Capítulo IV – Apresentação, análise e discussão dos resultados
2. Agenda política
2.2 Mecanismos de controlo e prestações de contas
No que diz respeito à pressão para a obtenção de resultados por parte da escola, as vozes vão atribuindo diferentes sentidos, pois se, por um lado, há os que consideram que existe pressão para os resultados, outros consideram que é a cultura de exigência que existe na escola Spontaneus e que se revela como algo natural. Não obstante, E2 refere que os professores atuais que, já vêm do seu tempo de estudante, mencionam que a exigência já não é o que era. Curiosamente, E1 defende a necessidade de se intervir para atenuar a exigência que existe em
estar expressa no PE e restantes referentes internos: “a) No projeto educativo, que constitui um documento objetivo, conciso e rigoroso, tendo
em vista a clarificação e comunicação da missão e das metas da escola no quadro da sua autonomia pedagógica, curricular, cultural, administrativa e patrimonial, assim como a sua apropriação individual e coletiva; b) No plano anual e plurianual de atividades que concretiza os princípios, valores e metas enunciados no projeto educativo elencando as atividades e as prioridades a concretizar no respeito pelo regulamento interno e o orçamento.
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Spontaneus. Sendo que E2 confirma que há pais que não sabem o que querem, confirmando-se a existência de correntes diferentes e a pressão que os pais conseguem fazer ou não sobre as escolas como Bush (2003) já havia identificado:
“os pais estão muito em cima dos resultados e querem muitas coisas para os seus filhos, às vezes, nem sabem muito bem o quê; acho que a Escola é bastante pressionada pelos pais; forçar a ter bons resultados e a estar sempre em cima dos professores e a serem sempre muito críticos em alguns aspetos e, por outro lado, há um grupo de pais que é um bocadinho ao contrário, apoia os professores, há…, como há…, uma decisão conjunta em relação à educação dos seus filhos e, portanto, há aqui um quase um ‘colete de duas forças mesmo entre os pais’, penso eu”.
Quadro 7 - Pressão para os resultados
Pressão para os resultados
E1 - “há um bocadinho de pressão para os resultados, nomeadamente, na área do ‘Amaranto’; esta escola tem uma carga horária muito diferente das escolas, que não têm a área do ‘Amaranto’, tem complemento, tem uma carga horária muito maior, têm de estudar muito mais, e …, às vezes, fazemos juntos dos próprios professores alguma, alguma sensibilização no sentido de ter alguma atenção com os trabalhos de casa; para atenuar um bocadinho, porque, às vezes, naquela escola existe uma mentalidade que quanto a mim é errada. E, é uma daquelas coisas que nós nos debatemos bastante, que é aquela mentalidade que é: ‘Ah, as pessoas quando vêm para aqui já sabem que é uma escola…, têm que…, Portanto, se vêm para aqui, já sabem que vão ser ‘castigadas’, portanto, têm que aguentar; é um bocadinho exagero; E nós debatemo-nos, exatamente, pelo contrário, que é, se já é uma escola que obriga muito mais e que exige muito mais deles, devemos fazer dentro do que é possível, tudo aquilo; às vezes, isso é uma mentalidade um bocadinho marcante naquela escola, que com o qual nos debatemos algumas vezes e fazemos alguma pressão, precisamente, no sentido de atenuar; pronto, tem que haver aqui, também, algum equilíbrio (sorri)”. E2 - “Acho que contrariar não é muito possível, porque a tendência é exatamente esta. É de avaliar, aferir, ah…, tentar estar sempre no, nos topos dos rankings e por aí fora. Portanto, esta Escola tem e, eu ouvi isto da diretora há pouco tempo quando tivemos uma Avaliação Externa, ah…, tem tido bons resultados nesses, nesses momentos de avaliação do 4º, 6º, e 9º e 12º; eu não sinto que haja, propriamente, uma pressão muito grande, ah…, por parte da escola, dos professores, digamos assim em relação aos alunos para obter bons resultados, porque eu acho que isso é um ambiente natural aqui dentro. Essa questão que eu estava a falar ao bocado de cultivar a exigência”.
E4 - “eu acho que os bons resultados aparecem pela natureza, pela natureza do ensino”. E6 - “Essa pressão não existe”;
E7 - “Não acho que seja feita muita pressão; não sei se o ‘Amaranto’, diretamente, influencia para que nós tenhamos bons resultados, mas o facto de termos muitas atividades e exigência na parte do ‘Amaranto’, (…) ter de organizar o nosso tempo da melhor maneira, gerir o nosso tempo da melhor maneira e isso influencia muito nos resultados, acho que sim”.
E8 - “não temos sentido muito isso, porque…, acho que desde sempre a escola tem conseguido níveis, níveis altos; Agora nós próprios é que, é que, é que criamos essa pressão digamos, nós próprios é que, no nosso dia a dia, ah…, temos connosco sempre essa pressão de que queremos o melhor para os nossos alunos”.
E9 - “essa é uma questão que para nós é muito pacífica. Esta escola tem obtido sempre bons resultados, estivemos apreensivos quando, realmente, tivemos de aumentar as nossas turmas para vinte e seis, porque, realmente, as condições pioraram, em termos de sala de aula; É isso que nós contestamos e que a DGEST não consegue perceber que nós quando dizemos que vinte e seis são demasiados, é porque temos que sentar vinte e seis, mas os mesmos metros quadros que temos da sala de aula”.
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Em síntese, podemos dizer que há dissonâncias no discurso, modelando entre “Não há pressão”, “é algo natural”, “é pacífico”, “é a cultura de exigência existente na escola” que contrasta com a necessidade de se “atenuar”, havendo uma débil articulação entre a missão esperada, a cultura escolar e a vontade de alguns pais e mães. Assim, poder-se-á dizer que, grosso modo, considera que a pressão para os resultados é algo que é natural para aquele contexto, uma vez que se trata de uma escola onde há uma cultura de exigência em que se quer o melhor para os seus alunos, sobretudo porque são os próprios professores que desejam e criam essa pressão (E8). Todavia, convém salientar que este tipo de resultados é fruto de diferentes variáveis, de onde podemos destacar: o contexto familiar, o acompanhamento que é dado, a cultura de exigência e, na voz de E9, que destaca que estes resultados são fruto de:
“o corpo docente é mais ou menos estável, os professores quando vêm aqui veem que é uma escola diferente, gostam de aqui trabalhar (…) Para mim é um fator aqui primordial para que os alunos desenvolvam competências que lhes vão facultar…, ham…, habilidades, não é? para as aprendizagens. É a concentração, não é? É a atenção, a memória, a criatividade, tudo eles, o ‘Amaranto’ acaba por os desenvolver, portanto, acho que os resultados vão surgindo”.
Esta variável é, também, relatada tanto no Relatório da Avaliação Externa de 2010 (p. 07):
“A estabilidade do corpo docente e o critério de continuidade da relação pedagógica dentro de cada ciclo, para professores e directores de turma, são facilitadores da sequencialidade educativa. Em consequência da reflexão realizada nos órgãos e estruturas de coordenação educativa e supervisão pedagógica verificam-se acções de coordenação interdepartamental (e.g., projectos de natureza interdisciplinar), intradepartamental (e.g., aferição de critérios de avaliação, estrutura dos testes, cotação e critérios de correcção e análise de resultados)”,
como no Relatório de 2014 (p. 02):
“Exercem funções na Escola 122 docentes, sendo que 59,8% pertencem aos quadros e 41% lecionam há 20 ou mais anos. Os docentes da formação geral apresentam maior estabilidade profissional (quadro de escola e quadro de zona pedagógica)”.
No que diz respeito ao RI (2014, p. 05), o carecimento desta estabilidade é descrito desde 1986, ficando expressa da seguinte forma:
“assiste‐se a algumas alterações estruturais na vida interna desta instituição, nomeadamente no seu corpo docente das disciplinas de formação geral, pois é criado um quadro de efetivos, garantindo alguma estabilidade ao projeto educativo da escola”.
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Refira-se que esta necessidade vai ao encontro do prescrito pela legislação, tanto no decreto-lei n.º 115A/98, como no decreto-lei n.º 75/2008 e respetivas alterações.
Relembre-se que já Fayol (1984), nos seus catorze princípios da administração, alertava para o princípio da estabilidade do pessoal, pois defende o autor, que uma rotatividade alta tem consequências nefastas sobre o desempenho da empresa e a moral dos funcionários.
Deste modo, verifica-se que, embora os normativos decretem a estabilidade e esta seja reconhecida e esteja patente ao modelo burocrático, há uma débil articulação entre o legislado e o operacionalizado pelo poder central. Ou seja, embora o poder central reconheça esta premissa, bem como a equipa da Avaliação Externa como sendo uma mais-valia, os atores sociais (E1, E2) identificam-na como um problema a ser ultrapassado, pois cerca de cinquenta por cento dos professores são contratados anualmente, o que prejudica o bom funcionamento da organização, apesar dos bons resultados obtidos, reclamam maior autonomia nesta dimensão com a finalidade de cumprimento da sua missão indo ao encontro da cultura de exigência criada localmente e não imposta externamente.
Assim sendo, constata-se, então, que, no olhar dos vários atores sociais, há diferentes perspetivas quanto à pressão ou não para os resultados, mas estes não a entendem como forma de controlo externo.
Não obstante, parece-nos que estamos perante uma Administração Central altamente burocrática, centralizada, querendo controlar tudo através de normas de aplicação universal e uniforme, de estruturas formais predeterminadas, de regularidades, de consensos, de processos de planeamento, de relações de poder, visando o consenso e o carácter preditivo das ações organizacionais, evidenciando o homo economicus, revelando a chamada racionalidade objetiva a priori, num modelo imposto para todo o país, denunciando o caráter gerencialista que esquece o Homem Social de Mayo (1945) onde o enfoque é nas pessoas, na organização informal, na pessoa integrada num grupo que tem outras motivações, para além do económico e, esquecendo, ainda, o respeito pelo contexto local.
Embora, perante os dados, parece-nos que o caso em estudo vai ao encontro do defendido por Lima (1998a, p.581) que alerta para a presença de elementos que são reproduzidos e produzidos em termos históricos e socioculturais denunciando “invariantes institucionalizadas, mas também políticas, configurações estruturais contingentes, formas de
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governação distintas, acções polifonicamente afirmadas e localmente construídas”, que, embora do ponto de vista formal-legal a imagem que sobressaia seja o da estabilidade, na prática esta nem sempre acontece, podendo, eventualmente, o diretor vivenciar uma espécie de esquizofrenia em virtude de estar entre duas forças, ou seja, entre muros.