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2.1. Pressuposição lógica: Condições Gerais de Referência

2.2.1 Mecanismo do Tipo A e suas Representações

Mecanismos que têm a tarefa, quase que exclusivamente, de representar que uma referência está sendo feita são, tipicamente, demonstrativos, artigos definidos e indefinidos, pronomes, advérbios e, em último caso, a flexão do verbo ocorrendo nas frases. As características peculiares a tais mecanismos de referência são: primeiro, eles são maximamente “dependentes do contexto de elocução” (STRAWSON, 2004, p. 15). Deste modo a expressão „isso‟ distingue-se das expressões „O rei da França‟ ou „gato‟, pois quase não há restrições para o tipo de coisas que podem ser referidos com o uso da expressão „isso‟, de modo que aquilo que está sendo referido com seu uso depende essencialmente do contexto de sua elocução. Distintamente, as expressões do segundo tipo – „O rei da França‟ e „gato‟ –, ainda que dependam do contexto de sua elocução, em certa medida, sofrem uma drástica restrição quanto ao tipo de coisas que elas podem corretamente referir. Concernente aos demonstrativos, em especial, pode ser realizado uma distinção quanto ao tipo de coisas que eles podem referir. Podemos distinguir entre uso primário e uso secundário de demonstrativos correspondentemente as noções de contexto geral e contexto discursivo. Assim, poderíamos dizer que quando demonstrativos ocorrem de forma primária, onde o contexto determinante para sua referência é o contexto geral – acima definido –, então as coisas que eles podem referir necessariamente devem manter uma relação espaço-temporal com o falante e o ouvinte. Enquanto que, quando referimos com uso secundário de demonstrativos, onde o contexto determinante para a referência é um dado contexto discursivo, então as coisas que podem ser referidas com seu uso não tem qualquer restrição categórica – assim é coerente afirmar que todos os demonstrativos presentes neste texto são de uso secundário.

O segundo aspecto é referente à „drástica restrição‟ acusada para expressões como „O rei da França‟ e „gato‟. O determinante neste aspecto é sua “força descritiva29” a qual é nula ou muito reduzida no caso dos mecanismos do tipo B (STRAWSON, 2004, p. 16). Segundo Strawson, o significado descritivo pode ser definido como as “limitações convencionais, em aplicação, para coisas de certo tipo geral, ou possuindo certas características gerais” (2004, p. 16). Assim, „isso‟ contém uma força descritiva nula e „ele‟, o artigo definido „o‟, „esse‟, são expressões que possuem uma força descritiva mínima podendo, somente em situações muito

28 Cf. Strawson (1974b)

remotas, adquirir um uso adscritivo30. Já no caso de substantivos, em geral, não é possível que façamos uso das palavras com tanta latitude categorial sem que sejamos corrigidos31. Nesta classificação, também entrariam nomes próprios como as expressões que não contêm qualquer conteúdo descritivo, porém, diferenciam-se dos mecanismos do tipo B, pois nomes próprios são regidos por convenções de uso ad hoc, enquanto que os demais são regidos por convenções gerais de uso. As “convenções gerais para referir e adscrever” pertencem tanto expressões do tipo A quanto expressões do tipo B, essas têm a característica de não se alterarem em função do seu contexto de falantes. Já convenções de uso ad hoc ganham vida em função de um dado contexto de falante que a usam, mas um mesmo nome próprio pode ter convenções distintas dependendo do contexto.

Vejamos alguns exemplos de alguns mecanismos do tipo A e sua articulação com os requisitos contextuais. Segundo Strawson: “O requerimento contextual para uso referencial de pronomes pode ser enunciado com maior precisão em alguns casos (por exemplo, „Eu‟ e „você/tu‟) e somente com maior vagueza em outros („isto‟ a „isso‟32)” (2004, p. 17). “Assim, por exemplo, no limítrofe caso da palavra „Eu‟ o requerimento contextual é que a coisa deva ser idêntica com o falante” (STRAWSON, 2004, p. 14). Daí, nós também poderíamos derivar o requerimento contextual da palavra „tu/você‟, a saber, que a coisa deva ser idêntica ao ouvinte, ainda que problemas surgiriam quando a audiência não fosse composta por apenas uma pessoa. Vejamos o caso dos demonstrativos, os quais o requerimento contextual pode somente ser enunciado com maior vagueza. Nestes casos, pressupomos naturalmente que uma referência está sendo feita, e, ao mesmo tempo, que o item referido está proximamente presente, uma vez que está sendo usado na referência o demonstrativo „isso‟; de outro lado, se em vez disso usássemos demonstrativo „aquele‟ teríamos também a pressuposição de que estamos fazendo um uso referencial, e, neste caso, que a coisa está presente não tão próxima de nós. Contudo, podemos notar que enquanto o mecanismo é capaz de nos mostrar que uma referência está sendo feita e situar o falante em relação ao objeto referido, ele é ineficiente para indicar qual referência está sendo feita ou que tipo de referência está sendo feita – em outras palavras, em geral, há uma variedade de particulares que podem manter uma relação espacial, em um dado momento, com um falante. Não obstante, há ainda mecanismo que

30

Imaginemos o caso, por exemplo, em que uma mulher de aparência andrógena está em nossa presença e alguém diz, referindo-se a ela, „Ele vai nos acompanhar‟. Não seria errado, e muitas vezes suficiente, se alguém replicasse: „Ele é ela!‟.

31 O uso do termo “força descritiva” remete justamente ao possível constrangimento no caso de uma aplicação

incorreta das expressões.

32 Os exemplos dos dois parênteses, no original, são respectivamente “‟I‟ and „you‟” e “‟it‟ and „this‟”, porém,

sofrem de uma maior vagueza, a saber, os artigos definidos e indefinidos. Assim, segundo Strawson:

Nós usamos “o/a” ou quando uma prévia referencial foi feita, e quando “o/a” sinaliza que a mesma referência está sendo feita; ou quando, na ausência de uma prévia referência indefinida, o contexto (incluindo o presumido conhecimento do ouvinte) é esperado capacitar o ouvinte a dizer qual referência está sendo feita. Nós usamos “um/uma” ou quando essas condições não estão cumpridas, ou quando, ainda que uma definida referência possa ser feita, nós desejamos manter em segredo a identidade do indivíduo para quem, ou para o qual, estamos referindo. (2004, p. 18-19) (grifos do autor)33

Assim, os mecanismos do tipo A são responsáveis pela indicação de que uma referência está sendo feita. Em alguns casos, esses mecanismos também são capazes de fixar parte do requerimento contextual – no caso dos demonstrativos, por exemplo; em outros, todo o requerimento contextual é especificável – o caso do pronome „Eu‟, por exemplo; e em outros, sua especificação repousa totalmente sobre uma prévia referência – no caso dos artigos definidos; e, por fim, há também aqueles que surgem justamente como um sinal de que esses requerimentos não podem ou não desejam ser cumpridos – no caso dos artigos indefinidos. Assim, resta perguntar: o que é determinante para os casos em que os requerimentos contextuais não podem ser precisamente enunciados desde um dado uso de uma expressão do tipo A? Surge então a grande importância das expressões do tipo B.