5 A FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE E SUA BIBLIOTECA
6.4 MATERIALIDADE (BIBLIOGRAFIA MATERIAL)
A Bibliografia e a História do Livro, caminhando juntas conferem aporte teórico e metodológico aos estudos do livro-objeto, o que contribuiu para valorizar sua materialidade por meio de estudos da bibliografia material. Esta, por sua vez, foi descrita por Greenhalgh e Manini (2015, p. 18) como ―sendo uma descrição minuciosa das caracterìsticas de cada exemplar‖ tanto dos seus elementos intrìnsecos como extrìnsecos. Por meio da bibliografia material é possìvel singularizar o exemplar e isso contribui para sua valorização e valoração, segurança, propriedade, além de auxiliar o bibliotecário no tratamento a ser dado a cada unidade, mediante as caracterìsticas bibliográficas.
Briet (2016) destacou a necessária materialidade do registro num suporte fìsico, diante da natureza subjetiva da informação. Vale ressaltar que a ausência da fisicalidade dos suportes, na era digital, é um fator preocupante, pois corrobora para a não existência de rastros, registros, indìcios ou artefatos materiais sobre o modo como o documento foi concebido, editado, lido, manuseado (DARNTON, 2010).
Para o historiador Le Goff (2003), os suportes da informação como a escrita, possuem o caráter de memória artificial porque têm a funcionalidade de registrar a informação e garantir sua guarda e recuperação. Belo (2002, p. 38) pautado em Mckenzie declara: ―Estudar o passado do livro é estudar o seu conteúdo considerando toda a vasta gama de realidades sociais que os textos envolvem e com as quais interagem, em cada momento da sua produção, transmissão e consumo‖.
Donde concluìmos: estudar o objeto-livro, seja qual for o suporte fìsico, nos permite identificar como o fabrico, o formato, a posse, a disseminação, impactaram a formação de acervos, possìveis leituras, formas de circulação em meio a questões econômicas, polìticas e sociais, dentre outros aspectos históricos.
O Catálogo Geral de Manuel Peregrino é considerado obra rara pela Biblioteca de Direito, conforme os critérios de raridade bibliográfica (VILELA, 2012), incluindo sua autoria, visto que, Manuel Cìcero Peregrino da Silva é considerado o precursor da Documentação no Brasil (JUVÊNCIO; RODRIGUES, 2017). A gestão de Peregrino à frente da Biblioteca de Direito foi sem dúvida uma mostra daquilo que veio a realizar em maior proporção na direção da Biblioteca Nacional. O valor histórico e informacional que a obra possui para a Instituição excede o seu valor venal e material. Por meio do repertório catalogado é possìvel conhecer os autores e obras que formavam o acervo à época, bem como, conferir sua permanência com o inventário atual. Sendo fonte e objeto deste estudo, a análise histórico-bibliográfica
do Catálogo de 1896 também permite inferir o modo como o conhecimento registrado foi tratado à época na Biblioteca de Direito.
O Catálogo Geral foi produzido no Recife na Empreza d‘A Provincia, localizada na Rua Quinze de Novembro, 49 e 51 e Caes da Regeneração 42, 44 e 44ª. A Provìncia, jornal matutino de circulação local, de cunho liberal, também cedia seu parque tipográfico para a impressão de livros. Por vezes, o jornal tinha a edição suspensa ou era penalizado com multa pelo teor das crìticas publicadas contra as
autoridades governamentais (NASCIMENTO, 1966). O jornal tinha como redator oficial em 1896 o jurista Gonçalves Maia também deputado federal.
O diretor da Biblioteca de Direito, o jurista-bibliotecário Manuel Cìcero Peregrino da Silva, autor do Catálogo, participava do corpo editorial do jornal A
Provincia (NASCIMENTO, 1966), como: Carneiro Vilella, José Mariano, Arthur
Orlando Martins Junior, dentre outros membros da Faculdade de Direito.
O Catálogo listou todo acervo de livros, obras de referência e publicações periódicas encadernadas no acervo da Biblioteca, totalizando aproximadamente 2.200 títulos, distribuídos em 6.717 volumes. As referências são listadas seguindo a ordem alfabética de autoria, precedida da localização do exemplar no acervo. O Catálogo foi dividido em duas partes, sendo a primeira, em ordem sistemática dos assuntos e a segunda, em formato de índice alfabético dos autores.
O Catálogo de 422 páginas tem uma apresentação gráfica simples. Impresso no formato in 8˚ com encadernação clássica com meia capa em couro e papel marmorizado traz no dorso gravação em dourado o tìtulo da obra. O estilo empregado da disposição das informações e florão dourados na lombada indica um padrão usado na Biblioteca no final do século 19. Hoje, depois de restaurado no
Laboratório de Conservação e Restauração da Biblioteca (LABOR), o volume recebeu guardas novas que auxiliam na conservação do volume. Na página de rosto, o brasão republicano separa o tìtulo da imprenta. O papel usado para impressão do miolo e folhas de guarda do tipo madeira é ácido tornando as folhas quebradiças e manchadas por produtos quìmicos. Poucas são as marcas de leitura indicando o destaque para algumas referências. O exemplar, de 124 anos, parece ter sido muito pouco manuseado. Também há marcas de carimbo na página de segurança e de cem em cem páginas, um costume adotado na Biblioteca de Direito. As marcas de propriedade atestam que o exemplar pertence à Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife.
Não identificamos qual foi a tiragem original, restando na Biblioteca de Direito apenas um único exemplar que permanece conservado na Coleção Especial. A consulta e o acesso ao exemplar é feito mediante agendamento e consulta monitorada. A versão digital está disponìvel no Repositório Digital da UFPE o Attena no endereço: (https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/28158) com texto pesquisável por palavras-chave. No ano de 2019, a obra foi submetida a procedimento de restauro no LABOR da Biblioteca. Parte da encadernação precisou
ser refeita mantendo originais as capas e parte a lombada. Além da higienização e desinfestação, procedimentos básicos da conservação, o volume recebeu reforço nas páginas iniciais e finais com velatura em papel japonês para facilitar o manuseio e restaurar a maleabilidade das folhas fragilizadas pela ação do tempo e da composição quìmica do papel.