CAPÍTULO 3: DEFESAS NÃO-TODAS DO NÃO-TODO
3.4 Maternidade: tratamento, defesa ou tormento
[...] homem, e mulher são apenas significantes absolutamente ligados ao uso discorrente da linguagem. Se há um discurso que lhes demonstre isto, é mesmo o
discurso analítico, ao pôr em jogo o seguinte, que a mulher não será jamais tomada senão quaoad matern. A mulher só entra em função na relação sexual enquanto mãe.
[...] Graças à escrita. Ela não fará objeção a esta primeira aproximação, pois é assim que ela mostrará ser uma suplência desse não-todo sobre o qual repousa o gozo da mulher. Para esse gozo que ela é, não-toda, quer dizer, que a faz em algum lugar ausente de si mesma, ausente enquanto sujeito, ela encontrará, como rolha, esse a que será seu filho. (Lacan, 1972-73/2008, p. 41).
Nessa longa passagem, Lacan nos faz indicações valiosas para abordarmos a maternidade. A primeira já desdobramos ao longo desta dissertação, isto é, a mulher não se inscreve no inconsciente, a mãe se inscreve, pois surge como uma nomeação para o feminino, ou seja, uma tentativa de contornar esse indizível. Então, verifica-se que, para defini-la, nomeando-se mulher, é preciso passar pelo registro fálico, sendo a maternidade uma dessas possibilidades de nomeação. Entretanto, nessa mesma passagem, Lacan nos apresenta uma indicação valiosa, isto é, de que o filho pode assumir um lugar de “rolha” e preencher esse lugar de ausência de si mesma em decorrência desse gozo que não se inscreve no simbólico. Ao que nos parece, esse lugar de tamponar pode se apresentar como uma defesa ao feminino.
Nesse sentido, para que a maternidade não seja uma defesa ao gozo, é preciso que a criança não sature, para a mãe, a falta em que se apoia o seu desejo. O que isso quer dizer? Que a mãe só é suficientemente boa se não o é em demasia, ou seja, se os cuidados que ela dispensa ao filho não a tamponam e, assim, desviam de desejar enquanto uma mulher (Miller, 2014b).
Assim: “Ou a criança preenche, ou a criança divide. Quanto mais a criança preenche a mãe, mais ela a angustia de acordo com a fórmula segundo a qual é a falta da falta que angustia. A mãe angustiada é, inicialmente, aquela que não deseja, ou deseja pouco, ou mal, enquanto mulher.”(Id., 2014b, p.5) Por isso, é importante destacar que a maternidade apresenta ser uma defesa ao não-todo quando o filho se apresenta em um lugar de obturar a falta, de ser tudo para a mulher, isto é, o seu único objeto de desejo.
Miller nos coloca que o verdadeiro em uma mulher se mede pela distância subjetiva da posição da mãe. Querer ser uma mãe é, para uma mulher, querer fazer-se existir como A mulher (Miller, 2012/2020). Desse modo, a criança deve estar entre a mãe e a mulher, pois é saudável que a mãe não deixe de desejar enquanto mulher, em razão de que é à medida que o não-todo da mulher é preservado na mãe, esse outro gozo que não responde pela via do materno, que a criança poderá fazer de sua verdade uma outra ficção que não a de obturar a falta materna.
Retornando aos exemplos das influenciadoras digitais, observamos que também circula, nas redes sociais, a figura d’A mãe como aquela que tem o saber inscrito no organismo, isto é, o instinto que diz a respeito da maternidade e o saber correto sobre como ser mãe. Alguns dos discursos que mais circulam são: criação com apego; maternidade real; amamentação por livre
demanda; as polêmicas do uso da chupeta, do açúcar, da fórmula; o jeito certo de amamentar, de fazer o bebê dormir etc. São tentativas de instituir modelos para fazer A mãe existir, como se houvesse uma garantia de que, ao seguir todas as regras dos infinitos manuais, a criança irá se desenvolver de forma saudável. Isso nos parece ser mais um modo de fazer existir a relação sexual e A mulher.
Assim, a maternidade pode se apresentar como uma defesa a esse gozo que não permite sua inscrição e representação nos manuais. Quanto mais identificada com a mãe, mais disposta a não renunciar a nada depois da maternidade, quanto mais entusiasmada em fazer o filho sentir que é A mãe, mais distante de inventar uma solução singular em relação à sua própria posição feminina, ou seja, em relação ao seu desejo e a seu gozo como uma mulher.
Antes de finalizar, é importante abrirmos um parêntese para colocarmos que a maternidade pode ser um tormento para algumas mulheres. Em uma pesquisa anterior, intitulada “Enlaces e desenlaces sobre maternidade e feminilidade no mundo contemporâneo”34, identificou-se que um filho não assume valor fálico para todas as mulheres.
O que aparece no discurso de algumas mulheres é uma desfalicização e associação do filho como objeto dejeto. Ser mãe remete à privação, significa o empobrecimento de si, a anulação e a perda de valor. Podemos verificar essa dimensão na fala de algumas participantes da pesquisa35:
- “Vejo um filho hoje como um obstáculo. Não é um investimento que você vai fazer e obrigatoriamente você vai ter um retorno.”36
- “Filho é um atraso de vida, só serve para atormentar. Ser mãe é um atraso de vida, uma cruz pra carregar. Ser mãe deve ser uma porcaria.”
- “Eu nunca sonhei em casar e ter filho, sempre quis trabalhar, ser independente, sempre quis ter meu carro, trabalhar o dia inteiro, viajar, ter meu dinheiro.”
34Artigo: Os enlaces entre maternidade e feminilidade no mundo contemporâneo apresentado como Trabalho de Conclusão do Curso de Psicologia (2018) da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (CMMG). Pesquisa realizada por: Clara Ottoni, Larissa Duarte e Paula Ramos Pimenta (Orientadora do Trabalho de Conclusão de Curso). Artigo aguardando publicação.
35 A pesquisa teve como objetivo compreender a vivência da feminilidade para além da maternidade, questionando a equivalência entre feminino e maternidade. Considera as transformações dos padrões da sociedade, onde a mulher passa a ocupar outras posições, deixando de ser apenas mãe e tendo outras nomeações, com outros sentidos à sua vida, para além da maternidade. Os sujeitos da pesquisa foram 15 mulheres que fizeram a opção por não terem filhos, tendo sido uma escolha clara e consciente, e não fruto de alguma disfunção sexual ou alteração fisiológica que viesse a impedir a gestação. A coleta de dados aconteceu por meio de entrevistas semiestruturadas.
O N (=15) seguiu os seguintes critérios de inclusão: mulheres heterossexuais entre 30 e 70 anos, saudáveis, sem problemas fisiológicos relacionados à reprodução e que tomaram a decisão de não terem filhos, casadas ou em uma união estável, há mais de dois anos. Outro critério de inclusão no estudo foi a concordância em participar da pesquisa, após esclarecimento sobre a sua natureza e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em pesquisa com seres humanos.
36 As falas foram retiradas da pesquisa realizada.
- “Não quis cuidar de outra pessoa, fazer comida pra outra pessoa. Sempre fui assim um pouco egoísta, sempre quis cuidar só de mim.”
- “Ter filhos significa que o outro é prioridade e não você.”
- Não quero meu corpo modificado, não quero esse problema. Se tivesse filho, seria um bibelô, iria terceirizar tudo. Eu me anular, fazer escolhas, prejudicar a minha vida profissional.”
- “Eu nunca me vi nesse papel de querer cuidar do outro, de chegar na minha casa e estar tudo bagunçado, de ter mais gastos. Se for pra gastar eu prefiro gastar comigo.”
- “Ser mãe é entrega total.”
- “A mãe perde muito a individualidade.”
- “Eu não poderia dar aquilo que eu considero ideal para uma criança.”
- “Eu acho, pelo menos pra mim, porque eu sou uma pessoa que me cobro em tudo na vida, seria uma coisa que eu me cobraria cinco vezes mais.”
Então, os achados dessa pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso corroboram a máxima lacaniana sobre a inexistência da mulher, que remete à impossibilidade de haver um universal que designe o que é ser uma mulher. Se existem mulheres que têm um filho como objeto fálico e outras que não, o ideal imposto a uma essência da mulher demonstra ser inconsistente. Assim, o estudo pretendeu escutar mulheres que optaram pela não maternidade, não tendo como propósito justificar, refutar ou rejeitar a escolha por não ter filhos. Identifica-se, no discurso dessas mulheres, que o filho não assume um valor fálico, contudo essas instituem outros objetos de valor para a sua vida, como o trabalho, os estudos e os bens materiais.
Entretanto, observou-se que, no imaginário dessas mulheres, uma mãe e uma mulher não podem vacilar, não podem errar ou ter dúvidas. Parece-nos que o que há é uma insistência para a mãe e a mulher existirem como toda, como A, não podem ser sujeitos divididos no seu gozo. A partir da análise em questão, foi observado que parte dos sujeitos da pesquisa não podem perder nada de si, nada da imagem, sendo o filho um obstáculo para a integridade dessa imagem construída. Contudo, outras participantes salientaram que até consideraram a maternidade, mas não se viram capazes de realizarem essa função de forma ideal. Essas mulheres creem na existência d’A Mulher, aquela que tem O instinto materno inscrito no organismo.
Assim, para concluir, é importante ressaltar, através dos exemplos tratados ao longo deste capítulo, essa insistência em querer fazer Um, isto é, um todo consistente para, assim, estabelecer o conjunto universal, com regras definidas para ser mulher. Entretanto, o paradoxo é justamente precisar de um universal, isto é, de uma figura que representa um ideal de mulher para dizer o que é da ordem do absolutamente singular e, portanto, que não obedece a uma lógica do compartilhamento do saber. Logo, a questão que insiste é que, se o feminino não está
do lado dos semblantes, entretanto, prescindir deles pode arrastar ao pior, como vimos com Medeia. Então, do que se trata a posição feminina?
Para tentarmos responder a essa questão, abordaremos, na próxima seção, a posição feminina. Para tanto, nos serão de máxima importância: a formulação que abriu esta dissertação:
“A mulher, isto só se pode escrever barrando-se o A. Não há A mulher, artigo definido para designar o universal” (Lacan, 1972-73/2008, p. 79) e a formulação que abriu a nossa investigação sobre a histeria: “Essa verdade, como encarnada na histérica, será que ela de fato seria susceptível de um deslizamento flexível o bastante para a introdução de uma mulher?”
(Lacan. 1971/2009, p.146).