Ao contrário do que fizemos até aqui, que foi apresentar as narrativas em ordem crescente etária, neste item começaremos pela mais velha, a primeira a ser mãe no grupo das cinco, pela longa experiência narrada, bem como o conjunto de elementos pertinentes para compreender a autonomia e os direitos reprodutivos em Angola. A preparação de Mayamba para ser mãe teve influência de muitos processos, entre os quais o exercício da maternidade e a ausência da figura paterna. Na minha opinião, creio que este último aspecto e as respectivas implicações foram fundamentais na construção da sua autonomia reprodutiva.
Apesar de ter pensado em casar e ter filha/o quando mais nova, na juventude não dispensava tanta atenção ao assunto; não teve aquele “sentimento tão profundo capaz de despertar em mim o desejo da maternidade”, mesmo com aqueles homens por quem se apaixonou. E foi assim até estar no atual casamento. Posteriormente, Mayamba apenas concebia ter filho estando em uma relação afetiva estável.
Igualmente, quando começou a ter uma vida sexual ativa, tinha a lúcida convicção de que não queria engravidar – “decidi não ter filhos” – e fazia questão de dizê-lo aos homens com quem namorou, incluindo o atual marido. No início da vida sexual, “usava anticoncepcional e tinha umas reações terríveis, eram horríveis, eram comprimidos”. Por conta disso, parou de tomar e exigia da outra parte o uso do preservativo (grifos meus).
Após o casamento, mesmo gostando muito do marido, continuava a defender que “não estava preparada para ser mãe”. Até esta altura, nunca tinha engravidado, mas o marido já tinha duas filhas em Portugal, de um relacionamento anterior. Ele sempre soube da sua posição quanto à maternidade. Ainda assim, “no nosso primeiro ano de relação, eu engravido, no retorno da separação”, ou seja, houve uma briga em que ela decidiu se separar; logo após fazerem as pazes, surge a gravidez: “eu chorava, eu não estou preparada para ser mãe”, disse Mayamba. Apesar de terem reatado a relação, ela ainda não tinha certeza se ele era o homem certo. Na ocasião, ela manifestou os seus receios:
Eu não sei se esta aventura que estamos aqui a viver é uma aventura para valer, eu não posso correr risco – você é um estrangeiro – de você ir se embora e deixar-me o filho nos braços, como é prática. Eu acho que prefiro ser uma gaja sem filhos, do que ter um filho abandonado pelo pai, eu não vou ter um filho sem pai. (Mayamba, 2017)
E o marido pacientemente contestou, dizendo: “mas eu não disse que vais ter, eu caso contigo”, isto é, ele não iria abandoná-la com um filho nos braços, e o casamento não era
130 problema, pois estava disposto a dar este passo. Esta resposta não a deixou menos insegura, porque: “agora não sei se efetivamente és o gajo que eu quero que seja o pai do meu filho, eu tenho que ter certeza que és a pessoa ideal para ser o pai do meu filho”. Portanto, não eram apenas aqueles pontos que estavam em jogo. Assim sendo, Mayamba decidiu interromper a gravidez, mas o marido não concordou, e advertiu sobre os riscos: “mas também, Mayamba, tu vê lá isso, aqui é muito delicado e depois tu estás em Angola”.
Eu disse que não queria, não estava preparada, ainda não. Eu não vou ter esse filho, prefiro morrer, do que ter este filho, eu não tenho certeza que quero ser mãe, não estou preparada para ser mãe, ser mãe é uma grande responsabilidade. Ah! Eu ainda quero curtir, eu quero sair, eu quero desbundar [curtir]. Eu quero dar quecas [transar] a toda hora do dia e da noite e um filho absorve demasiado de nós. (Mayamba, 2017, grifo meu)
Decidida em não dar seguimento à gravidez, foi fazer o “desmanche”, termo utilizado por ela para referir-se ao aborto. Mesmo “contra a vontade do meu marido, porque ele não queria”, sem hesitar, disse-lhe: “tu aqui não tens que querer, eu não estou preparada, eu assumo todas as consequências deste ato”. Na data marcada, foi à clínica acompanhada do marido e uma amiga que depois foi madrinha do seu casamento: “fizeram tudo de anestesia geral, meu marido tremia porque eu nunca mais acordava da anestesia, mas graças a deus correu bem e desde aquela data eu descobri que afinal engravidava” – finalizou com um sorriso.
A partir daquele episódio, o marido ficou com “a tarefa de fazer o meu calendário menstrual”, por considerá-lo mais experiente nesta matéria, por ser mais velho e também já ter tido duas filhas. E ainda a responsabilidade de não voltar a engravidá-la sem programação, pois se havia alguma dúvida de que ela poderia engravidar, já estava sanada.
[...] eu disse a ele: você não pode me engravidar, se você me voltar a engravidar [...] eu deixo-te, termino a relação na hora e vou tirar a gravidez de novo, até eu estar preparada. Então, o meu calendário menstrual foi sempre o meu marido quem fez. Agora não, camisinha, agora sem camisinha. (Mayamba, 2017)
Falava com expressões muito faciais fortes, inicialmente de seriedade, seguida de raiva, por se descobrir naquela situação. E mudou o semblante ao se referir ao momento posterior, esboçou um sorriso, uma expressão de orgulho. Abanou a cabeça em sentido positivo quando afirmou que confiou esta tarefa ao marido e ele a cumpria com brio. E foi assim por muitos anos, “até que o meu marido chegou a mim, eu já estava na fase dos meus 33 a fazer 34 anos, que estava na altura de eu ter um filho”, e acrescentou:
[...] já se passaram oito anos, quando é que tu pretendes fazer um filho? Olha, não estou preparada. De novo ainda não estás preparada! Bom, miúda, tu estás com 33 anos, estás a fazer 34, penso que estás na fase certa, para tu teres um filho: deixa-me pensar. (Mayamba, 2017)
131 Refletindo sobre o assunto, decidiu ter o filho, e assim começou a ajustar-se ao sentimento “de ser mãe, da maternidade”. Desta vez, em ambiente de relação afetiva melhor que da primeira vez em que engravidou: “a nossa relação já estava sólida, portanto, oito anos já não são sete meses, nem oito meses, as famílias todas já se conheciam”. E assim engravidou: “foi uma gravidez muito bonita, não me arrependo de nada, se tivesse que engravidar, engravidava de novo para ter a mesma gravidez”. Afirmou ter sido muito ativa durante os nove meses: “fui uma gestante nada preguiçosa”.
O filho nasceu em Portugal e ficaram por lá mais nove meses. O marido estava a trabalhar em Angola, mas sempre os visitava de dois em dois meses, e: “quando ele fosse, eu estava completamente livre de qualquer encargo”, “a minha vida era só dormir e amamentar, o meu marido fazia tudo”. Foi este modelo de paternidade que ela idealizou desde muito nova; um dever de cuidado da criança que fosse compartilhado entre o casal.
Enquanto ao ser mãe, diz ter muito orgulho. Amamentou o filho até um ano e seis meses, pediu dispensa do emprego, um ano sem salário para poder dedicar-se inteiramente ao filho, “porque era o único filho”, e não ia cometer o erro de deixá-lo aos cuidados de terceiros, babás, empregadas ou outros familiares – “treta [a palavra funciona como interjeição], eu não acredito nisto”. A sua concepção de maternidade implica entrega total, “eu tenho que me dedicar 100% ao meu filho”, e afirma veementemente que não será “igual às mães africanas, que eu conheço, vindo das minhas famílias, as minhas irmãs e primas”, para as quais “quem cuida é a minha mãe”.
Do mesmo modo, salienta que as mães africanas não cuidam dos próprios filhos. Em geral quem o faz são outras mulheres da família: “há sempre uma sobrinha em casa para cuidar do filho”, a mãe “não muda a fralda, não dá mamadeira, não dá banho, nem sabe qual foi o sonho do filho desta noite” porque são “sempre terceiros a quem elas incumbem esta tarefa”. De fato, nas famílias angolanas, pensando nos centros urbanos, incluindo os mais escolarizados, é usual ter uma menina, mais do que menino, para cuidar de outras crianças.
A mulher angolana sabe parir, não sabe educar, se você fazer um levantamento, para aí 80% da mulher angolana tem uma sobrinha em casa para ajudar a cuidar dos filhos. Hoje em dia muitos já vão para a creche, mas até uns anos atrás, tinham uma sobrinha em casa para ajudar a cuidar dos filhos. O que é que ela faz, chega em casa está cansada, não sabe o que filho comeu, se espirrou, se tossiu, ela nem sabe observar o próprio filho, o corpo do próprio filho, eu não quero esse tipo de maternidade, a minha maternidade é presente, é permanente. (Mayamba, 2017)
Eu já tive oportunidade de analisar esta questão do ponto de vista cultural no capítulo anterior, aliás, a mãe da Mayamba também criara uma sobrinha e um sobrinho. Estas
132 responsabilidades compartilhadas decorrem do tipo de organização familiar e, consequentemente, do paradigma reprodutivo de determinadas culturas endógenas, sobretudo em comunidades matrilineares, onde a maternidade se traduz em uma relação com a família, e todas/os têm responsabilidades nos cuidados, educação e subsistência. Evitam ainda que haja crianças da família (ou próximas) abandonadas por não terem progenitores vivos ou presentes. Portanto, a afirmação de Mayamba deve ser também interpretada a partir de um tempo político demarcado, o surgimento da nação e as fusões ambíguas de práticas endógenas e europeias portuguesas. Não se pode, todavia, ignorar o outro lado desta realidade no presente, um tanto quanto perverso, de exploração de crianças, parentes ou não, a quem se atribuem responsabilidades como se fossem um adulto, nomeadamente, de cuidado de outras crianças, de trabalhos domésticos, até mesmo alguns casos de violência sexual por parte dos homens da casa. Mas nem sempre é assim, filhas/os mais velhos cuidarem dos mais novos continua a ser prática recorrente entre nós.
Percebe-se, contudo, que Mayamba não concorda com este tipo de arranjo sociofamiliar. Reporta-se à sua experiência familiar, em que ela e a irmã mais velha eram responsáveis por cuidar das duas mais novas porque a mãe tinha que sair para trabalhar: “nunca tivemos ninguém que cuidasse de nós. Na casa da minha mãe só tínhamos ela e as empregadas, quando as tínhamos, mas eu não quero isso”, afirma Mayamba com convicção.
Finalmente, sobre ter mais filhos, respondeu: “fazer mais filhos, não me imagino”, pelos motivos seguintes:
a) com a idade que tenho não estou a me ver com pachorra de aturar choro de bebê; b) a questão social, neste momento, em Angola, não oferece condições para educação de um filho; o nosso ensino é débil; não temos saúde; c) a própria sociedade em si, a situação política do país é incerta, eu não aconselho ninguém neste momento a ter filho, porque eu não sei como este país vai ficar, a situação é muito delicada, o índice de desemprego está tão crescente; d) depois também a minha profissão, agora vou começar o meu mestrado, depois quero fazer doutoramento, fui convidada para dar aulas, isso vai absorver demasiado tempo meu (Mayamba, 2017).