PARTE I TEÓRICA
1.4. Mecanismos de controlo da atividade policial
Os mecanismos de controlo da atividade profissional são comuns à maioria das organizações. Todavia, o controlo assume especial relevância quando incide sobre “agentes que têm, em primeira instância, de cumprir e fazer cumprir a lei” (Almeida, 2005, p. 7) e cuja atividade interfere diretamente com os direitos dos cidadãos.
O controlo da atividade policial permite aferir se os agentes das forças de segurança cumprem com aquilo que lhes é determinado contribuindo, desta forma, para que a atividade se mantenha dentro dos padrões desejados. Não poderá ser encarado como um presságio de falta de confiança para com aqueles que estão ao serviço do cidadão, mas como um meio de melhorar a qualidade do serviço.
O controlo da polícia existe não para inibir a sua acção, não para denegrir a sua imagem, mas, pelo contrário, para garantir elevados padrões de qualidade na acção policial fortalecendo, assim, a credibilidade e o prestígio da instituição policial, ou seja, para, afinal, garantir o pleno exercício dos direitos fundamentais por parte dos cidadãos. (Almeida, 2005, p. 8)
Distingue-se o controlo interno do controlo externo quando o ato de fiscalizar parte de dentro ou de fora da organização, respetivamente. As forças de segurança dispõem organicamente de uma inspeção interna, sendo que a IGAI, o Provedor de Justiça, a
14 Procuradoria-Geral da República e os tribunais formam os mecanismos de controlo externo da atividade policial15.
1.4.1. INSPEÇÃO INTERNA
Qualquer organização deverá possuir mecanismos de controlo que permitam fiscalizar e inspecionar o seu pessoal de forma a melhorar a qualidade do serviço prestado. O controlo interno cada vez mais se torna intransigente já que “nunca antes a pressão sobre muitas áreas de gestão de recursos humanos foi tão intensa” (Peretti, 2001, p. 517). As organizações policiais não são exceção e, quer a PSP quer a GNR, encerram, na sua orgânica, um mecanismo de controlo interno (para além do controlo dos respetivos comandantes das unidades e subunidades policiais). As polícias são controladas internamente porquanto “qualquer organismo de vigilância exterior à polícia dificilmente poderá substituir os numerosos níveis hierárquicos existentes” (Alves, 1997, p. 5) e, em democracia, qualquer força policial tem o dever de admitir todo e qualquer mecanismo de supervisão (Alves, 1997).
A inspeção da PSP “exerce o controlo interno nos domínios operacional,
administrativo, financeiro e técnico, competindo-lhe verificar, acompanhar, avaliar e
informar sobre a atuação de todos os serviços da PSP”16. 1.4.2. IGAI
A IGAI, criada pelo DL n.º 227/95, de 11 de setembro17, “é um serviço central de
inspecção, fiscalização e apoio técnico do Ministério da Administração Interna (MAI), dotado de autonomia técnica e administrativa, que funciona na directa dependência do Ministro”18.
A Amnistia Internacional ou o Comité para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa relatavam, no início dos anos 90 do século passado, a ineficácia dos mecanismos de controlo da atividade policial, pelas recorrentes denúncias civis contra agentes das forças de segurança (Rodrigues, 2011). Havia a necessidade de “um serviço de inspecção e de fiscalização especialmente vocacionado para o controlo da legalidade, para a defesa dos direitos dos cidadãos e para a melhor e mais célere administração da justiça disciplinar nas situações de maior relevância social”19.
15 IGAI e Provedoria da Justiça para o âmbito administrativos e disciplinar e a Procuradoria-Geral da
República e os tribunais para o âmbito criminal.
16 Cfr. art. 25.º, n.º 1 da Lei n.º 53/2007, de 31 de agosto e art. 1.º, n.º 1 do Despacho n.º 14882/2010 q ue
aprova o Regulamento Interno da Inspeção da PSP.
17 Alterado pelo DL n.º 154/96, de 31 de agosto e pelo DL n.º 3/99, de 4 de janeiro. 18 Cfr. art. 1.º do DL n.º 227/95, de 11 de setembro.
15 A IGAI é criada como um mecanismo de controlo externo que se tem caracterizado pela sua eficácia20 (Maximiano, 1999).
À IGAI compete, em geral, velar pelo cumprimento das leis e dos regulamentos, tendo em vista o bom funcionamento dos serviços tutelados pelo Ministro, a defesa dos legítimos interesses dos cidadãos, a salvaguarda do interesse público e a reintegração da legalidade violada.21
No entendimento de Maximiano (2005), a existência de instâncias de controlo externo é impreterível nos Estados democráticos, e a IGAI, muito particularmente, reflete transparência, imparcialidade e credibilidade por ser externa e independente das forças de segurança.
1.4.3. PROVEDOR DE JUSTIÇA
Prevista no art.º 23º da CRP, a figura do Provedor de Justiça constitui também uma instância de controlo externo da atividade policial, no âmbito administrativo e disciplinar. Esta disposição constitucional consagra o Provedor de Justiça como um órgão autónomo cuja atividade é independente dos meios graciosos e contenciosos previstos na Constituição e nas leis22. Os cidadãos podem apresentar queixas sobre a atuação policial a este órgão que vai apreciá-las sem poder decisório, dirigindo aos órgãos competentes as recomendações necessárias para prevenir e reparar injustiças23.
A figura do Provedor de Justiça é reconhecidamente promotora do interesse público e da proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos, fins destinados à Administração Pública24. Mais do que qualquer outro órgão, é capaz de apreciar denúncias contra as forças de segurança sem qualquer oposição institucional25 (Rodrigues, 2011).
1.4.4. PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA E TRIBUNAIS
O poder judicial, pela sua natureza independente, é também um mecanismo de controlo externo da atividade policial. Este controlo efetua-se no âmbito criminal e numa dupla vertente: na atividade processual, inerente ao campo de atuação das forças de segurança; e na investigação e julgamento de crimes que envolvam elementos policiais.
Relativamente à primeira vertente, sabe-se que na ordem jurídica portuguesa vigora o princípio da separação de poderes que determina funções processuais às polícias e poderes de direção funcional à autoridade judiciária (Rodrigues, 2011). O MP é autónomo em
20 Segundo o Relatório de Atividades 2014 da IGAI, 35% das ocorrências denunciadas são do tipo ofensas
corporais (165 da PSP, 82 da GNR e 2 de outros serviços do MAI). As denúncias/participações deste tipo de ocorrência foram semelhantes ao ano de 2013 e inferiores ao ano de 2012.
21 Cfr. art.º 3º do DL n.º 227/95 de 11 de setembro. 22 Cfr. art. 23.º, n.º 2 e n.º 3 da CRP.
23 Cfr. art. 23.º, n.º 1 da CRP. 24 Cfr. art. 266.º, n.º 1 da CRP.
25 Segundo o Relatório Anual da Atividades à Assembleia da República de 2014, foram, neste período,
16 relação ao poder político26 e “defende os interesses que a lei determinar, participa na execução da política criminal definida pelos órgãos de soberania, exerce a acção penal orientada pelo princípio da legalidade e defende a legalidade democrática”27. Embora os OPC’s tenham autonomia técnica e tática relativamente ao MP28, compete a esta autoridade judiciária dirigir a investigação criminal e fiscalizar a atividade processual dos OPC’s29.
Quanto à segunda vertente, o controlo do MP e dos tribunais sobre a atividade policial manifesta-se tanto nos crimes suscetíveis de serem imputados a qualquer cidadão –
v.g., ofensa à integridade física -, como naqueles que não se aplicam ao cidadão comum –
v.g., abuso de poder. É o MP, dirigido pelo Procurador-Geral da República, e os tribunais que apreciam as atuações policiais que constituem crimes (Maximiano, 1997).