CAPÍTULO 4 RESULTADOS: APRESENTAÇÃO, ANÁLISES E DISCUSSÕES
4.4. ANÁLISE GERAL DA VISÃO DE EDUCAÇÃO DO CORPO DOS PARTICIPANTES
4.4.1. Observação e análise da prática pedagógica e dos conteúdos trabalhados na disciplina
4.4.1.2. Matriz de atividades comuns da disciplina Processos interativos
A matriz de atividades proposta a seguir foi pontuada a partir da lógica organizacional das aulas e dos fundamentos que regiam a proposta formativa. Essa matriz norteadora é composta de diversos elementos que a compõe: a) Plano de aula, b) Aula didática, c) Texto base norteador, d) União entre teoria e prática, e) Junção do saber ao ser e f) Atividades vivenciais da disciplina; desta forma, vamos descrevê-los e visualizá-los em síntese ao final com dois Planos de Aulas que revelam bem esta organização estrutural matriz.
a) Plano de Aula: atividade de planejamento das aulas
Todas as aulas eram sistematizadas previamente através de um Plano de Aula, demonstrando o caráter organizacional do educador da disciplina. Este plano continha todas as atividades a serem feitas nas aulas. Importante destacar que por esse instrumento de planejamento, o educador podia visualizar se havia o alinhamento entre a proposta pensada para a aula e a proposta dos fundamentos da disciplina com o meio de operacioná-los em congruência. Tal plano não se mostrava um planejamento estanque, pois os acontecimentos correntes em aula podiam modificar as sequências a serem trabalhadas, podendo até ser incluído ou excluído algo de acordo com o ocorrido em grupo durante o processo de ensino- aprendizagem. Veremos no próximo item que este planejamento das aulas foi em um dado momento feito com a participação dos alunos que também ministraram aulas nesta disciplina.
b) Aulas didáticas: Professor e alunos em integração
As oito aulas iniciais foram ministradas pelo docente responsável, para que todos pudessem compreender como era a dinâmica prezada pela disciplina. Após estas aulas iniciais, aconteceram as chamadas “Aulas didáticas” que tinham como objetivo permitir aos alunos a vivência do papel de professor e unificar discência e docência no processo de formação dos estudantes.
As aulas didáticas ocorriam com uma dupla ou um trio de alunos ministrando uma aula na disciplina juntamente com a supervisão do educador. Para organizar estas aulas, o professor agendava com o grupo da vez e juntos planejavam como seriam as atividades. Como pesquisadora, participei destes momentos que eram momentos de montagem da aula em
conjunto, momento o qual o professor aproveitava todas as ideias do grupo para debater e esclarecer dúvidas sobre o tema, organizar e direcionar as ideias oriundas dos alunos aliando-as à proposta prezada pela disciplina. Neste momento também, era organizado o Plano de Aula do dia específico. Os alunos destacaram como bastante fecunda essa interação com o professor no planejamento de aula para sua formação.
c) Texto base norteador
Em todas as aulas havia um texto-base a ser trabalhado. Os temas abordados na disciplina giravam em torno das teorias psicológicas sobre os fenômenos de grupo, os processos interativos da educação, os paradigmas da educação, incluindo a educação integral com destaque às teorias sobre o corpo na educação integral. Para exemplificação das temáticas, temos: O que é, afinal,
um grupo?; Competência interpessoal – Eu e os outros; Dinâmica de Grupo: Breve histórico; o corpo na ética e na cidadania - caminhos da filosofia; Quem educa marca o corpo do outro; Comparando paradigmas na educação; entre outros. (Para acompanhar todas as aulas, veja
anexo X). Estes textos eram indicados para leitura prévia a todos do grupo já no cronograma. A cada aula uma temática foi trabalhada por meio desses temas pré-selecionados pelo educador que se apresentavam de modo a ir construindo um conhecimento gradativo em nível de complexidade dos temas, o que nos fez perceber um cuidado do educador em relação ao processo de desenvolvimento lógico dos estudantes, de forma que para um bom acompanhamento das aulas era preciso sempre estar em contato com os temas abordados anteriormente.
No que tange ao responsável em ministrar a aula, professor ou alunos, ademais da leitura do texto base era necessário também, realizar a seleção dos principais conceitos/ideias presentes no texto, de modo a organizar uma síntese a ser tecida e vivenciada com todos na aula didática através da transposição dos conceitos teóricos em atividades vivenciais, como veremos a seguir.
d) União entre a teoria e a prática: aulas teórico-vivenciais
A base metodológica foi bastante diferenciada na disciplina porque as aulas buscavam construir uma unidade entre a teoria e a prática, já que a disciplina tinha uma didática teórico- experiencial. Assim, os conceitos textuais pré-selecionados e destacados pelo responsável pela aula (professor ou alunos da aula didática) eram transformados ou compatibilizados em
vivências diretas. Isto ocorria ou por meio de atividades em grupo, ou por estratégias de jogos dramáticos ou dinâmicas de grupo, ou por técnicas da psicologia transpessoal; o importante era que estas estratégias pudessem manter uma relação direta com o assunto abordado, e com isso, pudessem proporcionar o alinhamento entre os eixos teoria e prática no viver das aulas.
e) Aliar o saber ao ser: teoria e prática com a exploração do corpo multidimensional
Conforme indicação do educador da disciplina, ademais desta junção teórico-prática, as atividades deveriam objetivar manter vínculos com o Ser/corpo integral e dessa forma, conectar o saber ao ser, e assim, prezava-se pela não dissociação entre o conhecimento teórico e sobre o conhecimento do conhecedor com sua integralidade.
Com este objetivo, as atividades buscavam conectar os níveis do ser e do conhecer do Grande Ninho (WILBER, 2002) ou as chamadas dimensões básicas (RÖHR, 2010): dimensão física, sensorial, emoções, a mente, a alma e o espírito; ou os ângulos dos Quadrantes do Kosmos (WILBER, 2011): o ângulo Eu (consciência de si, pensamentos de si), o Isto (corpo físico e suas energias: corpo denso, sutil e causal), o Nós (atividades sobre cultura e os relacionamentos) e os Istos (conectando criticamente os sistemas políticos, econômicos; conectando os sistemas ambientais como a grande Teia da vida). Com este direcionamento basilar, as aulas se orientavam em integrar também as dimensões humanas.
f) Atividades comuns da disciplina investigada
Abaixo sistematizamos as atividades comuns e elencamos duas aulas completas ao final apresentando dois Planos de aula para melhor compreensão e acompanhamento da feitura formativa.
Atividade 1 – Momento de abertura da aula e integração
Esta atividade objetivava a exploração do nível corpo físico ou corpo denso/grosseiro (WILBER, 2000) com exercícios de destensionamento, autocuidado ou integração de grupo. Conforme o educador, este primeiro momento da aula buscava: acolher os participantes da disciplina de modo que ao mesmo tempo destensionasse e promovesse autoconhecimento do campo físico, presentificasse os participantes para estarem vivenciando o aqui e agora da aula,
diminuísse a ansiedade de estar em grupo, como também, proporcionar um clima prazeroso para iniciar a aprendizagem em conjunto desde o início da aula.
Vale salientar que tais atividades iniciais diversificavam: em algumas aulas elas mantinham o vínculo direto com a temática do dia já na abertura; outras vezes objetivavam apenas a integração de si mesmo individualmente; ou apenas integrar mais o grupo desvinculado da temática.
Para exemplificar isto, quando se realizava uma atividade inicial vinculada à temática, esta já era uma atividade de dinâmica de grupo. Por exemplo, na aula sobre Reações de grupo, a primeira atividade de abertura foi a seguinte: um grupo recebeu o comando do professor de reagir ao toque do colega de determinada maneira e o outro grupo deveria tocar alguém quando a música parasse. Dessa maneira, ao toque no ombro, a pessoa tocada faria a reação ditada, que seria ou gritar, chorar, ignorar, sorrir bastante, entre outros. Após a realização disto várias vezes, mudando as pessoas, deu-se abertura a aula deste dia fazendo uma relação direta com o tema da aula Reações de grupo e também com todos os integrantes do grupo.
Ainda com este objetivo de abertura temática, em outra aula de tema O corpo na via do
tempo, teve como início uma atividade interativa em grupo, pois antes dos alunos chegarem à
sala, o grupo responsável em focalizar a aula didática já havia climatizado o ambiente com figuras coladas na parede de corpos em várias épocas e lugares. Quando todos entraram na sala já havia um ambiente temático, com o qual foi solicitado que todos andassem e visualizassem as diversas figuras, e após um tempo podiam escolher duas ou mais figuras que lhes chamasse mais atenção. Deu-se abertura da aula com os alunos já socializando suas impressões pessoais sobre a temática corpo naqueles diferentes tempos e com todos do grupo.
A atividade inicial feita de forma individual se dava em roda ou livre, por meio de atividades como alongamentos seguidos de relaxamento ou automassagens, exercícios de respiração, dança livre pela sala ou atividade de exploração do corpo por comandos específicos; todas exploravam mais particularmente a pessoa consigo mesma em seu campo físico. Conforme o educador da disciplina estas técnicas desenvolvem uma maior consciência corporal, pois estimulam a aprender a conhecer o corpo, senti-lo, estimulá-lo, destensioná-lo e favorecem a liberação de sentimentos reprimidos como a angústia, o estresse entre outros, como raiva, medo, ansiedade. Os exercícios respiratórios servem também para relaxar a musculatura e liberar tensões. Todos estes auxiliam a desinibição corporal e servem como aquecimento antes das
atividades, e revelam-se excelente ferramenta para desenvolver a concentração e a atenção antes do trabalho temático mais focado.
A atividade inicial para integração de grupo desvinculada propriamente da temática era realizada em círculo por meio de danças populares como cirandas ou danças circulares de outras culturas, danças infantis populares, ou saudações a todos por meio de danças e/ou mímicas.
Atividades 2/3/4 – Trabalho temático vivencial
Após a abertura da aula eram realizadas mais três atividades em média, as quais tinham por objetivo realizar o trabalho temático mais diretamente, utilizando-se da metodologia integrativa: conhecimento de forma teórico-prático em conjunto ao desenvolvimento do corpo integral. Mesmo nestas atividades o corpo físico foi bastante enfatizado, pois todas as aulas solicitavam uma movimentação constante dos participantes porque a disciplina apresentava uma educação ativa. As estratégias mais utilizadas na disciplina foram de modo geral, atividades auto expressivas, atividades de dinâmicas de grupo, atividades de jogos dramáticos, técnicas de visualização criativa e síntese do encontro no diário.
- Autoexpressão
Podemos sintetizar que todas as atividades 2/3/4 listadas nos itens a seguir combinam aqui. Observamos de forma geral que todas as atividades buscaram intrinsecamente desenvolver um corpo expressivo, pois havia o constante estímulo à aprendizagem pautada na comunicação do interior/subjetivo dos participantes como elemento que destacamos em nossa observação de pesquisa e a comunicação interpessoal foi constante porque os estudantes precisavam realizar as atividades elaborando-as com e em grupo, então precisavam socializar sempre suas ideias.
Assim, com ênfase na exploração da linguagem dos alunos, a disciplina teve como momentos de expressão verbal mais propriamente, a abertura contínua do educador para a participação interativa dos alunos incentivados a expressarem suas opiniões e emoções próprias; a escrita de impressões pessoais para socialização em grupo, a confecção de cartazes temáticos; o diário de bordo. As atividades não verbais a para expressão da corporeidade foram vivenciadas por danças, mímicas, expressão corporal sem falas, desenhos de autorretratos, desenhos de temas diversos.
Dentro deste trabalho, o inverso também foi enfocado com o saber ouvir como proposta de exercício de silencio interior para abertura de escuta do outro.
- Dinâmicas de grupo
As atividades de dinâmica de grupo foram propostas como uma estratégia elo, primeiro, com os conteúdos trabalhados porque os responsáveis pela aula buscavam ensinar/construir a teoria através de práticas de dinâmicas de grupo que tivessem relação com os conceitos da temática. Além disso, as dinâmicas conseguiam manter vínculo com as dimensões do ser, pois solicitavam a expressão do eu, das emoções, dos pensamentos, lidava continuamente com o nós, os afetos, a ética, os valores morais, percepções e visões de mundo intercultural existenciais, e dependendo da dinâmica trabalhava também com os assuntos da economia, política, entre outros que perpassam as questões do humano.
Basicamente esta técnica foi utilizada em todas as aulas e se revelou bem produtiva aos objetivos propostos pela disciplina. Vale salientar que muitas dinâmicas foram consultadas de livros e utilizadas tal como estavam propostas, outras delas foram adaptadas para se ajustarem aos objetivos requeridos pelo professor ou grupo, e outras foram elaboradas pelo próprio grupo da aula didática demonstrando o potencial criativo desenvolvido por eles.
Para exemplificar, na aula de tema O que é um grupo, o professor realiza uma dinâmica de grupo para que os alunos vivenciem o tema de forma prática. Assim, propõe a dinâmica do Nó com o objetivo de indicar como os relacionamentos entre as pessoas têm o nós - todos nós, e os nós - as dificuldades a serem vencidas. A dinâmica foi proposta como abertura para desdobrar a temática grupo. Como procedimento, os estudantes iniciam caminhando pela sala aleatoriamente ocupando todo o espaço. Em seguida, pede-se para que cada um pare no lugar onde se encontre e cada qual se aproxima de duas pessoas mais próximas da sua direita e da sua esquerda e dá as mãos a elas. Todos fazem o mesmo e com isso todo o grupo estará emaranhado e tentará desfazer os nós. Terão que utilizar as mais importantes estratégias de convivência em grupo: a interação, a comunicação, saber ouvir, entre outros. Assim, o educador inicia a temática sobre o que é um grupo problematizando após a dinâmica com os alunos.
O psicodrama ou jogo de dramatização foi outra técnica bastante explorada na disciplina que permitia aos alunos a vivência de diversos papeis sociais, a vivência de diversas situações reais ou imaginadas, conflituosas ou não vinculadas tanto à temática dos processos educacionais como vinculadas às temáticas existenciais que perpassam a vida dos discentes e educadores. Salientamos que algumas dessas dramatizações incluíram momentos de introversão ou solilóquio - diálogo consigo mesmo, mas aberto a todos ouvirem, revelando pensamentos e sentimentos interiores, compartilhando sem preconceitos o que pensam, promovendo um autoconhecimento e autoaceitação de si mesmo como proposta.
Em geral, o roteiro da dramatização era criado pelos próprios alunos em sala reunidos em grupo, cabendo ao professor/ministrante da aula indicar apenas a proposta ou assunto da dramatização como norte inicial. Poucas dramatizações foram propostas com texto pronto aos alunos. Esta atividade se revelou bastante apropriada para a exploração da criatividade e para a vivência como se fosse “real” de assuntos diversos e o contato com o corpo integral dos participantes. A narração de histórias também ocorreu, mas geralmente os alunos que compartilhavam histórias próprias a todos do grupo.
Para exemplificação de uma atividade de dramatização, já na 1ª aula da disciplina, o professor pediu para que os alunos escrevessem individualmente os medos e as esperanças que trouxeram para um recomeço das aulas. Após a indicação de cada um, juntaram-se em pequenos grupos para socialização disso, e em seguida, foi solicitado que os alunos não expusessem logo a todos as considerações pessoais, e que ao invés de relatar verbalmente foi pedido que em conjunto elaborassem uma dramatização que contivesse os medos e as esperanças de todos do seu pequeno grupo. Os alunos assim dramatizaram os medos e as esperanças e coube ao grande grupo identificar os medos e as esperanças indicadas na dramatização.
Deste modo, o professor solicitava sempre que os alunos expressassem por meio de uma encenação suas ideias, conceitos teóricos ou outras situações específicas.
- Técnicas de visualização criativa
Esta técnica buscava a exploração do imaginário dos participantes através de visualizações que lhe pediam criatividade e conseguiam fomentar a ampliação da consciência, autorreflexão e a produção de novos sentidos e percepções das coisas, pois as visualizações lhe
davam o caráter de liberdade de tempo e espaço onde permitiam aos participantes criarem novas realidades e visualizarem a si mesmos. Esta foi uma vivência baseada nas técnicas da abordagem transpessoal que objetiva ativar o complexo tanto o complexo mente/corpo, quanto o corpo integral do campo físico, emoções e a espiritualidade.
Como exemplo, no trabalho temático de O corpo na educação integral, trabalhando o conceito de educação por duas vias, a via interna e a externa. O conceito do tema foi transposto para um exercício vivencial de movimentação corporal para dentro e para fora. Os alunos caminhavam para frente contraindo o corpo e voltando para trás expandindo o corpo. Em seguida exercitaram o conceito também pelo movimento de contração e expansão da respiração. Após isto, sentados, lhes foi pedido para que visualizassem a si mesmos num lugar tranquilo e relaxante, e depois conseguissem visualizar um círculo ao redor do seu corpo que se expandia e se contraía. Isto foi pedido algumas vezes até que eles mesmos visualizassem sozinhos. E assim os participantes foram convidados a visualizar seu campo integral de dimensões como propõe a educação multidimensional do corpo por meio dos movimentos corporais, da respiração e da visualização criativa do círculo ao redor do corpo. Tantas outras atividades de visualização foram feitas no processo formativo.
Atividade 5 - Síntese no diário
Os participantes eram estimulados a escrever suas experiências do encontro no diário, bem como a falar sobre suas considerações pessoais sobre o que lhes suscitou a aula. A escrita de si por meio do uso de diários se revela um bom veículo para estimular a autopercepção enquanto ser em integralidade.