2. REVISÃO DE LITERATURA
2.4 Colaboração na cadeia de suprimentos
2.4.6 Mecanismo de coordenação misto (horizontal e vertical)
Para Samii e Van Wassenhove (2003), o cluster é visto como uma instalação neutra que serve às agências humanitárias de forma equitativa e indiscriminada, com o
objetivo de facilitar a importação, recebimento, expedição e rastreamento de itens alimentícios e não alimentícios durante uma emergência, prevendo a participação multissetorial. O conceito cluster é definido do nível global e, então, mobilizado para configurações específicas, em que cada cluster é liderado por uma organização que pode ter suporte de uma agência adicional (JAHRE; JENSEN, 2010).
A liderança do cluster tem como responsabilidade garantir a construção da capacidade central e local, incluindo tarefas como mobilização de pessoas qualificadas, criação de reservas de itens essenciais, treinamento de pessoal ou participação de esforços para mitigação de futuros desastres em áreas vulneráveis. Por último, tem a responsabilidade de ser provedor de último recurso: se nenhuma outra organização puder prover o serviço, a liderança do cluster tem a tarefa de efetuar a entrega. Quanto ao gerenciamento de informações, a gama é bastante variada, mas o foco ocorre em rotas de transporte, status da infraestrutura e disponibilidade de recursos de transporte. Estas informações são disseminadas em uma página da web e em encontros presenciais. Há também serviços que o cluster pode fornecer, como, mapeamento de serviços de informação sobre logística e desenvolvimento de materiais para treinamento e padronização aos profissionais de logística (JAHRE; JENSEN, 2010).
A IASC (Inter-Agency Standing Committee - Comité Permanente Inter-Agências) determina qual cluster vai ser mobilizado durante operações particulares. No entanto, como os desastres não ocorrem de forma isolada, vários programas de ativação são necessários e os programas são implementados por meio de ONGs parceiras, com suporte dos governos e comunidade. A partir desta compreensão, os autores abordam que o desenvolvimento da coordenação não se estabelece em implementar uma organização independente, mas a noção de criar uma plataforma para coordenação, onde as agências podem interagir e fazer o intercâmbio de informações (JAHRE; JENSEN, 2010).
De acordo com Balcik et al. (2010), o cluster é um mecanismo de coordenação classificado como centralizado horizontal e vertical, porque estabelece parcerias no mesmo elo da cadeia e entre elos diversos, e atua dando suporte logístico para organizações com:
(i) recolhimento, coleta e disseminação de informações e dados críticos como infraestrutura de acesso, capacidade e transporte disponíveis, mapas etc;
(ii) provisão de ferramentas de compartilhamento de informações;
(iii) rastreamento de suprimentos de alívio e priorização de movimentação de cargas;
(iv) facilitação de angariação de recursos escassos.
A criação do UNJLC (United Nations Joint Logistics Centre) foi motivada pela necessidade de coordenar as ações entre agências como a UNHCR, WFP e a UNICEF, particularmente nos estágios iniciais da resposta à crises (JAHRE; JENSEN, 2010).
De acordo com o estudo de Samii e Van Wassenhove (2003), o UNJLC atua gerenciando e provendo suporte logístico relacionado à organização de planos de voo e da eficiência de carga, como capacidade de transporte completo e sistema de priorização de transporte de cargas; análise do corredor de transportes; estudos de mercado sobre preços cobrados em fretes; negociações para quebrar cartéis e permitir que as operações ocorram a custos menores; e compartilhamento de armazéns entre agências. Como dificuldades, podem encontrar cenários em que as condições das estradas estejam bastante deterioradas, devido à passagem de carros militares pesados e alto tráfego humanitário e comercial, além de chuvas ou neve.
Nestes mecanismos, os atores atuam como prestadores de serviço provendo serviços de armazenagem para os demais, mas sem envolver contratos formais, que geralmente limitam-se ao espaço de armazenagem disponível (BALCIK et al., 2010).
O planejamento engloba atividades de construção de abrigos, distribuição de suprimentos, levantamento de dados para distribuição justa de suprimentos e coordenação com as ONGs locais e governo local. Na função organização foram incorporadas as atividades de alocação de recursos (orçamentos, transporte e pessoas) e a divisão de responsabilidades entre as ONGs, alocando as responsabilidades como quem vai prover medicamentos, comida, abrigos e outros suprimentos. A função de liderança é responsável por resolver conflitos e problemas,
como comunicação, documentações e motivação dos parceiros da cadeia; a função de controle atua na análise de reclamações, definindo prioridades, inspecionando armazéns e monitorando fluxos de suprimentos e levantamentos (AKHTAR; MARR; GARNEVSKA, 2012).
No estudo de Akhtar, Marr e Garnevska (2012), em um mecanismo de coordenação guarda-chuva foram identificadas seis ONGs internacionais, uma ONG local e a presença do governo local. Nesta estrutura, os autores verificaram que as decisões eram tomadas por coordenadores estratégicos, responsáveis pela própria parte da cadeia.
Figura 3 Sistema de coordenação horizontal na cadeia humanitária
Fonte: Akhtar, Marr e Garnevska (2012)
Na Figura 3, as ONGs enumeradas de (1) a (6) são as organizações internacionais, que se relacionam com a organização guarda-chuva e que estão conectadas às organizações locais e ao governo local. Nesta estrutura foi verificado que a organização umbrela liderou as outras organizações não governamentais envolvidas, tomando as decisões de forma colaborada com as ONGs e os doadores.
De acordo com o estudo, as organizações indicaram que a coordenação criou diversas vantagens, como a melhoria das capacidades de atendimento e recursos como liderança; infraestrutura de comunicação e finanças; e diminuição de custos para participação de reuniões (que geralmente são altos devido à incerteza de demanda), permitindo uma resposta efetiva ao desastre a partir do
compartilhamento de recursos e competências entre as ONGs. A organização guarda-chuva liderou as entidades com direcionamento e estratégia central de atendimento a vítimas, provendo suprimentos adequados, salvando pessoas do sofrimento e resolvendo problemas. Os autores citam que para gerenciamento neste mecanismo de coordenação, as funções principais foram organizadas e separadas em planejamento; organização; liderança; e controle, além de se tratar de um fator importante, o compartilhamento de informações.
Os autores ressaltam ainda que a eficiência e vantagens da coordenação estão geralmente associadas às competências individuais dos responsáveis das agências coordenadoras, como liderança adaptável e flexível a mudanças de circunstâncias, experiência com gerenciamento de desastres e educação relevante, habilidade com gestão de relações, habilidade relacionada à coleta de dados e identificação de demanda; e, também, a utilização de indicadores de desempenho, essenciais para auxiliar os coordenadores a tomar melhores decisões.