PARTE 3. PARTES E TERCEIROS NO PROCESSO ARBITRAL 149
3.1. Efeitos da Sentença Arbitral e Terceiros 149
3.1.2. Mecanismos para a Tutela do Direito do Terceiro 167
Viu-se que, em alguns casos, marcados por um nexo de prejudicialidade- dependência permanente, o terceiro está sujeito aos efeitos (reflexos) que decorrem do ato de disposição da parte (ou de sentença de conteúdo equivalente). O próprio modo de ser das relações jurídicas no plano do direito material impõe que o terceiro se vincule à sorte da situação substantiva inter alios.
A teoria adotada a respeito dos efeitos da sentença permite, senão desfazer, ao me- nos deixar de lado o nó górdio da discussão sobre a natureza (negocial ou jurisdicional) da sentença arbitral. Compreendido que os efeitos reflexos resultam não da sentença como ato processual, mas dos vínculos entre relações jurídicas no plano do direito substantivo, torna- se absolutamente irrelevante classificar o laudo arbitral como contrato ou provimento ju- risdicional. Afinal, a sentença somente afetará e vinculará terceiros na medida em que estes estariam expostos igualmente aos efeitos decorrentes de um ato negocial da parte. O que cabe definir, agora, é o regime para a proteção de tais terceiros.
Atinge-se com isso um dos objetos centrais de investigação da tese: definir os me- canismos para a tutela do direito do terceiro que é atingido pelos efeitos reflexos da sen- tença arbitral. Há certo paralelismo, novamente, entre contrato e sentença: assim como o terceiro pode opor-se ao ato de disposição negocial fraudulento (ação pauliana) ou simula- do, ele também poderá voltar-se contra a sentença que seja o resultado de dolo ou colusão entre as partes (no âmbito judicial: ação rescisória ex CPC art. 485, III). Há também meca- nismos especificamente processuais—como a intervenção voluntária na causa para coadju- var uma das partes e fiscalizar sua atuação no processo (assistência: CPC art. 50). O desa- fio está em criar um sistema que seja adequado para a arbitragem, sabendo-se que as modalidades interventivas típicas previstas na legislação (civil-processual) em vigor foram pensadas e desenvolvidas a partir dos pressupostos diversos ligados ao processo civil esta- tal.
À luz dos efeitos reflexos, os diferentes sistemas jurídicos dotam o terceiro, em re- gra, de dois mecanismos alternativos para tutelar sua própria situação jurídica diante da sentença proferida inter alios. Existe, de um lado, a intervenção voluntária no processo, forma preventiva de tutela do terceiro; de outro, a “oposição de terceiro” (tierce opposition francesa;468 opposizione di terzo italiana;469 com previsão análoga no direito norte- americano470) ou, ainda, outra forma assemelhada de ataque pelo terceiro à sentença já pro- ferida, medida de cunho repressivo.
Por meio de iniciativa voluntária, o terceiro pode coadjuvar uma das partes, apre- sentando alegações e provas tendentes à vitória do assistido, na qual se tem interesse jurí- dico (assistência simples; CPC art. 50). Ademais, embora as respectivas situações legiti- mantes sejam diversas, há também possibilidade de intervenção voluntária para aderir à pretensão de uma das partes ou introduzir pretensão equivalente contra um adversário co- mum (assistência litisconsorcial ou, para alguns, intervenção litisconsorcial voluntária; CPC art. 54); ou, ainda, deduzir sua própria pretensão autônoma e incompatível com o di- reito discutido entre as partes originárias (oposição interventiva; CPC art. 56). Nesse últi- mo caso, no entanto, o terceiro não está sujeito aos efeitos reflexos ou diretos da sentença, admitindo-se sua intervenção por simples motivo de economia processual.
468 O direito francês prevê a tierce opposition, regulada nos arts. 582 et seq. do NCPC, para a arbitragem
doméstica (NCPC art. 1501: « La sentence arbitrale peut être frappée de tierce opposition devant la juridic- tion qui eût été compétente à défaut d'arbitrage, sous réserve des dispositions du premier alinéa de l'article 588 »), mas não para a arbitragem internacional.
469 O direito italiano prevê a opposizione di terzo dentre os meios de impugnação do laudo arbitral (c.p.c.
art. 827, I).
470 Restatement (Second) of Judgments § 76 (1982). Pela sua clareza, cabe aqui transcrever o comentário:
“So far as such a third person is concerned, a judgment between others has no greater effect than a contract or conveyance between others. Ordinarily, therefore, he can simply ignore it in connection with the assertion of his own rights. And, since the judgment has no legal effect on him, he has no standing to question whether it might have other legal effects. . . . However, in various circumstances the fact that a judgment exists may jeopardize the interest of one who is not bound by it. The plainest case is a judgment between others that de- termines interests in property in which the non-party claims an interest. . . . Another situation is that of a creditor seeking to attack a judgment that was rendered against his debtor through collusion between the debtor and another creditor. In pursuing the debtor’s property, the creditor is not subordinated to a fraudulent conveyance or fraudulently procured judgment. He therefore may proceed with his claim as though the judgment does not exist. But his efforts to realize upon his claim may be less burdensome if he can initiate an attack on the judgment before it attains the appearance of legitimacy and before the debtor actually transfers his property in compliance with it. . . . The effects of a judgment on a person upon whom a judgment is not legally binding are by definition not adjudicative but practical, i.e., consequences out of court. These effects result from the possibility that others will be deterred or emboldened in acting because they suppose the judgment has determinative significance and that their conduct will have adverse consequences to the person not bound by the judgment.”
A oposição de terceiro, por sua vez, consiste na impugnação da sentença proferida inter alios. No que aqui interessa, cabe destacar a chamada oposição revocatória, à qual estão legitimados terceiros sujeitos aos efeitos reflexos da sentença (titulares de relações dependentes daquela decidida em juízo), cujo cabimento está restrito às hipóteses de fraude (NCPC art. 583(2)) ou colusão entre as partes (c.p.c. art. 404, 2º comma). Entre nós, existe solução análoga: trata-se do cabimento de ação rescisória ajuizada por terceiro juridica- mente interessado (CPC arts. 485, III e 487, II).