consequências da função domesticadora das estruturas sociais de dominação A libertação só é
2 A LÓGICA DA COLONIALIDADE, A RETÓRICA DA MODERNIDADE E A DECOLONIALIDADE
2.4 A MATRIZ DE PODER COLONIAL: CLASSIFICAÇÃO “RACIAL” DA HUMANIDADE
Para Quijano (2005, p. 227-228), a ideia de raça refere-se a uma construção mental que expressa a “experiência básica da dominação colonial que desde então permeia as dimensões mais importantes do
poder mundial, incluindo sua racionalidade específica, o
eurocentrismo.”
O racismo foi assumido pelos conquistadores como o principal elemento constitutivo, fundacional, das relações de dominação que a conquista exigia. Assim foi classificada a população da América e, posteriormente de todo o mundo a partir desse novo padrão de poder.
O patriarcado europeu e as noções europeias de sexualidade, epistemologia e espiritualidade foram exportadas para o resto do mundo através da expansão colonial, transformadas assim nos critérios hegemônicos que iriam racializar, classificar e patologizar a restante população mundial de acordo com uma hierarquia de raças superiores e inferiores. (GROSFOGUEL, 2008, p.124).
A hierarquia racial, segundo Grosfoguel (2008, p.123), configura transversalmente todas as restantes estruturas globais de poder. A ideia de raça, deste modo, organiza a população mundial conforme uma ordem hierárquica de povos superiores e inferiores que passa a ser um princípio organizador da divisão internacional do trabalho e do sistema patriarcal global.
Por exemplo, as diferentes formas de trabalho que se encontram articuladas com a acumulação de capital no âmbito mundial são distribuídas de acordo com esta hierarquia racial; o trabalho coercivo (ou barato) é feito por pessoas não- europeias situadas na periferia, e o “trabalho assalariado livre” situa-se no centro. A hierarquia global das relações entre os sexos também é afetada pela raça: ao contrário dos patriarcados pré-europeus em que todas as mulheres eram inferiores aos homens, na nova matriz de poder colonial algumas mulheres (de origem europeia) possuem um estatuto mais elevado e um maior
acesso aos recursos do que alguns homens (de origem não-europeia). (GROSFOGUEL, 2008, p.123).
Para Mignolo (2007b, p. 40-41) a justificação da apropriação da terra e da exploração da mão de obra no processo de invenção da América exigiu a construção ideológica do “racismo”.
De acordo com essa perspectiva, no caso da América, os índios e os negros são o “anthropos”, ou seja, os “outros” a partir dos quais os europeus vão construir a sua identidade e também ocupar os lugares inferiores na hierarquia racial.
O racismo, segundo Mignolo (2003b, p. 49), não é uma questão de cor, do sangue ou da pele, mas, principalmente, uma questão de “humanidade”.
Infelizmente para o mundo da língua inglesa, toda a bibliografia a que tem acesso situa a “origem” da palavra “raça” e, consequentemente de “racismo” no início do século XVIII e todas as referências são em francês, inglês e alemão. É certo que “raça” enquanto palavra, existia nos séculos XVI e XVII, mas tinha um significado diferente na língua vernácula hegemônica do século XVI (o espanhol). “Raza”, em espanhol, significava “casta o calidad del origen o linage”. Só poderiam aspirar ao ingresso numa ordem religiosa, por exemplo, os que provadamente fossem nascidos de famílias nobres, com linhagens de várias gerações. Mais que a cor da pele, era a “pureza de sangue” o critério de definição. Já no século XVI e na Espanha imperial, conhecimento, casta, raça e epistemologia funcionavam em conjunto. (MIGNOLO, 2004, p. 682)
Raça, nesse ponto de vista, consiste em uma classificação e, por tanto, em uma operação epistêmica dos seres humanos em uma escala de inferioridade/superioridade.
A questão da “raça” se relaciona, assim sendo, com a categorização de indivíduos segundo seu nível de similitude e de aproximação em relação a um modelo pressuposto de humanidade ideal. A noção de “raça” seria similar a de “etnia”, pois comumente a raça se refere a genealogia sanguínea, genotípica ou da cor da pele e a etnia
inclui a língua, a memória e um conjunto de experiências compartilhadas, compreende um sentido cultural de comunidade, o que as pessoas tem em comum. (MIGNOLO, 2007b, p. 41).
A partir do momento, principalmente no século XIX, que o termo “raça” acentuou a questão da cor da pele e do sangue, em detrimento das outras características da comunidade, raça se transformou em sinônimo de racismo.55 O racismo, nesse sentido, é uma matriz classificatória que não se restringe as características físicas do ser humano, mas se estende ao plano interpessoal das relações humanas, como a religião, as línguas, as classificações geopolíticas do mundo. (MIGNOLO, 2007b, p. 42).
A origem da classificação da população mundial de acordo com a ideia de raça é, por isso, de caráter colonial, mas “provou ser mais duradouro e estável que o colonialismo em cuja matriz foi estabelecida. Implica, consequentemente, num elemento de colonialidade no padrão de poder hoje hegemônico.” (QUIJANO, 2005, p. 227).
O modelo de humanidade renascentista europeu converteu-se em hegemônico, os índios, os orientais e os escravos africanos passaram à categoria de seres humanos de segunda classe, isso quando eram considerados seres humanos.
A natureza dos seres humanos era medida com base em uma ideia de história que os cristãos ocidentais consideravam como verdadeira e aplicável a todos os habitantes do planeta. Isso levou ao estabelecimento de uma “estrutura lógica de domínio colonial” e desta maneira, deixou determinados povos fora da história, para que assim pudesse justificar a violência em nome da evangelização, ou civilização, ou mais recentemente, desenvolvimento e democracia de mercado. (MIGNOLO, 2007b, p. 30).
A esta estrutura lógica de domínio colonial, Quijano (1991, 2002, 2005) chama de “padrão de poder colonial” (ou colonialidade do poder56) e Mignolo (2009) de “matriz de poder colonial”. É a matriz de poder, sua construção e transformação que tornam possível a existência da modernidade/colonialidade.
Mignolo (2009, p. 48) imagina a matriz de poder colonial em dois níveis semióticos: o nível do enunciado e o da enunciação.
No nível do enunciado, a matriz colonial atua em quatro âmbitos inter-relacionados, ou seja, um único âmbito não pode ser compreendido
55 Sobre o racismo científico, ver o Capítulo 5. 56
Para Castro-Gómez (2005, p. 177) o conceito de colonialidade do poder amplia e corrige o conceito foucaultiano de “poder disciplinar” ao mostrar que os dispositivos disciplinares erigidos pelo estado moderno inscrevem-se numa estrutura mais ampla, de caráter mundial, configurada pela relação moderno/colonial devido à expansão europeia.
de forma correta sem os outros três (embora as disciplinas e especializações nos façam crer que estão separados). Além disso, cada um destes âmbitos se oculta atrás da máscara de uma retórica da modernidade constante e que se modifica, por exemplo, salvação, progresso, razão, desenvolvimento, felicidade. Os quatro âmbitos em questão, descritos sucintamente, são os seguintes:
1) A gestão e o controle de subjetividades (por exemplo, a educação cristã e laica, ontem e hoje, os museus e as universidades, os meios atuais de comunicação e publicidade etc.).
2) A gestão e o controle da autoridade (por exemplo, os vice- reinos nas Américas, a autoridade britânica na Índia, o exército americano etc.).
3) A gestão e o controle da economia (por exemplo, através dos benefícios obtidos com a apropriação maciça de terras na América e África; a exploração maciça da mão de obra, começando com o comércio de escravos; a dívida externa por meio da criação de instituições econômicas como o Banco Mundial e o FMI etc.).
4) A gestão e o controle do conhecimento (por exemplo, a teologia e a filosofia).
Estes quatro âmbitos57 estão constantemente inter-relacionados entre si e se sustentam sobre dois pilares de enunciação e controle do conhecimento: o racismo e o patriarcado.
O enunciado é o que se diz e se faz em nome da retórica da modernidade, e a enunciação é o lugar onde reside o dizer e o fazer. 58 Visual e pedagogicamente podemos imaginar a matriz de poder colonial a partir do esquema seguinte:
57
Em outras obras Mignolo (2010c, 2008b) divide esses quatro âmbitos da matriz de poder colonial em: economia, autoridade, gênero/sexualidade e conhecimento/subjetividade.
58 A questão da diferença entre enunciado e enunciação é tratada mais especificamente em:
De fato, quais foram e continuam sendo os agentes e instituições que criaram e seguem reproduzindo a retórica da modernidade e a lógica da colonialidade? O que ocorre é que, em geral, os agentes (e instituições) que criaram e administraram a lógica da colonialidade foram europeus ocidentais, majoritariamente de sexo masculino e se não todos eram heterossexuais, consideravam, pelo menos, que a heterossexualidade era a norma de conduta sexual. Além disso, foram majoritariamente brancos e cristãos (católicos ou protestantes). (MIGNOLO, 2003b, p. 49).
Ou seja, quem definiu o que era modernidade e ocultou a colonialidade foi o mesmo grupo de pessoas, representada por alguns europeus, que também definiu o que era humanidade e sustentou o poder de enunciar universalmente, ou seja, aqueles que até agora temos denominado como humanitas.
Para Mignolo tanto a retórica da modernidade como a lógica da colonialidade estão sustentadas em um aparato cognoscitivo que é patriarcal e racista.