2.5 FORMAS HÍBRIDAS DE GOVERNANÇA
2.5.2 Mecanismos de Coordenação Complementares aos Contratos
De acordo com Ménard (2004, p. 363), mesmo os contratos mais complexos apresentam incompletudes suscetíveis a riscos de comportamento oportunista e, com isso, torna-se necessário o uso de salvaguardas complementares que podem ser formais ou informais, baseados em relacionamentos ou reputação.
Nesse sentido, refere-se às estruturas de governança híbridas como arranjos específicos que combinam contratos e estruturas administrativas estabelecidas para coordenar as transações. O nível de dependência entre os parceiros e, consequentemente, o formato da
estrutura híbrida, dependerá da capacidade de desenvolver mecanismos que protejam dos riscos e que distribuam os benefícios do arranjo entre os parceiros. Com base no princípio do alinhamento discriminante, Ménard (2004) estende a relação feita por Williamson (1991) entre a especificidade do ativo e o custo de transação no estabelecimento da estrutura de governança, conforme a Figura 2. Nesta, apresenta uma tipologia para as formas de organização híbridas com base em mecanismos complementares aos contratos.
Figura 2 – Tipologia das formas organizacionais híbridas
Fonte: Ménard (2004)
Esses mecanismos são apresentados como uma forma de “autoridade” presente nas organizações híbridas, também chamada de ordem ou governança privada, porém, distinta da relação hierárquica (MÉNARD, 2004, p. 366). Outra característica apontada é a transferência de decisões para uma terceira parte designada para coordenar as ações dos parceiros. Assim, para o autor essa “autoridade” apresentaria níveis mais altos de centralização de acordo com o nível de dependência e da complexidade do ambiente em que o arranjo está inserido. Em outras palavras, os mecanismos de coordenação complementares aos contratos apresentariam uma estrutura mais centralizada de acordo com o maior nível de ativos específicos envolvidos e o risco de comportamento oportunista. Os níveis de autoridade variam entre relações pautadas na confiança e aquelas que apresentam uma governança formal. Para Royer et al. (2016), a diferença entre esses mecanismos está relacionada à
capacidade de coordenação e controle das relações e, por sua vez, definem o tipo de arranjo híbrido.
2.5.2.1 Reputação
Ménard (2004) aborda a confiança como uma salvaguarda contratual baseada em relações informais ou reputação, isto é, quando a relação é recorrente a ponto de tornar a confiança operacional. Bradach e Eccles (1989) abordam a confiança como um mecanismo de controle predominante nos arranjos híbridos e afirmam que se trata de um tipo de expectativa que reduz o medo dos parceiros em relação a possíveis comportamentos oportunistas (BRADACH E ECCLES, 1989, p. 104).
De acordo com Ménard (2012) a confiança vem sendo interpretada como uma questão de reputação pelos teóricos organizacionais e destaca as seguintes situações na construção da reputação: (i) transações recorrentes entre parceiros; (ii) familiaridade entre as partes como resultado de experiências comuns tais como a imersão em um mesmo ambiente social ou a proximidade geográfica; (iii) informações sobre relacionamentos anteriores com outros parceiros; e (iv) raízes institucionais comuns como a participação em associações com normas comportamentais próprias (MÉNARD, 2012, p. 34).
No mesmo sentido, Farina et al. (1997) abordam a relação entre o atributo frequência e a construção de reputação entre as partes envolvidas na transação. Os efeitos da reputação em transações recorrentes podem ser observados desde transações realizadas por meio de estruturas de governança menos coordenadas em pequenas comunidades – onde as transações são recorrentes – até uma estrutura contratual mais complexa. Segundo Ménard (2004), na seleção dos parceiros comumente se utiliza a confiança como uma salvaguarda complementar aos contratos por esta está relacionada a reputação desenvolvida em transações recorrentes. E também está presente nas relações sociais onde os agentes negociadores estão inseridos e compartilham os mesmos valores.
Além disso, nesses arranjos as decisões são descentralizadas e há um baixo nível de coordenação proporcionada pela existência de influência mútua e reciprocidade (MÉNARD, 2004, p. 367). Segundo Ménard (2004, 2007), as relações baseadas em confiança não são puramente informais, visto que tendem a ser sistematizada a fim de garantir a continuidade nas transações e também porque envolve arranjos e atores específicos.
Farina et al. (1997) traçam uma relação entre a reputação e a construção do valor de uma marca. Para esses autores, a principal função e uma marca é a redução do custo de transação relacionado a coleta de informações sobre o produto em negociação. Com isso, a boa reputação de uma marca proporciona ao consumidor informações importantes sem custos para a sua tomada de decisão.
2.5.2.2 Rede relacional
O segundo tipo de complemento contratual com maior nível de coordenação e controle que o anterior é a rede relacional. Nesse mecanismo existem regras formais ou informais que contribuem para a redução dos riscos de comportamento oportunista mesmo na ausência de uma liderança única na condução das transações. Como colocado por Ménard (2007), os riscos contratuais significativos fazem com que esse modo de governança exija mecanismos de coordenação e controle superiores à confiança, como as regras formais e convenções que influenciam o comportamento das partes. De acordo com Ménard (2004), uma rede relacional se assemelha a um clube que tem sua coordenação baseada no histórico da rede, na existência de competências complementares e na convivência social.
Zylbersztajn (2004) define redes como um conjunto simultâneo de acordos de cooperação inter-firmas, que apresenta regras bem definidas para alocar as decisões e distribuir os ganhos residuais das transações. Para esse autor, tais regras podem ser cumpridas de forma jurídica (enforcement) ou por mecanismos informais, de cunho social, como é o caso da reputação dos agentes imersos na rede.
Farina e Zylbersztajn (2003) destacam a importância da coordenação horizontal no agronegócio por meio do incentivo a cooperação e a geração de externalidades de rede. Tais autores citam o exemplo da produção de orgânicos, em que o conceito de rede pode ser utilizado para entender a coordenação e competição entre os agentes envolvidos, visto que os atributos físicos do produto não podem ser verificados sem custos pelos consumidores, o que exige a certificação por terceiros (FARINA & ZYLBERSZTAJN, 2003, p. 6). Nos elos da produção e comercialização citam ainda a alta especificidade de ativo envolvida na transação. Pois, caso esta não seja realizada entre os agentes relacionados verticalmente, ou seja, sendo reempregada em mercados convencionais, haveria uma perda
significativa de valor, devido a não valorização dos processos adotados nesse sistema de produção que possuem custos superiores aos tradicionais.
Paulillo et al. (2016) afirmam que rede não é uma simples metáfora, trata-se de uma forma organizacional alternativa ao mercado e à hierarquia e, assim, abordam esse conceito nas perspectivas sociológica, econômica e da ciência política. Apesar de divergências presentes nessas três vertentes, existe uma premissa central de que “as instituições interagem com as redes e que ambas modificam e influenciam as ações econômicas, políticas e sociais das pessoas” (PAULILLO et al., 2016, p.15). Nesse sentido, uma rede não é somente uma estrutura de governança híbrida, mas um arranjo organizacional específico, onde convivem mecanismos formais e informais de coordenação que englobam aspectos sociais e culturais (PAULILLO et al., 2016, p. 158). No entanto, Paulillo et al. (2016, p. 158) afirmam que a diversidade de redes permite encontrar aquelas com fins puramente econômicos e regidas por mecanismos formais, como os estatutos específicos, e aquelas redes onde preserva-se a independência das partes e suas relações são baseadas em cooperação, confiança e reciprocidade.
Sob o instrumental da ECT, Zylbersztajn (2004) aponta para a perspectiva da transação (dyadic perspective) como uma forma de governança de rede onde se considera a relação dual entre atores em uma mesma rede. Nesta, propõe que as transações simultâneas não sejam consideradas isoladamente, ao menos que estejam presentes condições em que as transações não influenciem uma a outra em termos de custos ex-ante e ex-post (ZYLBERSZTAJN, 2004, p. 3). Neste sentido, a transação dual se vale das características presentes na rede, como os benefícios da boa reputação e da cooperação entre os membros.
Paulillo et al. (2016) destacam três elementos como as principais características das redes, apontadas pela literatura como redutoras de custo de transação: centralidades (de grau, de proximidade ou de intermediação), reputação e cooperação. A partir disso apontam para o conceito da transitividade em que, por exemplo, a reputação desenvolvida por um ator em determinada transação pode influenciar no custo de transação de outra transação deste com um ator de dentro ou de fora da rede. Em um segundo momento, Zylbersztajn (2004) destaca a relação entre redes e confiança colocando a questão da existência de redes mesmo na ausência de confiança. Para tanto, devem existir mecanismos que induzam ao comportamento cooperativo (PAULILLO et al., 2016, p. 204).
2.5.2.3 Liderança
Segundo Ménard (2004) a liderança é um modo de coordenação que surge entre parceiros de transações recorrentes e uma das partes consegue estabelecer sua autoridade sobre as demais. As principais razões apontadas para isso foram as competências específicas de uma determinada firma ou a ocupação de posição chave na sequência da transação (MÉNARD, 2004, p. 368).
O arranjo contratual onde uma das partes tem um papel de liderança é geralmente observado em transações com incerteza ainda mais significativa e importantes investimentos compartilhados (MÉNARD, 2007, p. 9). Com isso, na coordenação por meio da liderança há um maior nível de monitoramento dos parceiros em comparação com o mecanismo de rede. Segundo Pinotti (2014) esse mecanismo ocorre em transações frequentes com parceiros específicos quando uma firma consegue estabelecer sua liderança sobre os demais parceiros.
A ECT propõe instrumentos analíticos para testar empiricamente a relação entre a liderança por meio da relação direta entre especificidade de ativo e o nível de autoridade envolvido na transação. Com isso, espera-se que quanto maior a especificidade de ativo maior a autoridade adquirida pelo agente que possui o maior poder de barganha na transação. Ménard (1997) ilustra essa afirmação por meio de um exemplo na indústria farmacêutica, onde acordos de P&D entre uma grande empresa e um grupo de pequenas empresas que fazem pesquisa de ponta dependem de elementos como capacidade financeira e de tomada de decisão do elo com maior poder de barganha na negociação, mesmo com igualdade formal de direitos (MÉNARD, 1997, p. 747).
2.5.2.4 Governança formal
Na presença de investimentos que causam dependências mútuas e é alto o risco de comportamento oportunista, geralmente surge a necessidade de uma instituição ad hoc para coordenar e monitorar as transações e, segundo Ménard (2004), o tipo de estrutura de governança escolhido geralmente é do tipo quase-integração. Ménard (2007) afirma que, apesar das partes continuarem com direitos de propriedade distintos e até mesmo competirem
em alguns segmentos, um subconjunto de decisões é coordenado através de um organismo quase-autônomo e aponta como exemplo as joint-ventures.
Ménard (2007) questiona se o conceito de organizações híbridas é apropriado para caracterizar as cooperativas, visto que existem diversos formatos entre elas com distintas propriedades. A classificação dos arranjos observados foi realizada em termo da relação entre o direito de propriedade e de decisão. Próxima a relação de mercado, o autor classificou as cooperativas que apresentam separação entre o direito de propriedade e de direito de decisão, como no caso das cooperativas de comercialização (marketing cooperatives). O tipo de arranjo mais próximo da hierarquia, classificada como quase-integrada, são aquelas com maior nível de coordenação onde podem ser estipulados alguns elementos como quantidade a ser produzida, variedade, qualidade. Entre essas categoriais, o autor cita as cooperativas multipropósito (multipurpose cooperatives) e as de associação restrita (closed membership). Nesses casos, haveria um nível significativo de ativos específicos compartilhados entre os cooperados a ponto de necessitar de uma estrutura contratual mais detalhada (MÉNARD, 2007, p.11).