O materialismo cultural foi o modo desenvolvido por Williams para estudar cultura a partir do pensamento da produção e reprodução de determinados valores – no caso, os hegemônicos, entranhados na experiência do sujeito psicossocial. É importante, para Williams, pensar além da reprodução do significado de valores, pois a cultura, em sua forma de arte, literatura e meios eletrônicos, é também uma fonte de produção simbólica à qual o sujeito está inserido. Os significados produzidos pela cultura são, para o autor galês, uma fábrica de subjetividades. E é nas subjetividades que se constrói o mundo e a contagem de histórias, seja nos folhetins, na literatura, na TV e nas séries. A arte também enquanto cultura, seja até mesmo industrial, é a janela para a compreensão deste mundo. Produzir novas formas de contar o mundo é produzir novas formas de enxergá-lo. Por isso, hoje, ressurgem as discussões de representatividade nas narrativas, sobretudo as seriadas dos meios eletrônicos, que têm uma abrangência vertical de classes em nossa sociedade, com maior protagonismo na atualidade dos grupos raciais e LGBTQI+. As narrativas seriadas são globais do ponto de vista da cultura, pois atravessam a concretude do social rumo à psique do sujeito, e do ponto de vista de distribuição territorial. François Jost nos lembra que “a verdade é que todas essas ficções preenchem o desejo de saber, aquilo que os escolásticos chamam de libido cognoscendi” (2012, p. 45). É neste contexto global e mundial que as narrativas seriadas se sedimentam como uma das formas de maior sucesso de narrar o mundo.
É próprio da análise cultural a articulação entre produção e consumo. Citam Citelli et al (2014, p. 375) o descontentamento dos autores alinhados aos estudos culturais com quadros
62 tradicionais do pensamento marxista, o que fez com que pesquisadores da sociologia, da crítica literária, dos estudos de mídia e da psicologia procurassem pensamento crítico no campo que se convencionou chamar de ciências humanas. Williams foi um destes pensadores que questionou fronteiras entre as culturas das classes altas e das massas, pois identificou entre os produtos culturais circulantes aqueles que permitem uma identificação projetiva entre sujeitos de diferentes repertórios. Algo os conectava e isso interessava ao autor. Estes produtos conectores, ordinários e circulantes abarcam características culturais que são preponderantes e transversais a diferentes classes e em determinada época, recusando o autor a discriminar produtos culturais de acordo com classes sociais de maneira hermética, seja do ponto de vista da produção, seja do ponto de vista do consumo. Naturalmente, diferentes classes têm diferentes acessos a determinados produtos. O que interessava ao autor era a cultura que se materializava de forma a circular entre diferentes sujeitos, gerando identificação. Martin-Barbero recorre a Néstor Canclini para nos auxiliar a compreender que o fundamental é entender que as culturas subalternas e hegemônicas, na visão marxista, "foram pensadas como exteriores entre si. Com o pressuposto de que a tarefa da cultura hegemônica é dominar e da cultura subalterna resistir” (MARTÍN-BARBERO, 2013, p. 113). Se quisermos fazer uma analogia com nosso tempo, é como enxergar a programação da TV por assinatura, reconhecida e identificada por institutos de pesquisa de mercado como a Kantar como um serviço caro e majoritariamente consumido pelas classes A e B no Brasil, como algo somente possível de ser desejado ou desfrutado por estas classes com mais recursos econômicos e bagagem cultural. Na plenitude econômica que o Brasil vivenciou entre os anos de 2005 a 2012, vimos como as classes mais baixas da população, quando empregadas, passaram a ter o combo TV por assinatura, internet e telefone em suas casas7, mostrando afinidade com produtos culturais internacionais ou segmentados.
Genericamente, as contribuições da Escola de Birmingham8 para a comunicação são: a legitimação de objetos menores, decorrência da problematização da hierarquia entre o que é culto e o que é popular; a ampliação da categoria texto, que inclui tantos os artefatos culturais quando as práticas simbólicas aí envolvidas, isto é, o consumo, entendido pela via das apropriações e ressignificações; o papel ativo da cultura na constituição dos processos sociais e sua relação com poder e hegemonia (CITELLI et al., 2014, p. 254).
7 Mídia Fatos da Associação Brasileira de TV por Assinatura. Disponível em: <http://midiafatos.com.br/dados/>. Acesso em: 29 dez. 2020.
63 Observa Cevasco que “o materialismo cultural não considera os produtos da cultura ‘objeto’ e sim práticas sociais: o objetivo da análise materialista é desvendar as condições dessa prática e não meramente elucidar os componentes de uma obra” (2001, p. 160). Como aponta Kakutani, essa relutância contra o que se havia produzido desde o estabelecimento da instituição acadêmica como expressão máxima do iluminismo tomou forte expressão nos movimentos contraculturais abraçados pela Nova Esquerda na década de 1960 (2018, p. 17). Eram movimentos não identificados com a luta operária, pois ela não falava por eles. Havia algo além do que as estruturas poderiam captar ou tentar encaixar. E o mesmo se dava para os produtos culturais que, por mais que fossem produzidos primordialmente pelas classes dominantes, elites intelectuais (autores), empresários da mídia (donos do capital), como o são até hoje antes da retomada do olhar para os movimentos culturais periféricos, ainda assim, havia algo que atravessava o consumo de diferentes classes. Estava no dia a dia esta cultura que se materializava na forma de viver e nos movimentos de consumo de bens.
Em Marxism and Literature, ele [Williams] nos lembra que a tradição, ao contrário do que querem fazer crer os conservadores, não é um segmento historicamente inerte. Toda tradição é construída segundo um princípio de seleção, funciona como um poderoso mecanismo de incorporação, articulando processos de identificação e de definição cultural. Mais importante do que tudo isso, funciona como um elemento formador do presente, apresentando uma versão do passado deliberadamente criada para estabelecer uma conexão com o presente e ratificar seus significados e valores (CEVASCO, 2001, p. 72).
Neste sentido, ao tratarmos da circulação de séries via plataformas em nosso tempo, que atuam de forma global e são oferecidas para todos os que possam adquirir, como no caso da HBO, e têm produtos culturais que extravasam culturas e classes, é pertinente utilizar o materialismo cultural de Williams como aporte metodológico, ancorando na estrutura de sentimentos o ferramental para a análise de bens culturais cujo consumo reflete e amplia a reflexão sobre o tempo em que circulam e pelas classes por quem são consumidos. Observa Coiro Moraes que o materialismo cultural “se constrói em interlocução e amplia o materialismo dialético de Marx e Engels” (2018). A televisão, meio em que nosso corpus se transmite, foi um foco de interesse de Williams, diferente de muitos intelectuais de esquerda que se propuseram a denunciar este meio como "índice da decadência cultural" (CEVASCO, 2001, p. 224). Williams observa a aderência do meio a diferentes classes e se propõe a observar, com
64 olhos de pesquisador, os potenciais do meio televisivo e sua capacidade de prover acesso à informação e entretenimento em escala. É este acesso que vivenciamos no mundo hoje.