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CAPÍTULO III – SIGNIFICANDO O CONTATO E AS POSSIBILIDADES DE CURA

3.2 Medicamento de botica e medicamento do mato

O tratamento deriva da concepção de doença e revela a expressão das diferentes visões de saúde entre os indígenas e a da medicina ocidental. Entre os Xerente e outros ameríndios, a doença costuma ser entendida como a ação de um agente subjetivo que atua sobre o corpo, tornando o sujeito doente (VIVEIROS DE CASTRO, 2004). Curar, então, é agir sobre esse agente subjetivo causador de doença removendo-o do corpo adoentado. Já do ponto de vista biomédico, a visão usual que se apresenta é do binômio saúde x doença, situando nesse locus o corpo biologizado, que precisa ser objetivado para permitir a compreensão de seu funcionamento e, consequentemente, das causas das doenças.

A introdução do uso de medicamentos pode ser vista como parte do processo colonizatório vivenciado pelos povos indígenas. Tal compreensão vai ao encontro do que descreve Ferreira (2013b, p.43) ao apontar que “a expansão da biomedicina afeta a relação com os outros modelos de atenção vigentes, subalternizando-os”. Para a autora, um dos efeitos dessa relação é que a medicalização assume um caráter colonizador de corpos e de subjetividades.

Ao longo do tempo o uso de medicação industrializada se intensificou e passou a ser representada de maneira diferente. O relato de um Xerente de 31 anos ilustra isso:

Eu lembro que quando a gente era criança a gente não dependia muito de medicamento de farmácia. Minha vó que me criou falava assim... nós Akwẽ não devemos usar de remédio de botica. E eu ficava imaginando que remédio é esse?! Depois de um tempo eu descobri que era remédio de farmácia e tal... eu não entendia direito esse significado. Mas sempre, sempre, sempre, ela falava que os remédios que eram retirados da natureza eram mais eficazes, então isso eles falavam muito. A gente usava muito só medicamentos das raízes, das folhas, chás. Até hoje o pessoal usa muito.

Outros relatos reforçam a percepção de que o uso de remédios naturais é mais valorizado entre os mais velhos. Uma anciã da aldeia Salto afirma:

Eu acho que meu remédio do mato dá mais resultado. Minha vó que dizia: isso aqui é bom pra gripe, pra catarro... e eu vou continuar. Olha essa aí

(apontando pra uma criança que brincava na porta da casa), ontem tava fraca

de obradeira, fiz o remédio, olha aí... ficou boazinha. Tava obrando e vomitando, aí fiz o remédio, não precisou ir lá no postinho. Parou mesmo aqui.

Percebe-se, portanto, que a medicação alopática é representada de modo diferente entre os jovens e os mais velhos. O medicamento passa a representar, principalmente para os mais jovens, o acesso à cura de um modo mais rápido, e consequentemente é percebido como um direito. Nos relatos obtidos em campo uma reivindicação frequente é de maior acesso à medicação, já que ela é vista como eficaz no combate aos sintomas do adoecimento, segundo a maioria dos Akwẽ/Xerente. Ouvimos de um jovem pai Xerente, cujo filho recém-nascido precisara passar por uma intervenção cirúrgica devido a uma má formação da musculatura abdominal que havia ocasionado um extravasamento de parte do intestino e consequente necrose do tecido, o que acarretou a necessidade de um longo período de internação, o seguinte relato referente ao período em que o filho ficou internado no hospital:

No dia que eu cheguei lá, tudo que eles falavam eu concordava, depois eu fui aprendendo, entendendo melhor e eu vi que quando era alguma coisa errada eu tinha que falar.

Indagado sobre a que tipo de coisa errada ele se referia, afirma:

Ah... tipo o remédio já ia logo pra ele (para a criança), não passava por mim antes. Tinha que brigar pra ser bem atendido.

Nesse contexto, a medicação passa a constituir ao mesmo tempo uma representação de acesso ao serviço de saúde, mas também a emergência de uma relação assimétrica entre aqueles que fornecem o medicamento, e os que necessitam dele. Ocorre, a partir daí, um agenciamento do atendimento prestado. O bom atendimento é atribuído principalmente ao fornecimento adequado de medicamentos, já que os médicos nem sempre alcançam os nexos causais das doenças, por seu desconhecimento dos seres e a diplomacia cósmica de que participam os Xerente.

Da mesma forma, em conversa com um Xerente na aldeia, ao relatar sobre seu tratamento para uma hérnia com indicação cirúrgica, reclamava que os médicos diziam que ele precisava ser operado, mas que para isso precisava tomar os remédios para controle de pressão alta. Porém, ele desejava que os médicos receitassem um remédio que solucionasse o problema da hérnia sem a necessidade de intervenção cirúrgica. Mesmo compreendendo a relação entre a medicação como uma etapa intermediária (controle da pressão arterial) para a cura (cirurgia), ele não desejava ser submetido à cirurgia. Interpretamos sua posição devido à perspectiva de agenciamento da doença compreendida como uma subjetivação atuando sobre seu corpo. O processo da cura, portanto, passaria por uma ação intersubjetiva para a retirada do agente causador da doença. Nessa perspectiva, o remédio poderia ser o meio pelo qual se retiraria o agente causador da doença, como faria um sekwá Xerente.

Analisando as formas de objetivação das populações indígenas a partir das políticas públicas de saúde, Bernardes; Marques e Mazaro (2018), a partir de uma ótica Foucaultiana, analisam a produção do discurso sobre a saúde indígena nas publicações em periódicos desde a implantação do subsistema de atenção à saúde indígena em 1999, e revelam que:

O discurso é constituído por relações de força, pois se trata de uma estratégia de luta, de uma luta política, de enfrentamentos entre o tradicional e o científico [...] A biomedicina aproxima as tecnologias científicas, porém, as populações indígenas apropriam-se destas mediante um "uso leigo". Faz-se utilizar, mas utiliza-se de um modo que escapa à prescrição científica [...] A integração e o diálogo entre saber tradicional e científico marcam uma distinção e objetivam o tradicional como menos complexo e resolutivo do que o científico. (BERNARDES; MARQUEZ; MAZARO, 2018, p. 925)

Por outro lado, esse processo de objetivação não ocorre de maneira passiva, o que se faz notar pela posição do pai no relato acima, que ao se perceber “mal atendido” passa a agir de maneira diferente, reivindicando um “bom atendimento”. Desse modo, o acesso a medicamentos representa, em certo grau, uma medida do respeito à sua alteridade.

O trabalho de Rodrigues (2014), ao propor analisar a saúde reprodutiva nas mulheres Xerente, aponta para um processo de adaptação ao relatar que:

Fica claro, pois, aqui, a capacidade de agência desse povo, pois não se mostraram indiferentes às transformações, que muitas vezes lhes foram impostas, simplesmente reafirmando um dualismo rígido e inflexível. Ressignificando o que veio de fora reafirmam um modo próprio de ser, recordando como era para não esquecer como deveria ser e para mostrar e

ensinar aos mais jovens e curiosos quem são os Akwẽ-Xerente. (RODRIGUES, 2014, p. 49)

Isso nos remete ao tópico seguinte, no qual acrescentaremos à complexa relação entre os sistemas de atenção, alguns elementos espirituais e religiosos que perpassam pelas representações de saúde.