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3.2 PREVISÕES MATERIAIS DOS ACFIs

4.1.1.5 Mecanismo Complementar

De acordo com a Convenção de Washington, para que a demanda possa ser processada pelo Centro, tanto o país de procedência do investidor, quanto o país receptor destes investimentos devem ser partes da Convenção. Contudo, em 27 de setembro de 1978, na 12ª reunião do Conselho Administrativo do Centro, decidiu­se por meio da implementação do Mecanismo Complementar, que o Secretário Geral do Centro ficaria autorizado a administrar certos procedimentos entre Estados e nacionais de outros Estados não­contratantes do Centro, pela ausência dos requisitos rationae personae e rationae materiae. Isso se daria em razão, principalmente, de uma das partes não se tratar de Estado Contratante ou de nacional de um Estado Contratante e visar o acesso ao Centro ou, em categoria adicional, se a controvérsia não surgir diretamente de um investimento363.

362 DOLZER, Rudolf; SCHREUER, Christoph. Principles of international investment law. Oxford: Oxford

University Press, 2008. p. 249.

363 PARRA, Antonio. The history of ICSID. Oxford: Oxford University Press, 2012. p. 147­150. DOLZER,

Rudolf; SCHREUER, Christoph. Principles of international investment law. Oxford: Oxford University Press, 2008. p. 224­225. COSTA, José Augusto Fontoura. Modelos de solução de controvérsia investidor­Estado: os mecanismos nacionais e internacionais. In: AMARAL JÚNIOR, Alberto do; SANCHEZ, Michelle Ratton. (Coord.) Regulamentação internacional dos investimentos: algumas lições para o Brasil. São Paulo: Aduaneiras, p. 325­354, 2007, p. 338. Além disso, procurava­se uma forma de publicidade, mostrando aos Estados não signatários e aos particulares os benefícios do sistema de solução de controvérsias do ICSID. Cf. COSTA, José Augusto Fontoura; CARREGARO, Ana Carolina Costa; ANDRADE, Thiago Pedroso de. Mecanismo Complementar do ICSID: uma alternativa para investidores brasileiros? Revista Direito GV, São Paulo v. 3, n. 2, p. 59­76, nov. 2007, p. 64.

Desse modo, o Mecanismo Complementar possibilitou a ampliação da utilização dos mecanismos de solução de controvérsias do CIRDI, desde que o Estado de uma das partes seja contratante e que ambas as partes optem por se submeter ao Centro. Entretanto, se nenhum dos Estados envolvidos é parte na Convenção, não se poderá acionar o Mecanismo Complementar. Iniciado o procedimento do Mecanismo, as partes não poderão utilizar outro meio para solucionar as controvérsias. No entanto, caso haja tradicional disputa envolvendo Estados Contratantes ou nacionais de Estados Contratantes, será utilizado o procedimento da Convenção de Washington e não o do Mecanismo364.

Além disso, o Mecanismo Complementar pode funcionar de forma mais abrangente do que o CIRDI tanto em razão da matéria, quanto em razão da pessoa. Isso, pois, algumas matérias que não eram abarcadas pelo CIRDI passam a ser aceitas por meio do Mecanismo Complementar, como disputas que não tenham emergido diretamente de um investimento, mas que ao mesmo tempo não se caracterizam como uma transação comercial ordinária.

Outrossim, quanto ao arcabouço regulatório, o Mecanismo possui regulamentos próprios que regem seus procedimentos, tais quais o Regulamento de Conciliação (RCMC), o Regulamento de Arbitragem (RAMC) e o Regulamento de Produção de Prova Antecipada (RPPA). Os procedimentos englobados pelo Mecanismo incluem: (i) Procedimento de Conciliação e Arbitragem para a solução de controvérsias relativas a investimentos, para partes que não se constituem como Estado Contratante ou nacional de Estado Contratante; (ii) Procedimentos de Conciliação e Arbitragem para a solução de controvérsias relativas a investimentos, para quando a controvérsia não surja diretamente da matéria investimentos; (iii) Procedimentos de constatação de fatos (fact-finding proceedings).

O art. 2º do Regulamento do Mecanismo Complementar dispõe sobre o procedimento de constatação de fatos, o qual corresponde a uma espécie de inquérito, que desencadeará na produção de provas. Esse dispositivo, que não se encontra presente no âmbito da Convenção de Washington, possui papel ímpar para uma posterior conciliação ou arbitragem ou para a facilitação de uma futura solução negociada. Seu funcionamento se dá anteriormente à disputa, e tem como objetivo concatenar a vontade das partes com o intuito de uniformizar as questões de fato (e não de direito) de forma imparcial, o que

364 DOLZER, Rudolf; SCHREUER, Christoph. Principles of international investment law. Oxford: Oxford

University Press, 2008. p.224­225; COSTA, José Augusto F.; CARREGARO, Ana Carolina C.; ANDRADE, Thiago P. Mecanismo complementar do ICSID: uma alternativa para investidores brasileiros? Revista Direito GV, São Paulo. v.3, n.2, p. 59­76, jul­dez. 2007. p. 59­76.

facilitará para a instrução probatória para uma futura arbitragem365. Isso colabora para

prevenir entendimentos diversos sobre os fatos, que podem evoluir para uma futura controvérsia jurídica.

Em razão de sua base contratual, o Mecanismo Complementar se distingue da Convenção de Washington no que tange à execução de laudos arbitrais, visto que sua execução está sujeita ao regime empregado aos laudos estrangeiros conforme a lei do local de execução. Desse modo, de acordo com o art. 19 das Regras do Mecanismo Complementar, o Mecanismo exige que a sede da arbitragem, onde será proferido obrigatoriamente o laudo, deve ser determinada no território de um Estado que seja parte da Convenção de Nova Iorque sobre o Reconhecimento e a Execução de Laudos Arbitrais Estrangeiros (Convenção de Nova Iorque de 1958)366.

Ademais, o Mecanismo Complementar foi criado inicialmente para que funcionasse por cinco anos, contudo, devido ao seu sucesso, em 1984, o Conselho Administrativo do CIRDI decidiu mantê­lo por tempo indeterminado. O fato é que, o Mecanismo Complementar trata­se de instituto que auxilia na expansão do acesso à justiça internacional, visto que propicia oportunidade de acesso à jurisdição do Centro mesmo para Estados e investidores oriundos de Estados não signatários da Convenção de Washington, o que faz com que o CIRDI seja visto como alternativa também por esses atores. Assim sendo, devido aos benefícios desse mecanismo, Estados que não ratificaram a Convenção de Washington, como por exemplo, Brasil, Índia e África do Sul, podem vislumbrar o Mecanismo Complementar como real possibilidade para dirimir controvérsias sobre investimentos367.