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CAPÍTULO V: Elementos Conexos

5. Mediatização

Independentemente da qualificação dos grupos – resistência, guerrilha ou terrorista –, as motivações que levam à acção de raptos e tomadas de reféns contra expatriados são análogas: benefícios com resgate, pressões políticas e promoção da causa.

A promoção da causa resulta da mediatização dos episódios operacionais. Podem ser atentados espectaculares e simbólicos, tal como o atentado suicida contra o

Alto Comissariado da ONU em Bagdade, que vitimou Sérgio Vieira de Mello em 2003. Podem ser acções de raptos e execuções com uma macabra e elevada preparação coreográfica, como foi a execução do piloto da força aérea jordana, Moaz al-Kasasbeh, queimado vivo pelos militantes do Daesh. Podem ser as decapitações simultâneas de 21 cristãos coptas egípcios na Líbia raptados por militantes do Daesh.

De acordo com Clint van Zandt (2015), com “a exigência de 200 milhões de dólares para a libertação de um dos reféns japoneses, o Daesh sabia que tal resgate nunca seria pago pelo Japão. Por outro lado, as produções hollywoodescas das suas execuções e a difusão de imagens, de grande qualidade, das execuções revelou que o que os terroristas do Daesh apenas pretendiam era a promoção gratuita deles mesmos. Todos os órgãos de comunicação social difundiram as imagens dos reféns e das execuções. Em termos de publicidade é gigantesco e compensa largamente o valor de um resgate. Assim, o Daesh pretende provocar um efeito mediático que vai atrair milhares de voluntários. Com estes raptos e crimes, o Daesh pretende apenas chamar a atenção e ter publicidade gratuita. A motivação do Daesh com os raptos não é o dinheiro, mas o impacto mediático”.

Como afirma Gérard Jaeger (2009, p. 239), “O refém é um vector de comunicação: mediador involuntário do seu raptor, o passaporte das suas reivindicações”.

Habitualmente, com a confirmação da notícia do incidente, os Governos tentam evitar a sua publicitação a fim que esta não interferira ou polua eventuais investigações ou negociações. Segundo Guillaume de Saint Marc (2015), “inicialmente todos os governos aconselham a não falar de reféns para poderem trabalhar sem risco. Defendemos, tal como a ONG Reféns do Mundo [Otages du Monde], dar um prazo e eventualmente dar outro suplementar. Por exemplo, quando temos informações que indicam que negociações estão em curso ou recebemos um feedback das autoridades, sem contudo ser necessário termos o pormenor das operações. Temos de sentir que o refém não foi esquecido”.

Guillaume de Saint Marc considera também que “a mediatização dos casos de reféns, durante a crise, pode aumentar o preço do resgate mas também pode preservar a vida. Mas funciona também como meio de pressão política que obriga um governo a

agir. Quando não são visíveis acções pela libertação de um refém, o facto de mediatizar obriga os políticos a prestarem contas e a agirem para libertar o refém”.

Ironicamente a acção dos jornalistas na busca de informação exclusiva e a necessidade dos grupos revolucionários e terroristas em mediatizarem as suas causas podem resultar em cenários inesperados mas potencialmente expectáveis. Tal foi o que aconteceu com, por exemplo, o grupo Abu Sayyaf na ilha de Jolo nas Filipinas: em 2000 aceitou receber jornalistas com o intuito dos rebeldes saírem do silêncio para o qual governo filipino os tinha atirado.

Mas o grupo Abu Sayyaf decidiu mudar de estratégia e aproveitou a ocasião para raptar os jornalistas e pedir um resgate para a sua libertação. Inicialmente as motivações eram claramente políticas, mas com o decorrer das negociações os rebeldes decidiram concentrarem-se apenas nas exigências financeiras. Deste modo, o grupo Abu Sayyaf conseguiu duplamente o pretendido: a mediatização da sua causa e organização, como também obter o resgate pela libertação dos jornalistas reféns.

Os múltiplos raptos em 2000 promovidos pelo grupo Abu Sayaf em Jolo

permitiriam também que o “Guia” líbio Muamar Kaddafi ressurgisse na cena internacional como um chefe de Estado “frequentável”. A 23 de Abril de 2000, um comando do Abu Sayaf, liderado por Ghaib Andang, conhecido como “Comandante Robot”, raptou 21 pessoas, dos quais 10 turistas: três alemães, dois sul-africanos, dois

finlandeses, dois franceses e uma franco-libanesa.

Logo após a reivindicação do rapto, o grupo Abu Sayaf exigiu como resgate a criação de um Estado independente, mas rapidamente mudou de ideias e passou a exigir um milhão de dólares por cada refém.

Após múltiplas dificuldades para o estabelecimento de contactos com os terroristas, apareceu a Fundação Kaddafi, presidida pelo filho do “Guia líbio” Seif al- Islam, que propôs empenhar-se na mediação com os terroristas. No meio dos focos da comunicação social, a Fundação Kaddafi sugeriu aos raptores disponibilizar cerca de 25 milhões de dólares para o desenvolvimento de Jolo em troca dos reféns. No entanto, a Fundação acabou por aceitar pagar um milhão de dólares de resgate exigido pelos terroristas por cada refém. Resgates que terão sido liquidados pelos Governos de cada refém.

O empenhamento líbio assinalou o início do ressurgimento de Muamar Kaddafi na cena política internacional e marcou o lançamento de uma enorme campanha mediática em torno do líder líbio. Também deixou no ar a suspeição de que a Líbia poderia ter estado envolvida nos raptos para criar as condições que lhe permitiram apresentar-se como mediador privilegiado e beneficiar da mediatização consequente e pretendida.

O impacto mediático resultante da captura de um refém estrangeiro pode levar um grupo terrorista a optar por esta táctica apenas para promover a causa ou o grupo, emitindo todavia a mensagem que pode existir outra alternativa, mesmo que irrealista, para a libertação dos reféns.

Tal foi o exemplo do refém francês na Argélia, Hervé Gourdel, raptado em Setembro de 2014. Os raptores deram um ultimato de 24 horas para que a França terminasse com os ataques aéreos contra o Estado Islâmico, uma exigência política irrealizável. O refém foi imediatamente decapitado. A exigência dos raptores era apenas simbólica e o acto foi justificado como um meio de promover o recém-criado grupo Jund al-Khilafa (Soldados do Califado) e anunciar que o grupo se solidarizava com o Estado Islâmico.

Em busca de uma mediatização controlada da sua causa e de suposta credibilidade informativa, em Novembro de 2012, o Estado Islâmico capturou o fotojornalista britânico John Candlie. Candlie tornou-se num pivot do Estado Islâmico e

efectuou várias “reportagens”, apresentando a imagem que os jihadistas pretendiam

difundir do Estado islâmico (Pinto, 2015). Um autêntico “refém repórter” que terá sido raptado na fronteira Síria, juntamente com o holandês Jeoren Oerlemans, por um grupo em que supostamente estava Nero Patrício Saraiva, jihadista português nascido em Luanda.

Ao mesmo tempo, os órgãos de comunicação social são um veículo indispensável para o envio de mensagens às vítimas. Ex-reféns, como Sérgio Fidalgo em Cabinda ou Francis Collomp na Nigéria, realçaram a importância das mensagens enviadas pelos seus familiares via a Rádio Difusão Portuguesa (RDP), Voice of America (VOA) ou a Radio France International (RFI). As famílias de Gilberto

Rodrigues e Serge Lazarevic, reféns no Mali, utilizaram com o mesmo objectivo a RFI para enviar as suas mensagens.

Além disso, os órgãos de comunicação social são também instrumentos e

veículos frequentemente utilizados pelos raptores para transmitir “provas de vida” dos

No documento Raptos, sequestros e tomada de reféns (páginas 114-119)