4 UM OLHAR SOBRE O ADOECIMENTO MENTAL DOS (DAS)
4.2 AS ENTREVISTAS
4.2.6 Mecanismos de defesa individual e coletiva
Neste tópico desejamos evidenciar algumas reações individuais dos (as) trabalhadores (as) diante da situação da gestão de agressão na qual estavam inseridos, trazendo recortes das falas daqueles que não conseguiam se posicionar, permaneciam paralisados diante das agressões e tinham seu sofrimento mental crescente:
Na presença do gerente, ouvia os fatos narrados por ele, sem conseguir explicar ou justificar, e novamente uma conduta de xingamentos era colocada em prática. Essas condutas passaram a lhe causar muito desgaste mental, não conseguia reagir a elas, esses fatos e falas se instalavam em seu pensamento passando a acompanhá-lo de forma permanente. (Motorista de ônibus, 60 anos – informações do diário de campo).
Da mesma forma, interessa registrar a situação da trabalhadora que, ao contrário de permanecer paralisado, conseguia, individualmente e sem apoio, reagir, significando neste caso uma forma de resistência.
Relata que sempre reagiu a esses ataques, nunca se calou e sempre questionou estas imposições, chegando a ocorrer um episódio em uma reunião, onde após ser chamada pela agressora de mentirosa, teve uma reação espontânea de violência contra a agressora, mas foi contida e lembra-se que esta foi uma reação extrema, uma vez que já se encontrava no limite da situação e sem apoio. Durante todo o período, precisou posicionar-se constantemente contra todos os ataques contra si e
os usuários, se opondo constantemente e em alguns momentos sendo agressiva para ser ouvida. (Assistente Social, 49 anos – informações do diário de campo).
Seligmann-Silva (1994, p. 251) afirma que “Quando a defesa contra o sofrimento integra em seu significado a afirmação da identidade em oposição à dominação, passa a se constituir uma forma de resistência. Este não é o caso da negação e da repressão.” Alguns trabalhadores (as) expressaram essa resistência, opondo-se ao fato de estarem sendo anulados com o desgaste mental, atingidos em sua identidade, já que o trabalho ocupa um sentido fundamental em sua vida, e o adoecimento por meio do trabalho significa o comprometimento desta identidade.
Muitas vezes precisava posicionar-se, lutar por algumas coisas, fazer a sua defesa, informa que não se omitia, mas depois disso tinha muito sentimento de culpa, de medo, receando pelo seu emprego, sentimento de arrependimento. (Técnica de enfermagem, 58 anos – informações do diário de campo).
Ou o contrário, a fuga para conseguir sobreviver:
Relembra que no passado, em função de toda essa pressão, chegou a pedir demissão. - Pedi a conta e sumi, não quis saber de nada, estava surtada [...] (Técnica de enfermagem, 41 anos – informações do diário de campo).
Castro (2012), ao expor as dimensões que constituem o burnout, apresenta a perda da realização pessoal, que significa uma ruptura no plano da historicidade individual, e advém daí um impasse. “Ou seja, é o projeto de ser, a partir do qual se unifica o conjunto da história do sujeito, que se rompe, criando uma cisão entre o que o sujeito era e não mais se reconhece e o que se tornou e não suporta.” (CASTRO, 2012, p. 395). Neste sentido, o sujeito experimenta-se incapaz, ineficiente, pois um dos aspectos de sua vida – o trabalho – enquanto projeto de vida, rompeu-se, perdeu sentido.
Alguns dos (as) trabalhadores (as) entrevistados (as) fizeram menção a organizações coletivas, a exemplo do sindicato da categoria, que significou um ponto de orientação e apoio no momento do adoecimento:
Como não conseguiu permanecer no trabalho, foi demitida pelo gerente, porém, precisou passar pelo médico do trabalho indicado pela empresa para o exame, este constatou o seu adoecimento mental e a sua incapacidade de retorno ao trabalho, impedindo sua demissão. Sem apoio no local de trabalho, buscou orientação no seu sindicato, e decorridos os primeiros quinze dias de afastamento, foi agendada perícia médica no INSS. (Trabalhadora do comércio, 45 anos – informações do diário de campo).
Mais do que orientações, a organização sindical significou um ponto de apoio e fortalecimento, inclusive, para reagir diante da gestão violenta.
Relata que alguns funcionários, que faziam parte da diretoria do sindicato, e por poder contar com essa organização coletiva, sentiam-se protegidos e reagiam a essas agressões, questionando inclusive a forma de gestão da empresa, visibilizada na conduta do gerente. Passou a participar da gestão do sindicato, para sentir-se apoiado e fortalecido, passando então a ter alguma reação diante das agressões. (Motorista de ônibus, 60 anos – informações do diário de campo).
Os conselhos profissionais também surgiram como ponto de apoio diante das situações de precarização do trabalho, significando um instrumento para denunciar essas condições.
Encontram algum apoio a partir das fiscalizações realizadas pelo COREN/SC, Conselho Regional de Enfermagem, onde denunciam essas condições de trabalho. Nestas reuniões, que são raras, as chefias estão presentes, o que inibe as falas, pois ao final desses encontros “inicia a caça às bruxas”, no sentido de descobrir quem fez denúncias ao COREN para que viessem fiscalizar.
- Perseguição para amedrontar, mas todos os setores estão sem funcionários, todos estão com excesso de trabalho. (Técnica de enfermagem, 41 anos – informações do diário de campo).
Porém, nenhuma destas organizações coletivas que serviram de suporte para fortalecimento e orientação dos (as) trabalhadores (as) atuou enquanto resistência efetiva, conforme define Seligmann-Silva (1994), pois, se assim estivessem organizadas, estariam produzindo mudanças nos ambientes de trabalho a partir das denúncias apresentadas pelos (as) trabalhadores (as) que buscaram atendimento.
Estes coletivos, tanto de categoria quanto sindical, não implementam atuações quanto à saúde do (a) trabalhador (a), acompanhando e conhecendo estas implicações nos ambientes de trabalho, restringem-se somente a orientações individuais conforme a demanda apresentada.