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Além de todas as questões já citadas, ainda é preciso trabalhar com a questão institucional, a falta de recursos, sejam estes humanos ou materiais e, as dificuldades encontradas no ambiente de trabalho.

No que tange as questões institucionais, quando existe a falta de recursos materiais apropriados o que vemos é que a equipe de enfermagem não deixa de realizar suas atividades, o que acaba por acarretar a exposição destes profissionais aos riscos existentes no ambiente de trabalho, além do risco para a ocorrência dos acidentes. Giomo et. al (2009) afirmam que os trabalhadores realizam suas tarefas mesmo estando sem a proteção adequada, inclusive da ausência do EPI quando este não esta disponível, levando e mantendo condições inadequadas de trabalho, decorrentes da falta de recursos e materiais do hospital e, mantendo também a baixa conscientização dos profissionais sobre a importância e necessidade do uso dos EPI.

Vê-se neste estudo, que os profissionais muitas vezes, referenciam a falta do material ou a inadequação do material existente como fatores que contribuíram para a ocorrência do acidente de trabalho, como vemos a seguir:

“... e a luva que a gente tem aqui nunca é do tamanho adequado, só tem luva G, ai fica muito grande na mão e ai acaba atrapalhando né!...”. (E2)

“... teve uma época que a gente ficou sem luva de procedimentos, ai faz como? A gente acaba usando a luva estéril mesmo...”. (E3)

“Porque o equipamento errado, ele te leva ao erro... se a luva é muito grande dificulta muito na hora de fazer um procedimento, se for só uma punção, a gente acaba fazendo sem luva mesmo...”. (E2)

“Um tempo desse não tinha máscara... como faz uma cirurgia sem máscara? Não dá! É essencial né!”. (TE6)

Souza (2001), Nishide, Benatti e Alexandre (2004) afirmam que o uso de EPI muitas vezes é dificultado por diversos fatores, como a falta de hábito do profissional, o esquecimento, o descuido, mas, também destacam o fato de indisponibilidade e/ou da inadequação desses equipamentos.

Corroborando com este fato, Marziale et. al. (2014) apontam em seu estudo, realizado com profissionais de enfermagem, atuantes em um hospital geral, que

já sofreram acidentes envolvendo materiais biológicos, que 3,6% dos profissionais apontam que a falta de fornecimento de EPI pela instituição foi o motivo que ocasionou a ocorrência do acidente de trabalho.

A inadequação dos EPI e ainda a presença desses em quantidades insuficientes também é descrita por outros autores como sendo motivos para justificar a baixa ou não adesão do seu uso, somando esses fatores com outros já citados ao decorrer desta análise, como o incorreto manuseio, o descuido, a falta de hábito e até mesmo a descrença quanto a adesão desta prática (TIPPLE et. al. 2007; SOUZA et. al. 2008).

O ambiente de trabalho é determinado pelas práticas gerenciais e organizacionais, e estas podem se caracterizar como agentes facilitadores ou podem representar uma barreira, que dificulta ou até mesmo impedem a adesão dos equipamentos de proteção por parte dos profissionais (NEVES et. al. 2011).

Ainda segundos esses autores, a insegurança no ambiente de trabalho predispõe erros e consequentemente agravos a saúde dos profissionais que nele atuam.

Outro dado importante abordado no discurso dos profissionais entrevistados foi a questão da improvisação ou, do “jeitinho” que a equipe de enfermagem acaba se utilizando para adequar a falta dos equipamentos com as necessidades do serviço.

“Tipo... o gorro de pano é proibido! Mas e o dia que não tem touca? Ai deixam usar...”. (TE6)

“A gente sempre trabalha com o que tem se, não tem o óculos pra hora de aspirar a gente faz com mais atenção, tenta não deixar o rosto tão próximo... eu agora tenho o meu, que eu comprei e uso...”.

(E3)

“Como a luva é maior, a gente corta a pontinha do dedo da luva, pra “sentir” melhor a veia, ai fica mais fácil...”. (TE2)

Neves et. al. (2011) apontam que a falta dos equipamentos de segurança torna a improvisação como parte da rotina profissional e, consequentemente, da rotina do serviço e, afirmam que esta estratégia só se dá quando existe a consciência do risco e da necessidade do uso de tal equipamento e, também por conta dos aspectos éticos e morais dos profissionais, preocupados em prestar uma assistência de qualidade aos seus clientes.

Todavia, apesar desta improvisação fornecer uma sensação de responsabilidade com as obrigações éticas é fato de que estas improvisações que, muitas vezes favorecem o cliente, que tem seu cuidado prestado, mas, não asseguraram a proteção do próprio profissional, acabam por expor ambos os sujeitos envolvidos ao risco.

Ainda de acordo Neves et. al. (2011), os profissionais sabem que, na ausência de materiais adequados para a realização da assistência, podem se recusar em realizar o cuidado e/ou procedimento e, afirmam que está seria uma ocorrência capaz de servir como instrumento de mudança, tanto por parte da gerencia, que teria que passar a fornecer o material, quanto dos profissionais, que mudariam sua prática ao cobrar por boas condições de trabalho. Porém, as questões sociais, como o medo de desemprego e a responsabilidade ética já mencionada, acabam estimulando e reproduzindo um comportamento submisso, de continuar a realização de suas atividades sem questionar a gerência e, de executar suas atividades profissionais de forma insegura.

De acordo com a NR 6, o EPI é uma obrigatoriedade dupla, o empregador deve fornecê-lo e garantir a qualidade deste material e reposição quando esta se fizer necessária, já o empregado tem a obrigação de utiliza-lo de forma adequada e cuidar na manutenção daqueles que não são de uso descartável, o empregado ainda tem que informar ao empregador a ausência e comunica-lo de possíveis problemas ou inadequações destes EPI para substituição dos mesmos.

E preciso que se faça cumprir as legislações vigentes, o cumprimento das normas regulamentadores é de fundamental importância para o bom funcionamento do serviço e para manter a qualidade de vida no trabalho e manter os profissionais saudáveis e aptos ao exercício da profissão.

É obrigação das instituições garantir a disponibilização e fornecimentos dos EPI para seus profissionais e, também se faz necessário orientá-los ao uso correto e para a importância deste ato, é preciso sensibilizar os profissionais da área da saúde, com destaque para os profissionais de enfermagem, sobre a finalidade do uso dos EPI, da prevenção dos acidentes de trabalho e das doenças ocupacionais.

4.4.2 – Classe Temática II – Modificações Autorreferidas após o Acidente de Trabalho

Esta classe temática reúne 99 UR, em duas categorias e sete subcategorias que agrupam aspectos relacionados às modificações autorreferidas dos profissionais de enfermagem após a vivência do acidente de trabalho envolvendo exposição ocupacional aos materiais biológicos e a motivação que os levou essas modificações.

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