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1. POR UMA PROPOSTA TEÓRICO-METODOLÓGICA PARA A PESQUISA DE

1.2. Estudos latino-americanos

1.2.3. Mediações múltiplas

Com seu modelo da Mediação Múltipla, é Guilhermo Orozco quem vai dar prosseguimento e sistematizar metodologicamente a teoria da recepção a partir das mediações. Extremamente complexo, para Orozco, o processo de recepção não se circunscreve ao mero momento de interagir direta ou fisicamente com as mensagens de um meio, mas transcende essa situação, sendo condicionado pelas práticas cotidianas individuais e coletivas dos receptores, em que se negociam significados e sentidos e se realiza a apropriação dos discursos ou a resistência a eles.

Além dessa premissa fundamental, existem pelo menos outras seis importantes a considerar, no sentido de conceitualizar o processo de recepção de uma forma mais completa e precisa. A primeira delas defende que a recepção é necessariamente um processo mediado, não só em seu conjunto, senão em cada um de seus momentos. Por exemplo, a mesma percepção de um discurso, ao efetuar-se, implica distintas atividades mentais, como atenção, compreensão, assimilação, associação etc., que se realizam de forma imperceptível e se desenvolvem de maneira automática, mas que nem por isso deixam de realizar-se. As mediações entram em jogo em cada uma dessas atividades e momentos.

A recepção também implica interação, em distintas direções: com o meio, com o gênero, com a mensagem, com a cultura, com as instituições e com os temas que influenciam nossa significação do real, ou seja, tudo o que inspira nossas prioridades de ação e pensamento, aquilo do qual mais gostamos de falar e o que resulta relevante para nossa existência diária e intercâmbio.

Um terceiro pressuposto do processo de recepção sustenta que a exposição aos meios não é uma variável determinante. O importante, na verdade, seria a maneira de se expor a suas

mensagens: passiva ou ativamente, crítica ou acriticamente, individual ou coletivamente, etc. O que significa dizer que a quantidade de tempo investida no contato com um dado discurso é uma condição necessária, mas não suficiente para definir o tipo de apropriação que se fará dos sentidos propostos em suas mensagens.

A premissa seguinte parte da constatação das teorias de recepção formuladas na América Latina nas últimas duas décadas, de que é na recepção e não na emissão, como se considerou por muito tempo, onde se produz a construção de sentido na comunicação. O que não corresponde a dizer que não há intencionalidade e sentidos específicos propostos pelo emissor (logicamente que há), mas simplesmente que esses sentidos não têm garantia de ser recebidos tal como são formulados. Em parte porque toda mensagem é polissêmica, suscetível de várias interpretações. Porém, em parte também porque o receptor não é um receptáculo vazio, mas um sujeito historicamente situado que interage contextualizadamente com as mensagens.

Deve se considerar, ainda, o fato de que o receptor não nasce, mas se faz de acordo com suas múltiplas aprendizagens em outros cenários sociais, experiências e condicionamentos contextuais e estruturais. O importante nesse caso é destacar que os receptores não são sujeitos estáticos, mas crescem e se transformam. São, por outro lado, capazes de inconsistências e contradições. Mas, sobretudo, não estão condenados nem a ser receptores de uma mesma forma durante toda a vida nem vítimas dos meios.

O último pressuposto trata da posição do sujeito receptor como um múltiplo agente social, que, ao interagir com alguma mensagem, não o faz isoladamente de tudo o que o define e o distingue como sujeito social, imerso em uma cultura e integrante de outros processos e interações.

“Frente a los medios, el sujeto receptor se presenta como sujeto social simplemente, con uma historia y um cúmulo de experiencias; con ciertas características y determinantes”. (OROZCO, 1992: 96).

Essas mediações operam em diferentes níveis e são de natureza diversa, funcionando como processos estruturantes das ações e do

discurso dos sujeitos. Enquanto que, para Martín-Barbero a cotidianidade, a temporalidade social e, sobretudo, a competência cultural são as mediadoras fundamentais do processo de recepção, Orozco não trabalha diretamente com a questão da mediação cultural, mas a reconhece como determinante, uma vez que a considera como uma fonte que impregna todos os quatro grandes grupos de mediações sugeridos por ele: individual, situacional, institucional e vídeo- tecnológico (OROZCO, 1993).

A mediação individual tem como fonte a estrutura cognitiva, ou seja, o conjunto de idéias, repertórios e esquemas mentais que influenciam nos processos de percepção, processamento e apropriação das mensagens a que os sujeitos estão submetidos. Assim como a história de vida, as experiências interpessoais, o ensino formal, a etnia, a idade e o gênero do sujeito também constituem fontes importantes de mediação cognitiva, uma vez que proporcionam diferentes modos de interesse e de leitura de um determinado discurso. Já a mediação situacional corresponde aos locais de circulação da recepção, os diferentes cenários em que os sujeitos interagem, além do momento de contato direto com determinado discurso, a exemplo da escola, da rua, das reuniões de amigos, do lugar de trabalho, das organizações de bairro e assim sucessivamente. A mediação institucional, por sua vez, refere-se às instituições como agências de socialização das quais os receptores são membros: família, escola, partido político, igreja etc. Na medida que dispõem de regras, procedimentos e autoridade própria, essas instituições criam um ambiente ou subcultura também muito próprios, que ora compartilham de elementos comuns a outras instituições ora competem com elas, num jogo de forças que irá se expressar nas múltiplas apropriações e re-apropriações das mensagens percebidas pelo sujeito. Por último, a mediação vídeo-tecnológica enfoca os atributos técnicos e a linguagem dos meios eletrônicos de comunicação, que não apenas reproduzem outras mediações institucionais, mas utilizam recursos específicos para tentar se impor

aos receptores, através dos seus gêneros, cuja estratégia básica é a identificação.

Existem ainda as mediações de entorno, que estão constituídas, num primeiro plano, pelos elementos mais contextuais da recepção, como o lugar de origem e de residência do receptor, nível educativo, tipo de trabalho que realiza, maneiras de passar o tempo e, de uma forma geral, os valores que inspiram suas visões e ambições. Outro conjunto de mediações de entorno são aquelas consideradas de tipo estrutural, no qual se insere, entre outras fontes, a classe social, que, embora não seja classificada como um dos grupos principais de mediação, influi decisivamente na maneira de perceber, processar e reproduzir as mensagens propostas por determinado discurso.

Como combinações dinâmicas, cada uma das mediações pode variar com o tempo ou com as situações, de acordo com as relações de poder que se estabelecem entre elas em cada ocasião. Sim, porque a produção e reprodução social do sentido envolvida nos processos culturais não é somente uma questão de significação, mas também uma questão de poder. Como bem assinala Immacolata Lopes, a recepção não é algo redutível ao psicológico e ao cotidiano, mas é profundamente cultural e política.

“Os processos de recepção devem ser vistos como parte integrante das práticas culturais que articulam processos tanto subjetivos como objetivos, tanto micros (ambiente imediato controlado pelo sujeito) como macros (estrutura social que escapa a esse controle). A recepção é então um contexto complexo e contraditório, multidimensional em que as pessoas vivem o seu cotidiano. Ao mesmo tempo, ao viverem esse cotidiano, as pessoas se inscrevem em relações de poder estruturais e históricas, as quais extrapolam as suas práticas”. (LOPES, 1993: 85).

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