Capítulo II – Relatório de Estágio em Farmácia Hospitalar
4. Distribuição
4.2. Medicamentos sujeitos a controlo especial
A distribuição de medicamentos sujeitos a controlo especial engloba os circuitos de medicamentos estupefaciente e psicotrópicos, benzodiazepinas, medicamentos extra- formulário e antibióticos de reserva, utilizados na prevenção e controlo da infeção associada aos cuidados de saúde ou infeção hospitalar.
4.2.1. Estupefacientes, psicotrópicos e benzodiazepinas
Existe um forte controlo do registo de entradas e saídas de estupefacientes e psicotrópicos, de modo a combater o mercado ilícito e o uso indiscriminado destes medicamentos.
Considerando este fato, justifica-se reforçar as medidas previstas na Convenção de Estupefacientes de 1961 com a implementação de medidas adequadas ao controlo e fiscalização de todas as substâncias cuja facilidade de obtenção possa contribuir para o aumento da comercialização e consumo de drogas (12).
A distribuição dos medicamentos estupefacientes, psicotrópicos e benzodiazepínicos, encontra-se regulamentada pelo Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de janeiro, com retificação de 20 de fevereiro, Decreto Regulamentar n.º 61/94 e Portaria n.º 981/98, podendo apenas ser dispensados mediante o correto preenchimento do Anexo X da Portaria n.º 981/98, de 8 de junho (10,11) (Anexo V). Na ULSG, para a requisição de benzodiazepinas utiliza-se o Anexo X, enquanto que para os estupefacientes e psicotrópicos utilizam-se impressos adaptados e são ligeiramente diferentes (Anexos VI e VII).
No Hospital Sousa Martins, o Enfermeiro Chefe do respetivo serviço clínico faz a requisição aos Serviços Farmacêuticos. Posteriormente, o farmacêutico procede ao preenchimento do impresso adequado ao tipo de medicamento, com o nome da substância ativa por DCI, forma farmacêutica, dosagem, quantidade a dispensar e número de registo sequencial. Por último, tanto o enfermeiro como o farmacêutico que dispensa o medicamento assinam o impresso. A parte destacável, ou o duplicado dependendo do impresso, deste documento fica arquivada nos SF e a outra parte acompanha o medicamento para o serviço para ser preenchida com os nomes dos doentes a que foi administrada a terapêutica em questão. Depois da administração, o destacável é assinado pelo Enfermeiro Chefe e entregue nos SF, sendo de extrema importância, verificar se as unidades administradas correspondem às cedidas, incluindo a quantidade em excesso registada como desperdício, e arquivado junto do respetivo destacável ou duplicado, por ordem do número do impresso, por um período mínimo de cinco anos.
4.2.2. Hemoderivados
Os hemoderivados englobam os medicamentos derivados do sangue ou plasma humano, apresentando um elevado risco de contaminação e transmissão de doenças infeciosas transmissíveis pelo sangue. Por isso mesmo, é de crucial importância uniformizar e organizar os registos hospitalares dos medicamentos hemoderivados que reúnam os dados do doente envolvido, médico e serviço requisitante, tipo de hemoderivado, quantidade dispensada, número do lote, fabricante, distribuidor e número de certificado de autorização de utilização de lote pelo INFARMED, de modo a que seja possível estabelecer eventuais relações de causalidade entre a administração terapêutica destes medicamentos e a deteção dessas doenças (12).
Os procedimentos de requisição médica, distribuição aos serviços e administração aos doentes de medicamentos hemoderivados devem ser registados numa ficha de requisição, constituída
por duas vias, a “Via Farmácia” e a “Via Serviço”, dando cumprimento à legislação vigente, Despacho conjunto n.º 1051/2000, de 14 de setembro (16) (Anexo VIII).
O serviço requisitante deve preencher corretamente os quadros “A” e “B” presentes na ficha e enviar aos SF. Aquando da dispensa de um hemoderivado, o farmacêutico hospitalar analisa e valida a prescrição, preenche o quadro C da ficha e cede o medicamento. A “Via Farmácia” é arquivada na farmácia e a “Via Serviço” é enviada juntamente com o medicamento, de modo que as administrações da terapêutica sejam registadas no quadro “D” e seguidamente arquivada no processo clínico do doente.
No Hospital Sousa Martins, todos os medicamentos hemoderivados são devidamente etiquetados com o nome do doente a que se destina, para que assim se possam minimizar todos os erros possíveis durante a administração. No caso do plasma, é de salientar que deve ser pedida ao laboratório de análises clínicas do hospital uma tipagem, ou seja, uma análise do grupo sanguíneo, antes de fazerem a requisição para que o plasma, armazenado a uma temperatura de (-40ºC), seja descongelado em banho-maria a 37ºC durante vinte minutos, tendo um prazo máximo de 8 horas para ser administrado. Após o descongelamento, o plasma é entregue pelo farmacêutico no serviço requerente e a ficha de requisição assinada conjuntamente com o enfermeiro.
4.2.3. Medicamentos extra-formulário
Embora o Formulário Hospitalar Nacional de Medicamentos seja um veículo de educação na prescrição e racionalização da escolha de medicamentos, por vezes, não abrange a medicação necessária para o tratamento eficaz de doentes em situações especiais, sobretudo para patologias específicas e hospitais especializados ou diferenciados. Posto isto e dado que o FHNM não é um instrumento limitativo de prescrição médica, a Comissão de Farmácia e Terapêutica deve deliberar ponderadamente sobre a utilização de fármacos não contemplados no próprio formulário. Esta comissão pode ainda elaborar normas orientadoras e protocolos de utilização de determinados medicamentos e outros produtos farmacêuticos, devendo os SF contribuir para a sua divulgação, implementação e velar pela boa aplicação dos mesmos (12).
Sempre que seja necessária a utilização de um medicamento que não se encontre no FHNM, nem nas adendas internas criadas pela CFT, o médico deve justificar o pedido através do preenchimento de um impresso existente para esse efeito, para que se proceda à análise e aprovação por parte da CFT e, posteriormente, pelo Conselho de Administração do hospital, pois como é evidente a vertente económica não pode ser esquecida no contexto duma terapêutica racional, pelo que os medicamentos extra-formulário devem estar submetidos a controlo especial (17) (Anexo IX).
4.2.4. Antibióticos de reserva
A Infeção Associada aos Cuidados de Saúde (IACS) é, cada vez mais, uma preocupação para todos os prestadores de cuidados de saúde, quer em meio hospitalar, quer em regime de ambulatório. A sua dimensão e gravidade torna indispensável uma gestão dos antimicrobianos presentes nos hospitais (18). A promoção do uso racional de antibióticos é fundamental, pois o seu uso indiscriminado está associado à emergência de estirpes bacterianas resistentes, e a existência de estratégias, como a restrição de utilização de antibióticos de última linha e a aprovação de protocolos clínicos.
No Hospital Sousa Martins existe uma lista de antibióticos e antifúngicos de uso restrito, como o linezolide, a colistina, a daptomicina, a tigeciclina, a anidalafungina e o voriconazol, que requerem a justificação pelo médico prescritor aquando da sua prescrição e o antibiograma (ATB).