4.3 IMPLICAÇÕES SOCIAIS E ÉTICAS
4.3.1 Maternidade, paternidade e família redefinidos
Nove das 23 matérias da Folha de S. Paulo fazem referência explícita à temática de gênero. Nelas, a maternidade aparece ligada ao feminino no sentido proposto por Scott de que a essência feminina é determinada socialmente. A reprodução ainda é apresentada como assunto predominantemente feminino, dando-se pouca ênfase aos fatores masculinos de infertilidade, se comparado aos destaques sobre a fertilidade ou
infertilidade feminina (COLLUCCI E BASSETTE, FSP, 13/05/05; BASSETTE, FSP, 30/10/05 e REPORTAGEM LOCAL, FSP, 0005/06/05). Ressalta-se o desejo antropológico da mulher em ser mãe, como na matéria Da Associated Press (FSP, 17/01/05), que conta a história de uma mulher de 66 anos que quis ser mãe a qualquer custo: “[...] Iliescu declarou que não ‘podia conceber a idéia de não ter filhos’”. A realização profissional, acadêmica, financeira e maternal das mulheres e o respectivo adiamento da maternidade são argumentos usados para justificar o emprego da reprodução assistida (COLLUCCI, FSP, 20/03/05; RAMÍREZ-GÁLVEZ, 2003).
Um outro ponto a ressaltar é que as entrevistas sobre reprodução humana são com pacientes do sexo feminino, como se nota em Collucci (FSP, 12/05/05; 12/06/05 e 27/06/05), sendo que apenas uma delas faz menção ao papel do homem “como pai”
(COLLUCCI, FOLHA DE S. PAULO, 09/05/05). Essa preponderância do gênero feminino tende a reforçar explicações biológicas, encobrindo a construção cultural do feminino ligado à maternidade, como papel adequado para as mulheres (SCOTT, 1995). No mais, em 14 do total de matérias não há referência à temática de gênero.
No que diz respeito aos valores ligados à fam ília tradicional, fica a pergunta: o que é natural uma vez que o processo de fecundação, implantação e gravidez podem ser separados? As reportagens não aprofundam o debate, mas citam a barriga de aluguel (terceiras pessoas envolvidas para manter a “família tradicional”), as novas possibilidades de maternidade e paternidade além da relação sexual (solteiros, produção independente versus possibilidade de postergar a idade fértil), e práticas seletivas de embriões por sexo e características (diagnóstico pré-implantacional e geração de vidas “saudáveis” ou “desejáveis”).
Destas práticas resultam muitas perguntas, boa parte sem respostas exclusivas, como esta:
JC é uma menina planejada nascida nos EUA: os óvulos e o sêmen para sua concepção vieram de doadores anônimos e uma ‘barriga de aluguel’ a gestou.
Quando nasceu, o casal que a planejou havia acabado de se separar. Quem são os pais de JC? (LUNA, 2007, p. 15).
Alguém muito rapidamente poderia responder que os pais biológicos são os doadores de gametas, a mãe gestacional a que “emprestou” o útero e os pais de fato,
juridicamente, aqueles que planejaram o bebê e se separaram. Mas fazemos outra pergunta: estes pais eram heterossexuais ou homossexuais? Deste último questionamento, muitos outros podem surgir. A propósito, as tecnologias reprodutivas não só podem contornar a ausência de gravidez após um ano de tentativas em relações heterossexuais, definição dada inicialmente pela OMS, mas também, conforme RAMÍREZ-GÁLVEZ (2003, s.p):
A possibilidade de ter filho biológico é estendida a outras situações nas que a dificuldade reprodutiva não necessariamente está dada por um impedimento da função orgânica/corporal, como no caso da reprodução em mulheres celibatárias ou em relações homossexuais. Em princípio, essas tecnologias parecem ‘democratizar’ o desejo de ter filhos biológicos uma vez que sua realização não estaria restrita ao contexto da heterossexualidade.
A discussão de formação de famílias por casais homossexuais não está presente na Folha. A ênfase é na tradição e tensão de um casal heterossexual em formar família com filhos. A matéria de Collucci (FSP, 13/05/05) traz uma fala da pressão subjetiva, uma espécie de cobrança indireta de que tenham filhos. Cabe considerar que a emergência do modelo de família nuclear moderna (pais e filhos) é historicamente determinada e possui influência da Bíblia, da qual é bastante conhecida e integra o ditado popular a expressão “árvore sem fruto”. Contudo, estas posturas não são infensas a questionamentos. Esta cobrança em ter filhos é bem retratada por Luna (2007) que realizou entrevistas com pacientes e profissionais de serviços de reprodução assistida.
A ausência voluntária de filhos é tida socialmente como resultado de planejamento e associada ao processo produtivo de “fechar a fábrica”, mas a involuntariedade, gerada pela infertilidade, é estigmatizada na nossa sociedade, sendo atribuídas simbologias ligadas a fenômenos naturais e histórias de tradição bíblica, como “árvore seca”, “figueira que não dá figo”, fonte que secou, flor murcha, ou seja, imagens da umidade fecunda e da aridez estéril (LUNA, 2007, p. 69). Depender da artificialidade para ter filhos é percebido como drama e sofrimento. Ocorre, pois, com as novas tecnologias reprodutivas conceptivas, um processo de “modernização conservadora”, nos “velhos termos do parentesco e da família consangüínea”
(RAMÍREZ-GÁLVEZ, 2003, s.p).
Este sofrimento tem origem na manifestação do desejo da maternidade, de acordo com as matérias da Folha de S. Paulo; parece se tratar de um desejo inerente à biologia da mulher, reforçando novamente as questões biológicas sobre as sociais envolvidas na maternidade.
Com base nas definições de Scott (1995), compreendemos melhor a manifestação do desejo da maternidade e da luta pela sua realização, mesmo que tardia, como o caso da Iliescu, que concebeu aos 66 anos. (FSP, 15/06/05 e 17/01/05).
A maternidade é um símbolo cultural, formando parte do sentido de ser feminino. As relações familiares que concebem que a realização da mulher não se dá sem que ela seja mãe se constituem pelas relações sociais, sendo a mídia uma das instituições que ajuda a reforçar essa visão. Atualmente, observamos uma incorporação do novo, o postergamento da maternidade e sua realização em idade tardia com auxílio das tecnologias reprodutivas conceptivas, ao velho, a manutenção da família tradicional. Ali se encaixam as possibilidades brindadas pelas NTRS como, por exemplo, o congelamento de óvulos da mulher jovem para a reprodução num momento em que ela tenha uma vida emocional estável e tenha aproveitado oportunidades profissionais.
Desse modo, a mídia difunde a promessa da gravidez, como afirma Ramírez-Gálvez (2003, s.p):
O desenvolvimento e aprimoramento de sofisticadas técnicas de diagnóstico e intervenção, assim como as narrativas publicitárias da reprodução assistida afirmam e lembram às mulheres que estão ali para ajudá -las a cumprir seu destino, que não pode ser mais considerado ‘natural’, uma vez que as fronteiras do ciclo reprodutivo são estendidas para permitir a reprodução inclusive na menopausa ou com óvulos rejuvenescidos.
Tomando gênero como a organização social da diferença sexual, concluímos que a Folha de S. Paulo contribui significativamente para a formação de uma identidade para as mulheres que está ligada ao corpo, à natureza, à reprodução e à maternidade (educação informal). Entretanto, contraditoriamente, nas mesmas matérias, tal identidade aparece ameaçada pelo surgimento de novas formas de maternidade, paternidade e família possibilitadas pelas mesmas tecnologias reprodutivas.