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LIQUENS CORTICÍCOLAS CROSTOSOS EM ÁREA DE CAATINGA E BREJO DE ALTITUDE NA SERRA DA GUIA, POÇO REDONDO, SERGIPE, BRASIL

MATERIAL E MÉTODOS

Áreas de estudo

A coleta de liquens para o desenvolvimento do presente trabalho foi realizada no mês de Janeiro de 2014, em áreas de Brejo de Altitude e Caatinga, no Estado de Sergipe, Brasil. As áreas ambas são localizadas, mais especificamente na Serra da Guia município de Poço Redondo do referido Estado de Sergipe (Figura 1).

Poço Redondo

Figura 1. Mapa do Estado de Sergipe, localização das áreas de coleta.

Serra da Guia

A Serra da Guia (9° 58`S e 37° 52`W) faz parte do complexo da Serra Negra e está localizada na divisa dos municípios de Poço Redondo (Sergipe) (Figura 2) e Pedro Alexandre (Bahia). Sendo o ponto mais alto do Estado de Sergipe (750 m.s.m.) (Machado, 2011).

Figura 2. Serra da Guia, Poço Redondo, Sergipe, Brasil. (Fonte: SILVA, 2014).

A região possui altitudes que variam entre 300 e 740 metros, podendo ser observado à presença de duas fitofisionomias bastante diferentes ao longo desse gradiente altitudinal, uma Caatinga arbustiva e uma formação vegetal arbórea semelhante à Mata Atlântica (Machado, 2011).

Segundo Machado (2011), a Serra da Guia trata-se de uma formação vegetal completamente circundada pelo semiárido, com uma mata exuberante em seu topo e encostas com vegetação nativa ligando-se a Caatinga da depressão sertaneja no seu sopé.

O clima da região é semiárido e a precipitação pluviométrica média é de cerca de 650 mm/ano, bastante irregular e com volumes de chuvas mais concentrados entre os meses de maio e julho (Machado, 2011).

A formação vegetal denominada Brejo de Altitude localiza-se entre 650 e 750 metros de altitude e possui uma área de aproximadamente 20 hectares. O dossel da vegetação varia de 10 a 20 metros de altura, onde pode ser observado a fisionomia e composição florística totalmente distintas da Caatinga a sua volta, havendo dominância das famílias Myrtaceae, Moraceae, Solanaceae e Piperaceae, com um grande número de epífitas (Machado, 2011) (Figura 3).

Figura 3. Representação da área de Brejo de Altitude (esquerda); Caatinga (direita),

Serra da Guia, município de Poço Redondo Sergipe. (Fonte: SILVA, 2014).

Coleta do material biológico

Para a coleta dos liquens crostosos, foram demarcados dois transectos de 300 m, seguindo metodologia adaptada de Cáceres et al. (2007). Nestes transectos, foram demarcados pontos a cada 10 m, sendo 30 pontos para cada área e o total de 60 pontos (Figura 4). Para os 60 pontos demarcados, foram adotados como critério de escolha do hospedeiro a presença de talos liquênicos na altura de 0,5 m até 1,50 m em relação ao solo.

Para remoção dos talos liquênicos do córtex das árvores, foram utilizados martelo e faca. Posteriormente as amostras foram acondicionadas em envelopes de papel, nos quais foram registrados data e local de coleta, transecto e número da árvore.

Figura 4. Desenho amostral do transecto demarcado nas áreas de Caatinga e Brejo de

Processamento e identificação das amostras

Ainda em campo as amostras de fungos liquenizados coletadas foram prensadas com auxílio de prensas botânicas utilizando jornais e papelão em temperatura ambiente. Em seguida, as amostras foram levadas ao Laboratório de Liquenologia do Departamento de Biociências da Universidade Federal de Sergipe, Campus Professor Alberto Carvalho em Itabaiana - SE, onde foram confeccionadas exsicatas, utilizando-se papel cartão branco de dimensões 15 x 7 cm, com as informações do local, transecto, número da árvore e data da coleta. Para identificação das espécies de liquens crostosos, foram feitas secções no talo e ascoma com auxílio de lâmina de aço. Posteriormente, foi feita a análise dos cortes ao microscópio, onde foram observadas características morfológicas das estruturas de valor taxonômico, como também testes de coloração histoquímicos utilizando solução aquosa de hidróxido de potássio (KOH) à preparação de 10% (observação de reações com compostos secundários) e solução lugol a 2% (para reações amilóide e dextrinóide) comumente empregados em taxonomia de fungos liquenizados, além de auxílio de bibliografia especializada (Cáceres 2007; Lücking et al. 2009; Lücking et al. 2011; Rivas-Plata et al. 2006; Schumm&Aptroot 2010; Sipmanet al. 2012).

Amostragem dos fatores bióticos e abióticos

Aferimento do pH da casca do hospedeiro

Foi utilizado o aparelho Skin pH Meter – HI 9918, posicionado no hospedeiro na área mais próxima de onde foi retirado o talo liquênico. Foram realizadas três medições para cada hospedeiro e o valor considerado foi a média destas, adotando os valores de pH da casca como ácido (de 0 a 6,9), neutro (7,0) e base (7,1 a 14) (Käffer et al. 2010).

Medição do diâmetro à altura do peito (DAP)

A medida do DAP foi feita através da circunferência a altura do peito (CAP) de cada forófito, dada por uma fita métrica colocada ao redor do tronco, numa altura de 1,5 m distante do solo. Segundo Batista, 2001, a forma mais simples de se medir o

(CAP) e convertê-la para diâmetro, considerando que a secção transversal do tronco à altura do peito é perfeitamente circular, assim, todos os valores do CAP foram convertidos em DAP para posterior análise estatística dos dados, utilizando-se a seguinte equação DAP = CAP/π.

Medição da intensidade luminosa

Para o diagnóstico da cobertura vegetal e transmitância total de luz incidente na área da árvore amostrada, foi utilizada uma câmera fotográfica digital (Sony, modelo H20) com 10 Megapixels, com uma lente ―olho de peixe‖ (modelo FCE9) acoplada, que fornece a abertura do dossel em 180º com a qual foram feitas fotos hemisféricas (Silva et al, 2009) (Figura 5).

A B

Figura 5. Foto hemisférica tirada em campo com o auxílio da lente olho-de-peixe (A) e

tratada com o programa GLA (B). (Fotos: SILVA, 2014).

Ao todo foram captadas três fotos de cada forófito amostrado com auxílio de um tripé posicionado de costas para a face escolhida para a coleta dos liquens. O tripé foi nivelado ao solo e direcionado ao norte magnético com auxílio de uma bússola e posicionado a cerca de 1m do solo (Koch et al, 2012), tendo a lente nivelada com nível de bolha e a câmera posicionada superiormente para o Norte magnético, detectado através de bússola (Garcia et al, 2007), este nivelamento é importante devido ao programa utilizado para análise das fotos (Silva et al, 2009). As fotos foram amostradas entre 6h a 8h ou 16h a 17:30 h, durante o mês de janeiro de 2014.

Cada hospedeiro registrado foi marcado pelo GPS (Global Position System) como parte da análise das fotos, já que se utilizam a altitude e coordenadas locais no tratamento destas, e para posterior comparação das altitudes entre as áreas. A declinação magnética foi corrigida com a inserção dos dados necessários no site <http://geomag.nrcan.gc.ca/calc/mdcal-eng.php>, acesso em 20 de novembro de 2014, (Frazer et al. 1999).

Análise da intensidade luminosa

Para analisar a porcentagem de abertura do dossel e a transmitância através cobertura vegetal (radiação direta + radiação difusa), será utilizado o programa Gap Light Analyzer Version 2.0 (GLA) (Frazer et al, 1999), onde será comparado a relação da radiação fotossintética ativa na composição e riqueza da comunidade liquênica entre as árvores selecionadas nas áreas coletadas.

As fotos hemisféricas para cada ponto foram analisadas através do software Gap Light Analyzer (GLA) Version 2.0, da seguinte maneira: processadas no software GLA 2.0, a fotografia digital é convertida em preto e branco e recortada no formato quadrado requisitado pelo GLA. A fotografia é dividida radialmente e em círculos concêntricos eqüidistantes de acordo com a geometria óptica da lente de maneira que cada setor represente uma proporção igual do hemisfério. Esse cuidado visa eliminar o efeito de visada obliqua crescente à medida que se afasta do centro da fotografia. Finalmente, a fotografia é segmentada em bitmap binário usando um limiar estimado visualmente (Silva et al. 2009). Posteriormente foram obtidas diversas variáveis, sendo utilizado neste trabalho apenas a transmitância total que é a radiação fotossinteticamente ativa transmitida através do dossel (radiação direta + radiação difusa) (Garcia et al. 2007), e a abertura do dossel a fim de verificar a influência dos fatores bióticos e abióticos na comunidade liquênica (Koch et al, 2012).

Análises estatísticas dos dados

Análise da Riqueza

Para análise da riqueza de espécies entre as áreas, foram utilizados testes não paramétricos comparando múltiplas amostras independentes com a análise de variância

(ANOVA) de Kruskal-Wallis para a diferença da riqueza entre as duas fitofisionomias, e o teste de correlação de Spearman entre a riqueza e as possíveis influências que afetam o padrão de organização da comunidade liquênica (pH da casca, abertura do dossel, transmitância total e DAP), no programa ESTATISTICA versão 6.0.

Análise da Composição de espécies

Para á analise da composição de espécies de liquens entre as áreas de estudo, e às influências que afetam o padrão de distribuição das mesmas entre as duas áreas foi utilizado o teste estatístico escalonamento multidimensional não métrico (NMS) através do programa PC-ORD Version 5.10 (McCune & Mefford 2006). Para os dois testes utilizou-se a distância de Sørensen.

RESULTADOS

De acordo com a ANOVA (P < 0,5818) entre os dados de riqueza e as áreas amostradas não houve uma correlação significativa (Figura 6). Considerou-se riqueza como o número de espécies de liquens entre as áreas em estudo, e desta forma foram observados valores de riqueza próximos entre as duas áreas de estudo, Caatinga e Brejo de Altitude.

Figura 6. Boxplot da ANOVA de Kruskal-Wallis entre a riqueza em relação ás duas

Quando levado em consideração a correlação entre a riqueza e os fatores ambientais amostrados DAP, elevação e os dados obtidos (pH, abertura do dossel, transmitância total, transmitância difusa e as porcentagens das transmitâncias total e difusa), apenas o DAP (P <0,035383) possui correlação significativa.

A riqueza diferiu significativamente em relação aos valores de DAP, foi possível perceber que hospedeiros com menores valores do DAP proporcionaram um aumento significativo na riqueza de liquens corticícolas (p =0,035383) (Figura 7).

Figura 7. Teste de correlação de Spearman entre o DAP e a riqueza.

A análise da ordenação NMS mostrou que para a composição de espécies há uma diferenciação de similaridade entre as espécies do Brejo de Altitude e as espécies presentes na caatinga, embora haja algumas espécies que fazem parte da composição dos dois ambientes (Figura 8). Ainda na mesma análise, fica clara a relação explicativa entre a composição de espécies e os fatores bióticos e abióticos amostrados, onde altitude, DAP e fitofisionomias (local), estão correlacionados com as espécies de Brejo (1) e Caatinga (2), e abertura do dossel (CANOPENE), está relacionada á Caatinga (1).

Figura 8. Análise NMS da composição das espécies de liquens em relação as

fitofisionomias e os fatores bióticos e abióticos amostrados. Local (1) Caatinga, (2) Brejo de Altitude.

DISCUSSÃO

Riqueza

Estudos recentes feitos na Caatinga revelam que a riqueza da comunidade de liquens corticícolas responde a fatores bióticos e abióticos, como, pH da casca, DAP do hospedeiro, abertura do dossel e a transmitância total (Mežaka et al. 2008; Kaffer et al. 2010; Marmor & Randlane 2007; Martins &Marcelli2011; Cáceres et al. 2007; Morales et al. 2009; Käffer et al. 2007; Bunnell et al. 2008; Friedel et al. 2006; Koch et al. 2012, Xavier-Leite, 2013, Mendonça,2014).

Neste trabalho a riqueza é afetada de forma significativa pelo DAP, visto que quanto menores os valores de DAP, maior a riqueza, sustentando, em partes, o observado na literatura. Bunnel et al. (2008) em estudo desenvolvido com liquens crostosos em toras de madeira, o diâmetro na altura do peito (DAP) dos hospedeiros foi considerado como uma característica importante para a ocorrência de liquens. O mesmo foi observado por Xavier-Leite (2013) em seu estudo comparando a riqueza da Caatinga com a do Brejo de Altitude, observou a correlação entre a riqueza e DAP, onde hospedeiros com menores valores do DAP possuem um aumento significativo na riqueza. Já Rodrigues (2012) afirma que a abertura do dossel e os valores do DAP explicam 95% da variação na comunidade, assim como Friedel et al. (2006) que demonstrou em seus estudos em florestas da Alemanha que o DAP foi a variável explicativa mais importante para o número de espécies por árvore, mostrando que a riqueza de espécies cresceu com o aumento do DAP.

Composição

A análise da ordenação NMS, mostra que a comunidade de liquens responde a alguns dos fatores bióticos e abióticos amostrados, onde elevação, DAP e fitofisionomias (local), estão correlacionados com as espécies de Brejo (1) e Caatinga (2), e abertura do dossel (CANOPENE), está relacionado a caatinga (1). Desta forma, é possível concluir que a comunidade de liquens sofre influência da elevação da fitofisionomia, e do ambiente.

Segundo Dyer & Letourneau (2007), muitos liquens crescem quando a luz é abundante, ainda que difusa, assim a intensidade luminosa demonstra ser, provavelmente, o efeito direto do seu crescimento. Para Webster & Weber (2007), diante da relação dos liquens com o fator luminosidade, tais organismos possuem uma resposta positiva, que estaria possivelmente relacionada às suas características morfológicas onde, nos talos de liquens corticícolas, as células dos fotobiontes são posicionadas em uma camada definida localizada por baixo de um córtex superior formado exclusivamente pelo micobionte, sendo a luminosidade necessária para que seja possível a realização da fotossíntese nesta camada de algas.

Já para Morales et al. (2009), os liquens crostosos são mais frequentes em ecossistemas e micro-habitats onde há condições de baixa luminosidade e pouca

precipitação, isso explicaria a homogeneidade na composição de liquens onde os valores de abertura do dossel foram maiores.

Estudo feito por Cáceres et al. (2008a), foi observada uma baixa similaridade entre áreas de Caatinga, Brejo de Altitude e Zona da Mata com relação ao tipo de vegetação e grau de luminosidade, o que explicaria o fato do local está influenciando na composição, com relação a altitude já era esperado que esta influenciasse na composição, visto que os Brejos em oposição à Caatinga, são encraves de Mata Atlântica (Andrade-Lima 1966), e situam-se em serras e planaltos do semiárido (Rodal et al. 2005).

CONCLUSÃO

O estudo da influência de fatores bióticos e abióticos na riqueza e composição de liquens torna-se uma importante referência na distribuição e no conhecimento ecológico dos fungos liquenizados.

Os resultados apresentados mostram que os liquens mantem preferências em relação ao substrato de acordo com as características do hospedeiro, verificando que a riqueza diferiu significativamente em relação aos valores de DAP, sendo observado que, hospedeiros com menores valores do DAP proporcionaram um aumento significativo na riqueza de liquens corticícolas, além de observarmos que a composição da comunidade liquênica é influenciada por alguns fatores bióticos e abióticos, tais como, altitude, DAP e fitofisionomias (local), estando correlacionados com as espécies de Brejo e Caatinga, e abertura do dossel, estando relacionado a caatinga.

Este trabalho foi o primeiro a amostrar tais influências em relação à riqueza e composição de liquens corticícolas nas fitofisionomias Caatinga e Brejo de Altitude, no estado de Sergipe. Também é o primeiro estudo sobre liquens na Serra da Guia.

Diante dos dados apresentados e da importância de se conhecer a micota liquenizada, e as fitofisionomias em estudo, os resultados apresentados nesse estudo visam contribuir para o conhecimento ecológico dos fungos liquenizados, assim como torna-se subsídio para outras pesquisas que venham a aprimorar e enriquecer o conhecimento ecológico e liquenólogico da Caatinga e Brejos de Altitude.

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