AnAtomiA do livro
13 McMurtrie explica que o
processo de produção de papel consistia em misturar as fibras vegetais decompostas e, utilizando uma armação de molde em rede, permitia colocar e escoar a água, libertando assim uma película de fibras que formava uma espécie de pasta. Uma outra rede era colocada sob a primeira e servia para determinar as dimensões da folha. O molde seria então mergulhado numa consistência quente, e posteriormente colocada numa posição horizontal. O processo fazia com que as fibras repousassem. Essa pasta, depois de seca, dava origem ao papel. Sabe-se que existia uma operação que garantia a diferença entre os papéis direcionados para a escrita e os papéis que destinavam-se a serem utilizados nos livros (1997, p.83). Atualmente a manufatura permite uma grande variedade de tipos de papel assim como de texturas e gramagens.
Em última análise, muitos fatores técnicos contribuíram para que se desse a extensão do nosso instrumento, seja através da sua transfor- mação plástica, seja pela sua capacidade de delinear o conteúdo a que se sujeita. Devido a esses fatores, somos motivados pelo atual contexto em torno das potencialidades do papel, enquanto material híbrido para traduzir a criatividade.
“A plasticização do livro transforma-o em algo de par- ticular, o livro-jóia. Todo o trabalho das iluminuras que ilustram o texto enriquecem o livro e tornam-no uma singularidade, um objeto precioso” (Babo, 1993, p.29) O papel não foi o único material eleito para a definição de um discurso. Na história verificou-se necessário a utilização de uma cober- tura para conservar a matéria textual e o material eleito para exercer essa função foi, diversas vezes, o couro. Dessa forma, o uso de um material consideravelmente sólido e resistente, permitia que o seu conteúdo fos- se protegido e fechado, recobrindo o material escrito. Continuaram a fazer-se livros como os antigos manuscritos: recobria-se as lombadas e as pastas sólidas e, quando os livros estavam encomendados a alguém de relevo social, revestia-se com materiais luxuosos: o veludo e o damasco. Certamente não podemos indiferenciar a singularidade que o livro ganha com a adição dos materiais preciosos utilizados na época. Os incunábu- los, ainda antes de o livro se tornar mercadoria, eram considerados um objeto raro e dispendioso e, dessa forma, deviam ser protegidos e ornados (Febvre & Martin, 2000, p.145). Os encadernadores que já produziam os manuscritos não tiveram de alterar (inicialmente) o seu modo de pro- dução, acabando por cobrir os livros impressos do mesmo modo. Babo confirma-nos essa transformação do livro, chamando-lhe livro-joia. E de facto, concordamos com a autora, porque o nosso objeto torna-se um ob- jeto de verdadeiro valor, produzido com os materiais mais requintados e as decorações mais refinadas. Durante a Idade Média a decoração do livro contribuiu significativamente para a obtenção de um estatuto de livro-joia.
As decorações podiam variar tendo em conta o público que as en- comendava. Os ornamentos podiam ser gravados com pequenos ferros, na qual se dispunha da forma mais conveniente, favorecendo o valor estético do livro. Os temas das ornamentações variavam consoante o encomen- dador, mas era comum a utilização de motivos vegetais ou animais, na qual os encadernadores se inspiravam frequentemente em brasões. A par disto, surge também um novo material — o marroquim — que foi muito utilizado juntamente com a técnica de dourar sobre o couro. Essas de- corações eram dadas por linhas e pontos impressos no couro, de forma a obter um padrão decorativo, potenciando as decorações a quente e sobressaindo ornamentações em mosaicos ou entrelaçados (McMurtrie, 14 Tradução livre do original: “The
whiteness and resilience of paper have similarly stimulated human desire. Paper is not merely an inorganic material, a neutral surface used for printing letters and pictures. Rather, the qualities of paper have drawn people into an extended dialogue, which has enriched their capacity to express themselves. Books can be understood as an important tool to carry this dialogue forward.”
1997, p.555). Babo (1993) recorda-nos que, ao serem folheados, a beleza dos livros, não é, vista na verdade. Com o estatuto de livro-joia, o livro perde a sua legibilidade enquanto suporte que serve o texto, mas aumenta a sua visibilidade enquanto livro-objeto. O livro é, muitas vezes, mais um objeto para ser observado e menos um objeto para ser lido (1993, p.43). “Essa preciosidade, para além de ser real, visto que tanto na iluminura é utilizada a folha de ouro como na encadernação os metais e pedras preciosas, consistem também na raridade, no carácter único que confere ao livro a técnica artesanal. Mas tem ainda como conse- quência inevitável a sua profanação, a passagem defi- nitiva ao livro-utilidade” (Babo, 1993, p.29)
McMurtrie (1997, p.554) explica-nos o processo de encadernação: “As folhas eram dobradas uma vez, e quatro ou mais des- tas folhas eram metidas umas nas outras de maneira que formassem a chamada folha de impressão ou caderno. Um ponto na dobra segurava todas as folhas e, quando surgiu o processo de coser muitos destes cadernos, com os fios passados em volta de duas ou mais tiras de papel das lombadas do livro, entravam em função os requisitos essenciais da encadernação moderna”
Ao longo dos séculos, deu-se uma expansão do livro e consequen- temente do número de leitores. A necessidade de imprimir um maior nú- mero de livros tornou-se significativa e, de forma a acompanhar a difusão do livro, os encadernadores procuraram formas técnicas mais rápidas e destituídas de decoração para tornar o processo mais económico. Assim, a solução encontrada pelos artífices foi a repetição dos frisos metálicos decorativos. Ao repetirem este processo, a encadernação era executada de forma mais rápida sendo, contudo, menos exata. No entanto, estas encadernações ainda exigiam algum tempo pelo que continuavam a não ser o mais económico. Importa, portanto, esclarecer que na segunda me- tade do século XVI, a procura de preços mais baixos e de condições mais económicas, exigiam que os livros fossem encadernados de forma robusta e contida, sobretudo os livros de menos valor e, por isso, a decoração das capas foi cada vez mais ficando em segundo plano. Significa isto que foi necessário passar a plasticização para segundo lugar, dando assim, prioridade aos livros económicos e à expansão do instrumento escrito.
“Era, sem dúvida, essencial qualquer forma de cober- tura para a conservação de textos destinados à leitura. A qualidade dessa cobertura, que permitisse uso con- veniente e proporcionasse ao mesmo tempo resguardo do conteúdo, era naturalmente determinada em larga escala pela forma do livro” (McMurtrie, 1997, p.553) A configuração da forma contribuiu muito para a conservação dos livros, embora a sua beleza passasse a estar condicionada, os livros confir- mam o seu valor de mercadoria e intensifica-se a sua utilidade enquanto objeto. McMurtrie salienta isso mesmo quando afirma que a qualidade da capa é determinada pela forma do livro e por fatores, muitas vezes, externos a ele. Tratam-se de meios físicos capazes de atribuir ao livro uma determinada plasticidade que intensifica o valor simbólico do mesmo. Os meios materiais e tecnológicos contribuíram para a responsabilização de uma entidade complexa e simbólica como o livro. Às numerosas páginas estão confiadas a enorme quantidade de informação, dentro de um dis- positivo que se torna cada vez mais leve e compacto. Virar uma página, avançar ou recuar a leitura tornou-se tão natural que deixamos de consultar livros de pesados materiais, como o metal, que estavam confinados única e exclusivamente às bibliotecas. Agora podemos ter uma leitura continuada e sem interrupções. Por isso, a experiência de leitura será sempre tão va- riável quanto mais variável for o material utilizado, os papéis escolhidos e as configurações estéticas que o livro transporta consigo. Portanto, é de interesse esclarecer as razões que levaram o livro a obter a forma e o formato que conhecemos hoje e em que medida acontece uma determi- nada configuração formal.