CAPALONGA: Já nós lá vamos.
ARNOLFE: Anda, obedece às ordens de minha futura esposa.
CAPALONGA: Esposa, cunhada, grande parentesco! Grande parentesco!
(Vai a partir, vê Matilde e volta.) A senhora que chega.
CENA 6.ª MATILDE e os ditos.
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ARNOLFE: A que tornavas a esta casa sem licença minha? MATILDE: Foi porque vossa mercê…
ROSAURA: Não deis satisfações; veio, porque foi seu gosto. E, então, que
temos? [59v]
ARNOLFE: Foi desacerto.
ROSAURA: Oh, vossa mercê é muito reparista. Mal sabe o que tem de
aturar-me!
ARNOLFE: Estimo essa notícia; vou-me chegando para bordo. (Vai a
partir.)
ROSAURA: Sossegue, é bem fogoso. De nada se encoleriza? ARNOLFE: É que tenho aprendido de vossa mercê.
ROSAURA: Minha estimabilíssima cunhada, já livremente podereis dizer
a Florindo os vossos colóquios.
MATILDE: Eu, senhora, dependo da vontade de meu tio, pois estou
sujeita ao seu domínio.
ROSAURA: Nunca dizeis outra coisa, sempre o mesmo, sempre o mesmo!
Essa modéstia é bem alheia do estilo com que vos explicaste na carta.
MATILDE: Aquela carta que meu tio me entregou, supondo que fosse
minha, foi um bichaneiro de Jacopina para Mandarim, como ela poderá afirmar; nem eu tinha a confiança de escrever a vosso irmão, atendendo ao meu carácter, nem uso daqueles termos para explicar-me.
ARNOLFE: Assim será: Matilde não é capaz [60] de outra coisa. ROSAURA: Já estais mudado. ‘Inda não vi outra! Isso já são anos! ARNOLFE: E isso é mau génio.
ROSAURA: Porém, menina, Florindo apenas soube desta resolução de
vosso tio, fechou-se no escritório a dar balanço às suas contas, ver os lucros que tem feito, para assim despender nestas funções. Agora mandei-o chamar para certificar-se desta fortuna; ele que chega.
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ARNOLFE: É o doido do cavalheiro.
CENA 7.ª
DOM GUSMÃO e os ditos.
GUSMÃO: Já mandei retirar os Algarves, pois Florindo diz que já não
parte. ‘Inda não pode saber-se o motivo?
ROSAURA: Sim, já é público: esposa-se com a senhora dona Matilde. GUSMÃO: Isso supus eu há muito tempo: para que havia retirar-se esta
senhora para Génova, melhorando nesta corte de felicidade? Só o ginja do tio é que poderia convir em semelhante materialidade.
ARNOLFE: Senhor, não me excite… [60v]
GUSMÃO: Ele com o seu fogo! Sois o homem mais esquisito que tenho
visto.
ARNOLFE: E vossa senhoria o petulante maior que tenho presenciado. ROSAURA: Essas questões requerem outra conjuntura; hoje tudo é prazer. GUSMÃO: Já se sabe, em um dia semelhante, ninguém desconfia de
quatro ditérios.
CENA 8.ª
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COLOMBINA: Graças ao céu que já se divisa alegre o semblante do
senhor Florindo! Dei o recado e, impaciente, se encaminha a buscar-vos.
MANDARIM: Uma vez havia presenciar-se meu amo risonho de risota. Já
lá vai a viseira, ergueu-a para cima do elmo e aí vem correndo como uma criança.
MATILDE: Muito afecto me dedica.
ROSAURA: De tudo sois credora. (Ao criado) Torna a casa do tabelião. MANDARIM: Vou a bordo buscar os baús, antes que parta o navio. (Vai-
se.)
GUSMÃO: Caríssimo Arnolfe, servi-vos do meu alfaiate para o vestido do
[61] noivado, pois precisa-se de apareceres decentemente e não por esse ginjativo feitio.
ARNOLFE: Senhor, vossa senhoria não me deixará?
ROSAURA: Eis que chega meu irmão. Vinde, vinde, Florindo, a possuir o
fim dos vossos desvelos e também assegurar ao senhor Arnolfe os oitenta mil cruzados do meu dote.
GUSMÃO: (Para Rosaura) Pois, decerto… ROSAURA: (A dom Gusmão) Calai-vos.
CENA 9.ª
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FLORINDO: Senhores, não pude mais cedo desembaraçar-me das minhas
ocupações; sinto a vossa demora quanto não posso explicar-vos. Porém, esta satisfação espero que mereça a desculpa. Rosaura, prudentemente, tenho reflectido nos meus interesses e não posso dar-vos de dote mais que dez mil cruzados, entrando nesta quantia os seiscentos mil réis que por morte de nosso pai vos pertenciam. Senhor Arnolfe, é verdade que, cego de uma paixão amante, com excessivos rogos, pretendi demover o coração de [61v] vossa sobrinha a estimar-me, desprezando o esposo que seu pai lhe destina, o que ela nunca consentiu, por sábia e modesta, como também é falsa essa carta, que supuseste me enviava, pois jamais se deliberou acção que não fosse consultada com a virtude e acerto. Eu, imprudentemente, fui o motor dessas desconfianças, pois estava alucinado. Agora, porém, que achei um amigo fiel que soubesse aclarar-me a ideia, limpando-lhe as teias que tinham formado impudicos pensamentos, estou obrigado a suplicar-vos perdão, instando-vos a que volteis à pátria a executar o imposto preceito de Anselmo, vosso irmão. E vós, senhora dona Matilde, esquecei-vos das minhas expressões, do afecto que vos tributava que tanto, então, foi causa do meu gosto quanto agora de aborrecimento e confusão. Só peço que vos lembreis de como soube, mudando de projecto, vencer-me a mim mesmo. Ide, ide a ser ditosa, que eu já o sou com este arrependimento. (Chora com recato.)
RICARDO: (A Florindo) Não desfaleçais. [62]
FLORINDO: (Aparte) Constância coração, débil é um peito frágil para
resistir a tão violento combate. Porém, consiga-se o triunfo.
ROSAURA: Que é o que dizeis, Florindo? Conselhos do grande amigo?
Pois sabei que tendes em mim uma contendora, que saberá litigar.
FLORINDO: Estou prevenido, nada me assusta. ARNOLFE: Estou embatucado.
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GUSMÃO: Viestes deitar água na fervura. Quem vos meteu semelhante
asneira na cabeça? Desprezais a bela Matilde? Por que motivo?
FLORINDO: A emenda de um delito não é desprezo.
ROSAURA: Achou o senhor nos seus alfarrábios aquela política. FLORINDO: Os estímulos da honra a isto me excitam.
GUSMÃO: ‘Inda assim, uma carinha tão bonita por que se desperdiçavam
tantos extremos merece outra atenção.
MATILDE: Cavalheiro, detende os vossos discursos, pois o senhor
Florindo Aretuze fala como discreto e prudente; aquelas são as máximas que todos devem seguir. [62v] Eu as abraço, eu as estimo, por serem o abono das nossas felicidades: para o senhor, no sossego que fica desfrutando na sua pátria; e para mim, no desempenho da minha obediência.
ARNOLFE: Respondeste a meu gosto. Amigos, sem mais cerimónia, bom
foi este desengano antes de partir o Crosmett; senhora dona Rosaura, logo no primeiro navio que vier para este porto escrevo, mandando saber o estado da vossa demanda e…
ROSAURA: Pois já vos esquece?
ARNOLFE: De tudo estou lembrado: quatrocentos e vinte com dez não
ajustam os quinhentos, e sem os quinhentos não quero deixar de governar a minha casa.
ROSAURA: Mas o afecto que me tendes?
ARNOLFE: O ar do mar gasta muito depressa as saudades amorosas; e
demais eu não quero uma esposa enredadeira não sendo a peso de ouro, entendeis este português? Vamo-nos, menina.
MATILDE: Senhor Florindo, este é o final termo que tenho de ver-vos:
gozai em paz… [63]
FLORINDO: Estimável Matilde, sinto que tão depressa… (A Ricardo)
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Senhores, o céu vos guarde. (Vai-se.)
MATILDE: Ah, que digno coração de ser compensado. Melhor não se
dilate o embarque: senhores, com vossa licença… (Pondo o lenço nos olhos e vai-se.)
ROSAURA: Nem faz caso de mim, a sonsinha.
ARNOLFE: Tão pequeno foi o testemunho que lhe levantaste na factura
da carta! Tendes um génio… (Partindo) Amigo Ricardo, senhor dom Gusmão, à vossa ordem.
GUSMÃO: Já mandei retirar o escaler; quando não, ia acompanhar-vos. ARNOLFE: Sim, sim, por causa das dificuldades.
RICARDO: Vosso servo, senhor Arnolfe. (Vai-se Arnolfe.)
ROSAURA: Agora venho no conhecimento, senhor dom Gusmão, de que
Arnolfe é um ridículo.
GUSMÃO: Quando eu disser que a burra é preta, reparem-lhe para o
cabelo.
ROSAURA: Ficou frustrada a nossa ideia, mas estas jóias e dez mil
cruzados não é para desprezar.
GUSMÃO: Para um sujeito da vossa qualidade [63v] faz negócio, que os
diamantes têm seu fogo. Se não fora a minha nobreza…
ROSAURA: Perdoai-me, estais muito alheio do caso: meus pais, antes do
seu falecimento, já tinham dispostas as minhas núpcias com o senhor Ricardo. Assim, alcançareis o que empreendo, pois ele vencerá a Florindo.
RICARDO: Minha senhora, nesse tempo, ‘inda não tinha experiência do
mundo e sujeitar-me-ia a esse laço; presentemente, tenho visto muita coisa, pelo que estimo a minha liberdade.
GUSMÃO: É a primeira coisa que tendes dito com juízo.
ROSAURA: Estou exasperada! De todo se acabaram as esperanças que
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RICARDO: Quereis ser ditosa? Mudai de conduta e lembrai-vos do que
hoje vos disse.
ROSAURA: Que remédio! Seguirei os vossos ditames.
CENA 10.ª
COLOMBINA, e logo FLORINDO.
COLOMBINA: Senhora, depressa, venha dizer adeus ao senhor Arnolfe,
pois já [64] se está embarcando na sege.
GUSMÃO: Depressa, vou dar o braço a Matilde. (Vai-se.) ROSAURA: Que os leve o demónio, causa do meu desgosto.
FLORINDO: Matilde, meu bem, não me desampareis neste apertado
lance. Donde, donde te conduzem longe de mim? Olá criados, segui-me. (Está caindo-lhe, conduzindo-se para a porta contrária, sem atender às pessoas que estão em a cena.)
RICARDO: Florindo, que pretensão é essa? Tornais a flutuar? FLORINDO: Ausenta-se Matilde e…
RICARDO: Que importa que se ausente? Esquecei-vos daquelas prudentes
reflexões que fizestes, depois, na sua presença? Que horrível sistema pretendeis conseguir? Recobrai o ânimo, lembrai-vos do vosso carácter e…
CENA ÚLTIMA