pequeno livro aberto. Poderia ser um indicador da importância dos livros e da esfera intelectual na vida de Pedro?

O telhado representa o nível intelectual e do conhecimento e aparece no desenho bastante desordenado, sem um encaixe adequado: os pensamentos estão lá, mas estão desordenados, caindo do telhado. Um olhar detalhado permite perceber as telhas rabiscadas como pequenos espinhos, o que permite pensar

No desenho há “ramificações de galhos, muitos galhos”, o que pode representar a intensidade de idéias e pensamentos de Pedro, mas sem um contorno e direção.

As folhas, no desenho da árvore, podem ser representações da vitalidade, realização e contato com o mundo externo; na árvore desenhada por Pedro não há nenhuma folha, indicador da ausência ou bloqueio nessas esferas do desenvolvimento psíquico. A energia psíquica parece fixada nos pensamentos, nos muitos galhos, mas não flui, não realiza a função criativa da árvore.

"Com o que você associa esses galhos?" Pergunto.

"Com as dúvidas, tenho muitas dúvidas". Respondeu Pedro.

Pedro diz que há vida na árvore. O desenho revela que, juntamente com as dúvidas, existem possibilidades na dimensão intelectual, pois os galhos estão vazios como na mudança de estação. O sinal de vitalidade, como o fungo no tronco, indica que o ar é limpo, que não há poluição, que há oxigênio suficiente.

"Você sabia que essa marca vermelha de fungo só aparece quando tem bastante oxigênio?". Pergunta Pedro.

"O tronco é sólido, forte".

Apesar das dificuldades atuais, a percepção de que há uma estrutura psíquica, com força e saúde, capaz de dar suporte no estabelecimento da identidade e persona:

"Ela ficou meio apagada".

Entende-se que Pedro percebe a si mesmo como uma estrutura sólida, forte, mas que ficou apagada, desvitalizada, sem energia. Descreve a árvore como “meio apagada”. A expressão utilizada (meio) possibilita a compreensão de que exista uma outra parte não apagada, a polaridade visível e expressiva, que permanece inconsciente na psique.

“Está no chão com raízes, direitinho”.

Há conexão com a natureza, com as raízes, com os nutrientes, com a terra. A ligação com o arquétipo materno aparece de modo positivo, indicando que “a planta tem condições de crescer no solo em que foi plantada”, um sinal da adaptação do indivíduo para Jung. (1991, §855, p.427).

PESSOA

“Eu quis desenhar uma pessoa feliz”.

O desejo de desenhar “uma pessoa feliz” pode revelar, na realidade, uma pessoa triste, que num movimento compensatório da psique busca encontrar o seu oposto. Esse entendimento fundamenta-se na teoria dos opostos de Jung (1991,

§795, p405).

A primeira impressão que este desenho causa neste observador é a de estar diante de uma pessoa com raiva, que mostra os dentes e ao mesmo tempo os olhos tristes. Parece dizer: “Olhe para mim, está me vendo? É assim que eu sou”. No aspecto físico lembra o Frankestein, personagem monstro que vive a dualidade entre o bem e o mal, o criador e a criatura, instintiva e destruidora.

“Ficou desproporcional, o tronco e as pernas”. Afirma Pedro.

A desproporcionalidade entre os membros inferiores e superiores reflete seu senso de inadequação: os braços são pequenos demais, finos demais, em relação às pernas. As mãos também chamam a atenção, a mão direita parece um gancho, encaixada no antebraço e a esquerda parece uma tesoura.

A ausência das mãos pode indicar um sentimento de inadequação e uma impossibilidade de vincular-se de forma adequada, pois as mãos são instrumentos fundamentais para o contato e a ação no mundo. As formas agressivas, pontiagudas, sugerem agressividade. Levanta-se a hipótese de que a agressividade, inconsciente e não expressa, volte-se para dentro de Pedro, assumindo características de depressão.

Os detalhes da roupa, como o cinto, uma pequena pala no decote, as longas calças e mangas, demonstram uma preocupação com a aparência que não correspondem ao modo desleixado como se apresenta. Os traços masculinos, assim como o porte e o formato do corpo, evidenciam uma identidade de gênero, com sinais claros de masculinidade. O sutil esboço na calça parece sugerir o órgão sexual masculino, o que pode ser um indício da existência da temática sexual, esperada nessa fase do desenvolvimento.

A confusão que aparece no telhado da casa e nos galhos da árvore, surge novamente nesse desenho através do emaranhado de cabelos da figura humana.

Durante a análise do desenho, Pedro relata sua condição de daltônico parcial e de portador de nistagmo, quadro oscilatório, involuntário, de movimentos