• Nenhum resultado encontrado

MATRIZ CURRICULAR E EMENTA: MEDIAÇÕES, APRENDIZAGEM E

5 O ESTÁGIO NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL TÉCNICA DE NÍVEL MÉDIO

5.2 MATRIZ CURRICULAR E EMENTA: MEDIAÇÕES, APRENDIZAGEM E

tanto.

A produção do conhecimento mostra-se controversa quando centrada na execução de projetos ou produtos para formar técnicos, com sua base científica e tecnologia voltada para os arranjos produtivos, em atendimento às demandas do mercado flexível.

Nesse sentido, em seu aspecto legal estruturante, a análise do estágio aponta as relações sistêmicas que se estabelecem entre economia, política, projeto educativo e legislação, influenciadas pela dicotomia que permeia essa realidade complexa e o sentido do trabalho nos processos educativos.

A ambiguidade da lei que ordena a especificidade do estágio na educação profissional técnica de nível médio da Bahia possibilita interpretações diversas de uma construção textual jurídica em que a intencional obscuridade dissemina o incerto.

As referidas portarias regulam o ato curricular, mas não elucidam aspectos condicionantes para efetivação do legislado. Os documentos reiteram um processo histórico dual e fragmentado das políticas públicas educacionais refletidas no estágio, que, em seu processo pedagógico, é ao mesmo tempo práxis essencial para a formação integral e prática profissional utilitarista de adaptação para o mercado de trabalho e, por consequência, de desqualificação do sujeito trabalhador nesse movimento concreto de dinâmicas transformações.

Nesse contexto fluido de múltiplos fatores que se inter-relacionam na esfera educacional, por meio de leis, decretos e portarias, cabe, portanto, situar o estágio na matriz curricular e discorrer sobre seu desdobramento na sistematização da ação pedagógica.

5.2 MATRIZ CURRICULAR E EMENTA: MEDIAÇÕES, APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO.

Na educação escolar, a matriz rege os processos de ensino e aprendizagem. E no ensino profissional técnico de nível médio da Bahia, a partir de 2009, transita entre a lógica disciplinar fragmentada e tecnicista; a lógica das competências, subordinada ao sistema produtivo flexível, instrumental da polivalência; e a lógica da qualificação, da formação omnilateral e da politécnica.

Em 2008, a Suprof elaborou o Plano Estadual de Educação Profissional da Bahia, considerado um marco histórico por propor e implantar cursos técnicos de nível médio vinculados ao contexto local e territorial. Com uma dimensão pedagógica arrojada, tem a intervenção social como princípio pedagógico, o trabalho como

princípio educativo e a relação trabalho-educação-desenvolvimento & sócio- econômico-ambiental & ciência-tecnologia-sociedade como base da matriz curricular. (BAHIA, 2015a).

Como vice-diretora técnico-pedagógica de Centros de Educação Profissional na rede estadual de ensino da Bahia de 2009 a 2016, a pesquisadora entende que, no processo histórico desse projeto educativo, implantou-se uma matriz curricular com vistas à qualificação humana e à formação integral omnilateral, a fim de superar o tecnicismo fragmentado e unilateral. No embate com a realidade de multideterminações estruturais e superestruturais, a matriz curricular avança e retrocede moldada pela lógica das competências, em sua face flexível, para atender aos ditames do capital. Conforme demonstra Moraes (2005, p. 1447),

Tanto o conceito de competência como o de qualificação são resultado, em determinado contexto histórico, da correlação das forças sociais. A noção de competência, apesar de imprecisa e fluida, converge em suas diferentes versões para o significado de performance, de desempenho (verificável) em situação de trabalho, independente da forma de aquisição dos conhecimentos pelo trabalhador. Ao contrário da qualificação, fundamentada no conhecimento e em sua relação com a execução do trabalho, e na negociação entre patrões e empregados (correspondência entre formação/carreira/remuneração), as competências, por serem definidas muito mais em razão de critérios ligados ao posto de trabalho do que em termos de conhecimentos, tendem a substituir os processos coletivos de negociação pelo predomínio dos empregadores na definição das normas de competência, a conduzir a uma crescente individualização na apreciação dos assalariados.

Nesse sentido, sobressai a expressão da matriz curricular como mediação na forma de aquisição dos conhecimentos pelos sujeitos, neste caso, os estudantes trabalhadores, como instrumento que intenciona um agir humano, qual seja, o desenvolvimento pelos processos de aprendizagem.

Segundo Vigotsky (2007), embora o aprendizado esteja diretamente relacionado ao curso do desenvolvimento, os dois nunca são realizados em igual medida ou em paralelo. O autor buscou compreender os processos de internalização do conhecimento externo e de desenvolvimento das capacidades cognitivas por meio de uma teoria sobre o funcionamento intelectual humano, inicialmente a partir de três abordagens:

1) O aprendizado segue a trilha do desenvolvimento e o desenvolvimento sempre se adianta ao aprendizado (a maturação precede o aprendizado, e a instrução deve seguir o crescimento mental);

3) O desenvolvimento se baseia em dois processos inerentemente diferentes, embora relacionados, em que cada um influencia o outro (processos que dependem um do outro, mas não coincidem).

Buscando formular uma visão mais adequada sobre o fenômeno, ao considerar os aspectos específicos do sujeito, os conhecimentos prévios e os níveis de desenvolvimento (real e proximal) na inter-relação entre aprendizagem e desenvolvimento, Vigotsky (2007, p. 102) sentenciou: “O bom aprendizado é somente aquele que se adianta ao desenvolvimento”. Isso quer dizer que o

Aprendizado não é desenvolvimento; entretanto, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de

desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e

especificamente humanas. (VIGOTSKI, 2007 p. 103).

Desse modo, o autor destaca a importância da organização da aprendizagem e seu movimento, afirmando ainda que o desenvolvimento de uma capacidade específica raramente significa o desenvolvimento de outras. Com inspiração marxista, enxerga todos os fenômenos como processos dinâmicos em complexa mudança e, ao mesmo tempo, incita a reflexão sobre o desenvolvimento em múltiplas dimensões. Um desenvolvimento que tem como alicerce a interação entre o homem e o meio, a vivência em sociedade, em meio à qual o ser humano transforma e é transformado.

Nesse sentido, a educação integral proposta pela educação profissional técnica de nível médio da Bahia, subsidiada pela politecnia, revela-se pela aprendizagem organizada e mediada, tanto pela forma de fazer com que os sujeitos se apropriem da indissociabilidade entre trabalho e educação através de cada componente curricular quanto pela sistematização do ensino vinculado à vida.

O trabalho, em sentido amplo, como base estruturante e princípio educativo, é expresso no estágio em seu caráter dialético, pela relação entre o ser em formação e o seu meio natural e social, como possibilidade práxica de aprendizagem e vivência laboral concreta em múltiplas dimensões.

Segundo Pistrak (2009 p. 95),

É a formação do ser humano enquanto um sujeito histórico que se desenvolve no interior de sua materialidade, seu meio, sua atualidade, tendo a natureza como cenário e a sociedade humana como parceira solidária de seu próprio desenvolvimento histórico, por meio de suas lutas e de suas construções.

Repensar a articulação interdisciplinar do estágio durante todo o curso é fortalecer a centralidade do trabalho no sentido das humanidades, nos processos educativos, na práxis pedagógica, por meio da constituição de trabalhadores incluídos no processo produtivo. Promover a integração entre os campos do saber para o desenvolvimento pessoal dos jovens na perspectiva da transformação da realidade social em que estão inseridos. Integrar teoria e prática, trabalho manual e intelectual, cultura técnica e cultura geral, para um avanço objetivo e maior apropriação conceitual.

Nesse sentido, a seguir, a partir do componente estágio, analisamos o processo de conformação da matriz curricular em sua dimensão de articulação e interdisciplinaridade.

Figura 12 – Articulação de componentes curriculares na matriz curricular da educação profissional de nível

médio da Bahia – EPI (2012-2018)

Fonte: elaborada pela autora (2019).

Em 2012, na matriz dos cursos técnicos de nível médio da rede estadual de ensino da Bahia, o estágio se articulava através dos estudos orientados com a BNC; era fundamentado nos sentidos do trabalho, nos componentes de formação técnica geral e nos de formação

técnica específica, aprimorando o exercício da práxis nos estudos interdisciplinares. Em 2016, essa totalidade foi bifurcada, no sentido fragmentado e utilitarista do termo. Uma parte foi destinada ao estágio, como prática instrumental; e a outra, para o TCC, com ênfase teórico- científica.

Com relação aos sentidos do trabalho, percebem-se transformações significativas nos ementários, como ilustrado nas Figuras 13 e 14, a seguir:

Figura 13 – Os sentidos do trabalho nos componentes articulados da matriz 2012

Fonte: elaborada pela autora (2019)

FP

Nesse primeiro momento, os componentes curriculares da matriz 2012 buscavam promover a apropriação dos fundamentos científico-tecnológicos e sócio-históricos da produção. O trabalho, em sua forma histórica, é a atividade fundamental pela qual o ser humano se humaniza, cria-se, aperfeiçoa-se e expande-se em conhecimento e socialização.

Figura 14 – Os sentidos do trabalho nos componentes articulados da matriz 2018

Fonte: elaborada pela autora (2019).

No ementário acima, aliado ao capital humano, com ênfase nas competências e no empreendedorismo, o trabalho intenciona uma apropriação mais voltada às demandas do mercado.

Projeto de Vida

Elaboração do projeto de vida e de carreira: desenvolvimento de competências sócio emocionais, diferenciais para uma vida pessoal, acadêmica e profissional mais qualificada e plena. Identificação de oportunidades e preparação de escolhas assertivas, que impactem positivamente na vida presente e futura. Desenvolvimento de vínculos positivos, com base na empatia, no respeito às diversidades, na cooperação e colaboração. Reconhecimento e pertença nos variados coletivos sociais, territorialidade, identidade e pertencimento. Aprofundamento sobre as saúdes familiar e relacional. Exercício profissional e cooperação, saúde e qualidade de vida. Elaboração do Projeto de Vida em todas as dimensões e contribuição para o Plano de carreira, com especial foco para as saúdes profissional e financeira.

Mundo do Trabalho, Empreendedorismo e Intervenção Social

Fundamentos sociais, históricos e filosóficos do empreendedorismo e sua relevância para o desenvolvimento socioeconômico local e territorial. Empreendedorismo Individual e Coletivo, compreensões acerca do Cooperativismo e do Associativismo: possibilidades de oportunidades empreendedoras, estímulo à criatividade e à inovação para a transformação social no mundo do trabalho a partir da concepção de novos processos. Desenvolvimento local e territorial, Arranjos produtivos territoriais, capital social e governança, Vivências Territoriais 01; Interdisciplinaridade na análise das questões econômicas, sociais, ambientais e culturais do território em questão (Relação disciplinas BNCC e a Formação Profissional). Políticas Públicas do Estado da Bahia com inter-relações para com o eixo tecnológico em questão. (2018.2) Organização Social do Trabalho: história do Trabalho; Sistemas e métodos de trabalho; principais aspectos dos direitos e dos deveres do trabalhador e do empregador. Impacto das transformações tecnológicas na organização social do trabalho. O empreendedorismo e a intervenção social, possibilidades de construção de tecnologias sociais e da cidadania plena; Vivências Territoriais 02; Noções de empoderamento social e uso de metodologias participativas de diagnóstico, planejamento, monitoria e avaliação. Processo de formação e desenvolvimento de uma equipe; missão, visão e valores institucionais, as funções e atribuições de uma estrutura organizacional. Conceitos básicos, processos e ferramentas para a gestão estratégica de um empreendimento. Clareza e objetividade na comunicação no mundo do trabalho; postura para a vida pessoal e profissional. Redação oficial de documentos institucionais, marketing pessoal, retórica, oratória e etiqueta digital. Ética & Cidadania: Princípios éticos que devem nortear a trajetória profissional, assédio moral, direitos e deveres do Estado/Cidadão, Noções básicas de defesa do consumidor e responsabilidade social. Elaboração do Projeto de Carreira e Fórum sobre o Mundo do Trabalho. EMENTAS- 2018 BC Projeto de vida Mundo do Trabalho

Nas palavras de Ramos (2010), isolar a ideologia do processo de produção dificulta a superação do sentido instrumentalizador da aprendizagem orientada pelas necessidades da prática profissional, visto que esta parece adquirir autonomia em meio ao jogo ideológico que subordina os trabalhadores.

Os sentidos do trabalho o consolidam como princípio educativo para a formação de profissionais críticos. Os componentes curriculares, de forma articulada, devem explicitar a relação entre a produção do conhecimento e o avanço das forças produtivas, o que parece ter se dissipado nas ementas atuais.

Acreditamos que o aspecto superestrutural manipulado pelo capital incute ideologias multifacetadas pela polissemia, que atribui diferentes significados a concepções absolutamente necessárias, como o próprio trabalho, conforme seus interesses políticos e ideológicos.

Como componente curricular dos cursos de educação profissional técnica de nível médio da rede estadual de ensino da Bahia, nas modalidades EPI, Proeja e Prosub, o estágio não apresentava ementa na matriz de 2012; e em 2018, passou a usar como referência para o ensino sua concepção legal, como mostrado abaixo, na Figura 15:

Figura 15 – Ementário: 2018 (Cursos EPI/Prosub/Proeja)

Fonte: SEC/Suprot (BAHIA, 2019).

A ementa é desdobramento curricular, signo de orientação do ensino e das práticas pedagógicas. Auxilia na compreensão sobre o estágio de que os sujeitos escolares devem se apropriar. A falta dessa orientação mais aprofundada pode conferir ao componente um caráter exclusivamente legal e burocrático, além de desconstruir sua interação processual interdisciplinar, restringindo seu lócus de desenvolvimento ao ambiente de trabalho e invocando o sentido de prática externa e instrucional.

Na perspectiva da relação das partes com o todo curricular, levando-se em conta a carga horária mínima e a apresentação do estágio como último componente no desenho da

matriz, fica demonstrada a intencionalidade de desvalorizar sua essencialidade no projeto de formação integral, reiterando a hierarquização de saberes, uma ação que inibe e desqualifica a subjetivação aliada aos saberes profissionais como resultado processual e histórico da práxis.

Reconhecemos, portanto, do ponto de vista político-pedagógico, que não se trata simplesmente da organização de componentes na matriz. A integração do conhecimento aos sentidos do trabalho a partir do estágio é antes um grande desafio na materialização do processo de formação social humana, a ser construído processualmente de forma crítica pelos sistemas, instituições de ensino e, principalmente, pelos sujeitos escolares.