4. Resultados e Discussão
4.1. Histórias de Vida:
4.1.7. Matilde: A Emigrante
“(…) tenho que dizer que a minha situação financeira é bastante satisfatória, consigo poupar e ter uma boa vida (…) e sempre que quero estou em Portugal em três horas (…) venho a casa no Natal e no verão, isso é sagrado.”
Matilde tem 24 anos, é solteira e filha única. Nasceu em Tondela, mas aos 7 anos foi residir para Lisboa, para onde o pai foi trabalhar. Estudou em Lisboa, onde sempre viveu com os pais. Filha de um licenciado em gestão de mmpresas a exercer o cargo de diretor comercial numa empresa do ramo automóvel e de uma professora de Português e Francês no terceiro ciclo do ensino básico, teve uma vida de estudante que foi semelhante às dos jovens da sua geração. Colaborando nas tarefas domésticas, usufruiu de liberdade com responsabilidade: “Tive uma vida de estudante normal, de quem vive em casa dos pais, com liberdade (…) sempre tive de fazer as minhas tarefas domésticas, sei lá, fazer a cama, ajudar a minha mãe na cozinha e essas coisas. Se não estivesse ninguém em casa, cozinhava para mim, sempre fui desenrascada a cozinhar (…)”.
Iniciou a Licenciatura em Economia na Universidade Nova de Lisboa, em setembro de 2008, para a concluir em junho de 2012. Escolheu economia por gostar de matemática e ter algumas noções de contabilidade, que aprendeu com o pai, que foi quem a influenciou na escolha do curso: “Na faculdade segui economia, porque gostava de números, gostava de matemática, já tinha umas noções de contabilidade, porque o meu pai trabalhava nessa área, na altura, portanto, tive aquele empurrão familiar (…) Eu sempre gostei de contabilidade e de controlo de gestão, mas na hora de escolher achei que um curso de contabilidade poderia ser pouco abrangente.”
Durante a frequência da licenciatura em economia revelou empenho e gosto pelas disciplinas e pelos professores. Demonstra saber o que ambiciona com uma atitude responsável. Desvaloriza o facto de ter demorado 4 anos a concluir um curso de três: “Demorei um ano a mais a terminar o curso, nada de extraordinário, uma
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cadeira atrás aqui, outra ali, uma melhoria de nota ou outra a mais e num instante passa mais um ano. Os pais realizaram fortes investimentos culturais, e, assim, Matilde praticou atividades extracurriculares como dança, ballet e música, tendo estudado violino. Estas atividades ocupam ainda os seus momentos de lazer. Mantém as amizades geradas ao longo do ensino básico e secundário. Na faculdade também fez algumas amizades, mas como refere “(…) não foi propriamente uma experiência que mudou a minha vida… eu fui para a Nova, fiz algumas amizades na faculdade claro, mas os meus melhores amigos fiz no básico e no secundário.”
A transição para a vida adulta ocorreu após a conclusão da licenciatura, quando Matilde encontrou o primeiro emprego. Em lugar de prosseguir para o mestrado, o objetivo de Matilde era conhecer outros países e outras realidades:
“(…) quando acabei o curso estava um bocado indecisa, o meu pai perguntou- me se eu queria fazer mestrado, o que é que eu queria fazer da minha vida, se queria continuar; e eu decidi que queria um bocado partir à exploração (…) queria conhecer o mundo pelos meus olhos.” Uma amiga dos pais proporcionou-lhe a oportunidade de trabalhar no Luxemburgo, país onde Matilde considerava que poderia viver confortavelmente. Mas para Matilde, o trabalho no Luxemburgo, onde reside e trabalha há dois anos e meio, é apenas a primeira experiência:
“A minha ideia foi logo ir para o centro da Europa, porque isso ia-me permitir viajar e conhecer realidades diferentes, mas, ao mesmo tempo, era relativamente perto de casa. Arranjei um emprego no Luxemburgo, através de uma amiga dos meus pais que está lá emigrada há muitos anos.”; “O Luxemburgo tem muitos portugueses e (…) isso também ajuda. Acho até hoje que foi uma boa opção. Ganha- se bem, dá para viver confortável, viajar e ainda poupar um bocado.”; “(…) o Luxemburgo não passa de um patamar, apesar de não ter prazos.”; “(…) foi uma hipótese que surgiu como poderia ter surgido outra qualquer.”
Entretanto, no Luxemburgo, Matilde encontrou outro emprego, estando a chefiar um gabinete de contabilidade. A empresa onde trabalhava anteriormente era mais reputada, mas a posição atual corresponde a um projeto seu, o de ocupar uma
posição de liderança. Confessa que, inicialmente, sentiu-se intimidada, porque coordena pessoa mais velhas e que poderiam reagir mal à sua juventude. Porém os seus receios foram infundados. Matilde diz que na empresa atual as perspectivas de progressão na carreira são limitadas e, por isso, continua atenta ao mercado internacional: “Neste momento, estou a chefiar um pequeno gabinete de contabilidade. A empresa onde estava antes era maior e mais reputada, mas (…) esta foi uma primeira oportunidade de liderança e pronto, não quis desperdiçar, quis ver como seria liderar e acho que me estou a dar bem.” Trabalhar no Luxemburgo significa ter uma carga horária pouco sobrecarregada e flexível, o que lhe permite conciliar a vida de trabalho com a sua vida pessoal:
“(…) o emprego em si não é muito difícil, nem tem um horário puxado, tenho as normais horas de trabalho, e consigo entrar e sair à hora, nada de sobrecargas. Consigo ter muito tempo para as minhas coisas, que também é importante.” “(…) não temos o sol inacreditável para ir para a esplanada beber imperiais, ou para ir passear ao pé do rio. Digamos que sair de casa só porque sim, à procura de alguma coisa para entreter, (…) nunca é tão aliciante. Parece que tenho mais tempo, até..., mas há sempre uma série ou um filme para ver enrolada numa manta. (…) “Mais de metade dos fins de semana saio do Luxemburgo e coordeno as viagens ou com a sexta à tarde ou com a segunda de manhã, tenho essa flexibilidade.”
É convicção de Matilde que se estivesse a trabalhar em Portugal teria menos autonomia e certamente sentiria maior dificuldade em conciliar o trabalho e a vida pessoal: “(…) por causa da geografia, o Luxemburgo tem muito mais para onde ir à volta. E, depois, as condições laborais. Eu vejo pelos meus amigos que ainda estão aqui em Portugal... ouço as histórias das minhas amigas que estão cá a trabalhar (…) maus salários, sobrecargas horárias absurdas, chegam ao fim-de-semana e só querem dormir, poucas oportunidades de progressão (…)”. Apesar de já ter feito amigos, Matilde vive sozinha no Luxemburgo. Reserva a companhia para mais tarde, quando casar e constituir família: “Podia viver com alguns dos amigos que já fiz, já me convidaram, já tive oportunidades, mas (…) gosto muito de ter o meu
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espaço (…) agora só quando casar e felizmente ou infelizmente não há perspectivas disso.”. Matilde é uma jovem independente, aprecia a autonomia e o projeto familiar, que não põe de parte, não é preponderante. Tal como tantos outros jovens adultos da sua geração, considera que qualquer projeto familiar depende de estabilidade financeira. Portanto, por enquanto os seus projetos incluem: “(…) continuar a ter uma vida tranquila em que seja dona de mim própria e possa sempre ir fazendo as coisas que gosto (…) e estar rodeada das pessoas que gosto.; “(…) provavelmente hei-de casar e ter, pelo menos, dois filhos. Não gostei muito de ser filha única. Três também já é demais, é preciso paciência e folga financeira.”; “(…) a ideia da família é-nos instituída socialmente, se calhar não é uma necessidade, ou uma vontade de todas as pessoas. Às tantas até vou continuar bem assim por muito tempo, nunca se sabe.”.
Profissionalmente Matilde tem a ambição de melhorar a sua situação profissional e, desse modo, a sua situação material. Não descarta a possibilidade de fazer um mestrado, caso se justifique: “A nível profissional, quero continuar a evoluir e ganhar cada vez mais, e ter cada vez mais reconhecimento.”; “Talvez tirar um mestrado que dê jeito a um futuro empregador, não sei”. O mestrado parece ser, assim, um meio para assegurar a concretização de um fim económico. Matilde condiciona o mestrado ao que 'dê jeito' a um empregador, o que significa que estará disposta a abdicar da escolha da área.
Matilde não adiou a transição para o trabalho. Antes, tomou a decisão de trabalhar no estrangeiro e concretizou o projeto através da rede de contactos dos pais. O Luxemburgo é o país onde continua a residir e a trabalhar, mas não descarta a possibilidade de ir trabalhar para outro país. Valorizando a sua independência e autonomia, Matilde aprecia a forma mais relaxada que caracteriza o trabalho no Luxemburgo. A jornada de trabalho não é tão longa como provavelmente seria em Portugal, o que lhe permite conciliar a vida de trabalho com a sua vida pessoal. Tem projetos familiares que admite poder vir a concretizar no longo prazo, mas que se subordinam à consolidação de uma posição financeira estável. O carácter
instrumental das suas opções, por exemplo, no que toca ao mestrado, pode refletir uma disposição associada à sua área de formação. Em qualquer caso, Matilde reflete uma visão otimista da existência e não parece preocupada com a instabilidade e a insegurança que caracteriza o mundo do trabalho.
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