Capítulo 7: CONCLUSÕES
C. Medição dos Custos Directos e de Oportunidade
7.11 As contribuições para a ASE são gastas para responder a vários objectivos.
Normalmente, as contribuições são usadas na compra de consumíveis para a escola, incluindo giz e quadros negros, equipamento desportivo, materiais para actividades extra-curriculares, cadernos para os professores prepararem e planificarem as suas actividades, canetas, papel, papel de fotocópia, carteiras e cadeiras e mesas, assim como para pagar intervenções nas infra-estruturas, re-equipamento e manutenção. Por vezes, os fundos são também usados para pagar os salários dos guardas, pessoal auxiliar e trabalhadores ocasionais, contas de água e telefone, comida e bebidas para as visitas e os professores na época de exames e para a organização de actividades desportivas e de formação dos professores.
7.12 Para além das contribuições para a ASE, as escolas requerem o pagamento de contribuições monetárias adicionais no início, durante ou no fim do ano lectivo. Estas são também consideradas propinas. Por exemplo, propinas adicionais são cobradas para emitir os certificados de matrícula e passagem de ano no final do ano lectivo, certificados especiais de conclusão da 5ª e 7ª classes, para os exames (o dinheiro é por vezes usado para providenciar almoço para os monitores externos aos exames) e para as folhas dos exames. Algumas escolas cobram propinas especiais para a construção ou reabilitação de salas de aula, para materiais de limpeza, guardas da escola e equipamento desportivo. Ainda que algumas contribuições sejam reduzidas, quando acumuladas podem-se tornar significativas, especialmente para os pais com várias crianças em idade escolar. Por exemplo, numa escola da Cidade de Maputo, a propina estabelecida para a matrícula é de MZM50,000 no EP1 e MZM65,000 no EP2, mas se as propinas extra forem incluídas, os pais pagam MZM90,000 no EP1 e MZM100,000 no EP2 por criança.
Se se adicionar o custo dos uniformes, materiais escolares e livros, o montante por criança aumenta em média MZM135,659.
7.13 Constatou-se em muitos casos, que o custo dos uniformes ou outro vestuário para a escola, dos materiais escolares e dos lanches escolares representam o maior obstáculo à frequência escolar e são a grande causa de desistência. O custo dos uniformes, que são um fenómeno essencialmente urbano, pode oscilar entre MZM160,000 e MZM180,000 por criança.
Apesar deste custo elevado, a maior parte dos pais afirmaram preferirem comprar uniformes do que comprar outras roupas para que as suas crianças usem na escola. Nas áreas rurais, o custo de vestuário regular para ir todos os dias para a escola é um peso, mas é necessário para que as crianças não se sintam envergonhadas por irem com as mesmas roupas velhas todos os dias para a escola.
7.14 A maior parte dos pais considera os materiais escolares como uma despesa significativa, uma vez que os têm que comprar mais do que uma vez por ano. Nas classes mais altas, os professores requerem que os alunos comprem 10 cadernos brancos de exercícios e outros materiais. A despesa é bastante elevada, especialmente no caso dos cadernos de exercícios que custam em média MZM5,000 cada. Por vezes, devido a apenas esta despesa, os pais decidem não enviar todas as crianças que têm em idade escolar para as classes mais altas do ensino primário.
7.15 Os pais também referiram a comida que têm que dar às suas crianças para levarem para a escola ou o dinheiro que lhes têm que dar para comprarem um lanche. Nas comunidades rurais, os pais dão entre MZM1,000 e MZM2,000 por dia a cada criança para comprar comida.
Apesar de isto não parecer muito, torna-se uma soma considerável ao longo do ano lectivo.
7.16 De acordo com o IAF, a despesa total dos agregados familiares e por criança em propinas escolares (as contribuições para a ASE e outras cobranças escolares) aumenta à medida que os alunos avançam de uma classe para a outra. A despesa média total no EP2 é quase três vezes mais do que no EP1; a despesa no ESG1 é sete a nove vezes mais do que no EP1 e a despesa no ESG2 é mais do que uma vez e meia a despesa no ESG1. Estes montantes podem parecer reduzidos, especialmente no caso do EP1 e EP2, nos quais quase não chegam a representar 1 por cento do total do consumo nos agregados familiares e são uma proporção ainda menor do rendimento monetário total dos agregados familiares. Eles são, no entanto, muito mais altos do que as propinas oficiais estabelecidas pelo Diploma Ministerial de 1987.
7.17 As propinas escolares mais substanciais no EP1 verificam-se na Cidade de Maputo (cerca de MZM70,000 ao ano), seguidas das propinas escolares nas áreas urbanas na província de Nampula (MZM55,000). As propinas no EP1 tendem a ser muito menos significativas nas áreas rurais, apesar de, nalguns casos, não serem necessariamente inferiores às propinas das áreas urbanas (em Sofala, por exemplo).
Ao contrário, as propinas no EP2 são muito semelhantes nas áreas urbanas e rurais, sendo as únicas excepções as províncias de Maputo e Nampula. Para além disso, em todo o lado, exceptuando as áreas urbanas da província de Niassa, as propinas no EP2 são muito mais significativas do que as propinas no EP1, por vezes até três vezes mais elevadas (em Nampula, por exemplo). No caso das propinas do EP2, a Cidade de Maputo é a área mais cara. Nas zonas urbanas de Nampula e Sofala, os agregados familiares com crianças no EP2 pagam uma propina média por criança mais elevada.
7.18 Nas áreas urbanas de quase todas as províncias, a propina média por criança tende a aumentar à medida que o nível de consumo do agregado familiar também sobe. Entre os três quintis mais baixos, o aumento é muito moderado. O aumento mais substancial é observado entre os terceiro e quinto quintis. Nas áreas rurais, as propinas respondem muito menos a mudanças no consumo do agregado familiar. Em apenas três províncias (Gaza, Tete e Zambézia) as propinas mais elevadas pagas no EP1 são as pagas pelos agregados familiares que se encontram no quintil mais alto. Contudo, em geral, as propinas escolares representam uma pequena parte do total das despesas monetárias dos agregados familiares em todas as partes do país.
7.19 O IAF confirma que, no ensino primário, o montante médio gasto em livros, uniformes e outros materiais escolares é tão alto, se não mais alto, que o montante pago em propinas escolares. Por exemplo, o montante médio anual gasto em livros é de cerca de MZM43,000 por criança, cerca do dobro da despesa média em propinas no EP1 (MZM21,410); ainda mais caros são os uniformes, em média de cerca de MZM73,000 por criança, mais do que a propina média no EP2 (MZM60,013) e mais de três vezes a propina média no EP1.
7.20 Em síntese, os custos directos acumulados têm um impacto negativo na admissão e retenção escolares, particularmente entre os pais com rendimentos mais baixos e com grandes famílias para sustentar. Enquanto as propinas pagas às escolas, incluindo as contribuições para a ASE, não são um factor determinante, elas são um factor importante quando adicionadas aos custos dos uniformes e vestuário, materiais escolares e comida. De acordo com a análise realizada nas escolas e comunidades, a incapacidade de comprar materiais escolares para as crianças é provavelmente o factor mais importante nas áreas rurais, ao passo que a capacidade dos seus pais em pagarem os uniformes e materiais escolares pode representar a diferença entre uma criança numa área urbana frequentar ou não a escola.
Gestão, Prestação de Contas e Mecanismos de Isenção do Pagamento de Propinas
7.21 O tipo e montantes das propinas podem ser determinados em consenso no Conselho de Escola e com a comunidade ou podem ser impostos pela escola. Os documentos oficiais de política não oferecem nenhuma orientação nesta matéria. Um dos principais problemas é o facto de as propinas escolares não serem reguladas apropriadamente e os montantes requeridos para propinas escolares e outras cobranças serem substanciais para os agregados familiares.
Uma vez que não há controlo ou prestação de contas sobre a utilização das propinas, incluindo as contribuições para a ASE, os fundos podem ser facilmente desviados e utilizados em objectivos não relacionados com o ensino e a aprendizagem. Os benefícios para as escolas e alunos são, neste caso, limitados. Na maior parte das escolas visitadas, os pais, líderes comunitários e mesmo os professores não foram capazes de explicar a forma como os fundos da ASE são usados.
7.22 Vários oficiais sénior do Ministério da Educação referiram-se ao problema da má utilização das contribuições da ASE. De acordo com os mesmos, os fundos foram por vezes usados para comprar casas ou motorizadas privadas. De facto, a significativa má utilização dos fundos da ASE levou o Ministro da Educação a emitir o Despacho no. 8/GM/2004 que estabelece que os fundos deveriam ser usados apenas para as instiuições da educação aos quais pertenciam e para os objectivos fixados de acordo os planos preparados e aprovados pelos Conselhos de Escola.
7.23 Apesar de o Despacho mencionado se referir ao aspecto das receitas geradas pelas escolas, não se refere a outros pontos básicos como os montantes, tipos e frequência do pagamento das propinas permitidas, nem oferece qualquer orientação sobre o processo de tomada de decisão quanto ao estabelecimento das propinas, sobre o processo de gestão desses fundos ou critérios de isenção para os pais que não as podem pagar.
7.24 Alguns directores de escolas e líderes comunitários têm conhecimento dos mecanismos para a atribuição de isenção no pagamento das propinas tais como os certificados de pobreza.
Contudo, é de consenso geral que a obtenção desse documento requer bastante preserverança e, paradoxalmente, recursos financeiros. O processo burocrático envolvido na obtenção do certificado pode ser complexo e dispendioso. Nalguns casos, o certificado pode custar até MZM50,000, excluindo as despesas para as várias viagens necessárias à capital distrital que, quando adicionados aos custos do certificado, representam mais de duas vezes o montante das propinas em si, particularmente no caso do EP1. Para além disso, mesmo quando os agregados familiares conseguem obter os certificados de pobreza, ainda são requeridos a pagar uniformes ou vestuário, materiais escolares e comida. Fazer face a estes custos é problemático no caso das crianças mais pobres e vulneráveis, incluindo órfãos.
7.25 Uma área consensual entre os directores de escolas, professores e pais é que o programa de Apoio Directo às Escolas está a ajudar as escolas primárias a responder às suas necessidades financeiras. Os intervenientes sentem que o programa conta com mecanismos claros de prestação de contas e orientações sobre as despesas elegíveis para assegurar a utilização adequada desses fundos. As escolas estão a utilizar esses fundos que recebem através do programa na compra de materiais escolares, deste modo reduzindo alguns dos custos directos que recairiam, doutra forma, nos pais. Os funcionários das escolas rurais acreditavam que o programa está a levar a um aumento das admissões e frequência nas escolas do EP1.
Custos de Oportunidade
7.26 Os custos de oportunidade são um factor muito mais importante nas áreas rurais do que nas áreas urbanas. No entanto, em cidades como Maputo ou Quelimane, as crianças são muitas vezes obrigadas a trabalhar para contribuírem para o rendimento da família. Para os agregados familiares nas zonas rurais, as crianças são uma importante fonte de trabalho, especialmente durante a altura das colheitas. Isto, por si, afecta o desempenho das crianças na escola e contribui para as altas taxas de reprovação e desistência escolares. As crianças que começaram a escola mais tarde ou repetem frequentemente, uma situação comum nas escolas rurais, muitas vezes decidem não completar o ensino primário e desistem para ir procurar trabalho em Maputo ou nas minas da África do Sul.
7.27 De acordo com o IAF, quase todas as crianças que trabalham não frequentam a escola.
Contudo, a percentagem das crianças a trabalhar é muito mais baixa do que a percentagem das crianças que não frequentam a escola, especialmente no grupo etário dos 6-10 anos. Do inquérito não se retiram informações claras sobre o que é que as crianças que não frequentam a escola estavam a fazer. Pode-se especular que estão a desenvolver algum tipo de trabalho doméstico. Uma questão incluída no inquérito que procurava obter razões para a não frequência escolar das crianças poderia ter oferecido alguma informação sobre as alternativas disponíveis às crianças que não estavam naquele momento a frequentar a escola. Contudo, as respostas não foram particularmente esclarecedoras. Apenas uma pequena proporção das crianças (0.3 por cento das crianças do grupo etário dos 6-10 anos e 1.8 por cento das crianças do grupo etário dos 11-14 anos que não estavam a frequentar a escola) declararam que não estavam a frequentar a escola por causa de trabalho. Mesmo entre aquelas que estavam a trabalhar, apenas uma pequena minoria (2 por cento de ambos os grupos etários) afirmaram que o trabalho era a principal razão para não frequentarem a escola. No grupo etário dos 6–10 anos, a resposta seleccionada com mais frequência para justificar essa não participação escolar foi
“outros motivos” (44 por cento), enquanto que no grupo etário dos 11–14 anos foi a de “falta de interesse pela escola” (31 por cento).