3.1 ASPECTOS GERAIS DO MLAT
3.1.1 Mecanismos de implementação
A par dos aspectos gerais do Mutual Legal Assistance Treaty – MLAT, acordo de mútua assistência, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados Unidos da América, verifica-se que uma das preocupações dos países signatários foi a de dar efetividade ao pacto estabelecido.
A referida constatação não decorre apenas do desejo de se executar e cumprir inteiramente o acordo em si, mas, também, do desejo de possibilitar a cooperação jurídica internacional entre os respectivos Estados, tendo em vista os inúmeros aspectos positivos que a envolvem, de forma a facilitar a execução de tarefas e possibilitar o cumprimento da lei de ambos os países, primando, assim, mesmo que de forma indireta, pela segurança tão almejada. Para tanto, os Estados disciplinaram uma série de medidas, as quais se obrigaram a cumprir, de forma a repelir, combater e, até mesmo, evitar a prática delitos de natureza
133 Artigo V.2 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “A Autoridade Central do Estado Requerido providenciará tudo o que for necessário e arcará com as despesas de representação do Estado Requerente no Estado Requerido, em quaisquer procedimentos originados de uma solicitação de assistência, nos termos deste Acordo”.
134 Artigo VI do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados Unidos
da América: “O Estado Requerido arcará com todos os custos relacionados ao atendimento da solicitação, com exceção dos honorários devidos ao perito, as despesas de tradução, interpretação e transcrição, bem como ajudas de custo e despesas resultantes do transporte de pessoas, de acordo com os Artigos X e XI, caso em que custos, honorários, ajudas de custo e despesas caberão ao Estado Requerente”.
135 Artigo XX.1 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “O presente Acordo estará sujeito a ratificação e os seus instrumentos de ratificação serão trocados o mais brevemente possível”.
136 Artigo XX.2 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “O presente Acordo entrará em vigor na data da troca dos instrumentos de ratificação”.
137 Artigo XX.4 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “Cada uma das Partes poderá denunciar este Acordo por meio de notificação, por escrito, através dos canais diplomáticos, à outra Parte. A denúncia produzirá efeito 6 (seis) meses da data da notificação”.
criminal, dentre elas o depoimento ou a produção de provas no Estado requerido e o fornecimento de registros oficiais (Artigo I.2 – MLAT)138.
Acerca do depoimento ou a produção de prova no Estado requerido, restou consignado, dentre outras medidas, que uma pessoa, devidamente intimada a depor ou a apresentar prova, poderá ser obrigada a fazê-lo (Artigo VIII.1 – MLAT)139, o que, em face de
tal imposição, demonstra, novamente, o desejo de efetividade.
Ainda nesse sentido, desta vez sobre o fornecimento de registros oficiais, ficou acordado que o Estado requerido fornecerá cópias de todos os documentos disponíveis (Artigo IX.1 – MLAT)140, incluindo os de caráter sigiloso (Artigo IX.2 – MLAT)141, bastando,
apenas, para a certificação de sua validade, a autenticação por parte de funcionário responsável (Artigo IX.3 – MLAT)142.
Ressalte-se que, apesar dos referidos mecanismos estarem previstos ao longo das disposições contidas no tratado, estes configuram medidas meramente exemplificativas, tendo em vista que a cooperação poderá fundar-se em assistência não proibida pelas leis do Estado requerido.
A partir de tal previsão, depreende-se que, mesmo que de forma indireta e, por vezes, aparente, os países signatários comprometeram-se a respeitar o princípio da legalidade e, com isso, o ordenamento jurídico do Estado requerido, previsibilidade que, ao longo das
138 Artigo I.2 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados Unidos
da América: “A assistência incluirá: a) tomada de depoimentos ou declarações de pessoas; b) fornecimento de documentos, registros e bens; c) localização ou identificação de pessoas (físicas ou jurídicas) ou bens; d) entrega de documentos; e) transferência de pessoas sob custódia para prestar depoimento ou outros fins; f) execução de pedidos de busca e apreensão; g) assistência em procedimentos relacionados a imobilização e confisco de bens, restituição, cobrança de multas; e h) qualquer outra forma de assistência não proibida pelas leis do Estado Requerido”.
139 Artigo VIII.1 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “Uma pessoa no Estado Requerido intimada a depor ou a apresentar prova, nos termos deste Acordo, será obrigada, quando necessário, a apresentar-se e testemunhar ou exibir documentos, registros e bens”.
140 Artigo IX.1 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “O Estado Requerido fornecerá ao Estado Requerente cópias dos registros oficiais disponíveis, incluindo documentos ou informações de qualquer natureza, que se encontrem de posse das autoridades do Estado Requerido”.
141 Artigo IX.2 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “O Estado Requerido pode fornecer, mesmo que não disponíveis ao público, cópias de quaisquer registros, incluindo documentos ou informações que estejam sob a guarda de autoridades naquele Estado, na mesma medida e nas mesmas condições em que estariam disponíveis às suas próprias autoridades policiais, judiciais ou do Ministério Público. O Estado Requerido pode, a seu critério, negar, no todo ou em parte, uma solicitação baseada neste parágrafo”.
142 Artigo IX.3 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados
Unidos da América: “Os registros oficiais produzidos por força deste Artigo podem ser autenticados pelo funcionário responsável por meio do Formulário B anexo ao presente Acordo. Não será necessária qualquer
disposições do tratado deixou de ser observada, tendo em vista que os países signatários comprometeram-se a efetivar o acordo de mútua assistência a qualquer custo, processando e julgando determinada pessoa, mesmo que sua conduta não seja tipificada no direito interno de seu Estado, bastando, apenas, para a persecução criminal, a previsão no ordenamento jurídico do outro.
Sobre o princípio da dupla incriminação, Marco Bruno Miranda Clementino explica que se exige que o fato que constitui objeto da persecução penal na jurisdição estatal requerente seja também submetido ao jus puniendi no Estado requerido, sob pena de a cooperação não se efetivar. Tal como o anterior, o fundamento é de caráter formal, presumindo-se uma paralisia na jurisdição do Estado requerido em decorrência do fato de ela própria não se legitimar a deflagrar a persecução penal para o específico fato143.
Imperioso destacar que o princípio da dupla incriminação é de extrema relevância à cooperação jurídica internacional firmada entre a maioria dos países, tendo em vista a necessidade de tipificação do fato, objeto de investigação ou ação penal, como crime pelo Estado Requerido, sob pena de inviabilizar a cooperação, sobretudo em sua modalidade de extradição.
Ressalte-se, a título exemplificativo, que, assim como a República Federativa do Brasil firmou o MLAT os Estados Unidos da América, com vistas ao combate à criminalidade, o referido desejo tomou maior amplitude, a partir da celebração de tratados com temáticas iguais ou correlatas, com inúmeros outros países, dentre eles com a Espanha, tratado, por sua vez, incorporado no ordenamento jurídico brasileiro por meio do Decreto nº 6.681, de 08 de dezembro de 2008.
Apesar de, no mencionado acordo, restar reconhecido que a luta contra a delinquência é uma responsabilidade compartilhada pela comunidade internacional, assim como no MLAT firmado com os Estados Unidos, não se contemplou a necessidade de dupla incriminação à efetivação da cooperação, tendo em vista que restou consignado que o auxílio será prestado mesmo que o fato pelo qual o indivíduo é processado pela parte requerente não seja considerado delito pela parte requerida (Artigo 2º do Decreto nº 6.681, de 08 de dezembro de
outra autenticação. Os documentos autenticados, conforme o disposto neste parágrafo, serão admissíveis como prova no Estado Requerente”.
143 CLEMENTINO, Marco Bruno Miranda. A cooperação jurídica internacional em matéria penal-
tributária como instrumento de repressão à criminalidade organizada transnacional: globalização e novos espaços de juridicidade. 2013. 374f. Tese (Doutorado em Direito) – Programa de Pós-Graduação em Direito, Centro de Ciências Jurídicas/FDR, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2013. p. 114.
2008)144, ressalvando-se, para tanto, a aplicabilidade do referido tratado à detenção de pessoas
com a finalidade de serem extraditadas, nem a pedidos de extradição (Artigo 1.4, alínea “a”, do Decreto nº 6.681, de 08 de dezembro de 2008)145.
Ainda tomando por exemplo situações que envolvem temática relacionada à dupla incriminação, desta vez sob o âmbito do MERCOSUL, por meio do Acordo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais entre os Estados Partes do MERCOSUL, a República da Bolívia e a República do Chile, apesar de na respectiva convenção restar consignado a vontade de acordar soluções jurídicas comuns, verifica-se que o respectivo pacto, também, não traz a dupla incriminação como requisito obrigatório à efetivação de assistência, tendo em vista que a mesma deverá ser prestada mesmo quando as condutas não constituam delitos no Estado Requerido (Artigo 1.4 do Acordo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais entre os Estados Partes do MERCOSUL, a República da Bolívia e a República do Chile)146.
No que diz respeito à dupla incriminação, verifica-se que se tem como tendência a sua desnecessidade à efetivação da assistência, assim como fora demonstrado a partir da análise de acordos bilaterais, como no MLAT firmado pela República Federativa do Brasil com os Estados Unidos da América e com a Espanha, bem como em convenção internacional, conforme demonstrado a partir da análise do Acordo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais entre os Estados Partes do MERCOSUL, a República da Bolívia e a República do Chile, o que denota o desejo de se combater a criminalidade a todo custo, inclusive a partir da internalização de leis mais severas ao arcabouço jurídico brasileiro, devendo, apenas, serem registradas algumas ressalvas acerca da necessidade de dupla incriminação, quando o pedido versar sobre extradição, como já dito.
Nesse sentido, frente ao desejo de se promover a cooperação jurídica internacional fundada na legalidade e, sobretudo, em respeito às garantias processuais do extraditando, a ação deve ser típica e antijurídica nos dois ordenamentos, não necessitando, para tanto, a existência de tipos legais idênticos.
Ressalvada a excepcionalidade ligada à extradição, deve ser ressaltado que, atualmente, a dupla incriminação tem sido por inúmeras vezes afastada, sobretudo, quando as
144 Artigo 2º do Decreto nº 6.681, de 08 de dezembro de 2008: “O auxílio será prestado mesmo que o fato pelo
qual se processa na Parte requerente não seja considerado delito pelo ordenamento jurídico da Parte requerida”.
145Artigo 1.4, alínea “a”, do Decreto nº 6.681, de 08 de dezembro de 2008: “Esse Acordo não se aplicará a:
medidas requeridas exigem coercitividade, previsibilidade que levou a República Federativa do Brasil a celebrar tratados que a dispensam em determinadas modalidades de cooperação, tendo como exemplo o MLAT celebrado com os Estados Unidos da América, relação que será demonstrada, a partir da análise dos dispositivos pertinentes, a seguir.