Nesta pesquisa, aproximo o conceito oriental de saúde de uma abordagem ocidental. Parte-se, neste trabalho, da premissa de que o poder de agenciar o autocuidado relaciona-se com a prontidão para o autocuidado e significa possuir o Qi latente. Este Poder é uma das formas de apresentações do Qi, um conceito tradicional e básico da Medicina Tradicional Chinesa. Nessa concepção, Poder relaciona-se com Energia, já que a palavra power quando traduzida para português (HOUAISS,A; VILLAR,M.S.; FRANCO, F.M.M., 2001) pode ter duas significações válidas no âmbito deste trabalho: poder e energia.
Segundo Maciocia (1989), He e Me (1999), Auteroche e Navailh (1992) e Yamamura (2004) o Qi manifesta-se com duas faces: o Yin e o Yang. O Yin indica a matéria, a diminuição da atividade e o Yang indica a função e o aumento da atividade. O mundo material, na filosofia chinesa, é o resultado da interação dessas duas faces e o homem é formado pelo “Qi do céu e da Terra” (HE e NE, 1999, p.36). Não há tradução possível para esses dois conceitos já que não constituem forças, substâncias, nem gêneros.
No Su Wen , capítulo 5 afirma-se que: “O Yin corresponde à falta de movimento e sua energia simboliza a terra; o Yang corresponde ao movimento e sua energia simboliza o céu, portanto, o Yin e o Yang são os caminhos da terra e do céu”. (BING WANG, 2001, p.49). Afirma-se ainda que “O Qi é a substância da matéria que está em movimento. Ela é tão fina, que não há nada no seu interior, e tão grande, que não há nada no seu exterior.”(HE e NE, 1999, p. 5). Portanto o Qi está na base de todas as coisas e a interação entre seus dois componentes resulta na infinidade de fenômenos do universo, já que a condensação e a dispersão do Qi forma tudo. (MACIOCIA,1989).
Escolhemos essa conceituação de Qi atrelada a Yin e Yang por optar por uma representação de movimento utilizada também por Orem. Autocuidado requer ação, é movimento, é sair do estado que o cliente se encontra e ir em direção à maturidade, realizando seu potencial humano individual.21: ser saudável. Orem (2001) descreve Saúde como um estado definido como a forma através da qual a pessoa revela sua existência, um estado que combina o todo (whole) e o saudável, perfeito (sound). O todo significa que nada foi omitido, ignorado ou diminuído22, enquanto saudável exprime a idéia da força e do pleno vigor e ausência de sinais de doença ou morbidade23. Ou seja, a saúde depende da manutenção de um equilíbrio dinâmico e da união da estrutura (Yin) com a função (Yang) formando a totalidade do ser.
Maciocia (1989) cita dois aspectos do Qi que considera relevantes para a Medicina:
a) O Qi se manifesta simultaneamente em nível físico (Yin) e em nível mental, espiritual (Yang);
b) O Qi está em constantes estágios de agregação (Yin) e dispersão (Yang). Quando o Qi se condensa temos uma forma física (Yin).
21 The point of view of human beings as persons is a moving rather than a static one……movement toward maturation”. (OREM, 1995 p. 102; OREM,2001p. 187).
22 Tradução livre da autora: “The terms whole means that nothing has been omitted, ignored, or lessened”
(OREM, 1995 p. 99; OREM, 2001, p.185)
23 Tradução livre da autora: “The term sound means possession of full vigor and strength and absence of signs of
Isso explica por que a mente e o corpo são indissociáveis, interdependentes, representando diferentes graus de condensação do Qi. Explica o fato de um sentimento como a raiva, por exemplo, poder causar danos físicos. A raiva é o mesmo Qi, é a mesma “energia vital”, se apresentando numa forma diversa de agregação de partículas. Um sentimento de raiva guardado por longo tempo, perturba o livre fluxo do Qi pelo organismo, levando à dor, distensões, massas, depressão.
A movimentação correta do Qi no organismo é fundamental para a fisiologia corporal, para a saúde. O subir ou descer, o entrar ou sair do Qi depende do funcionamento dos órgãos internos. Cada órgão tem um efeito particular sobre o Qi da mesma forma que cada sentimento tem um efeito particular sobre ele e, conseqüentemente, sobre o órgão (MACIOCIA, 1989).
Os conceitos de Qi, Yin e Yang certamente são o que mais distingue a filosofia chinesa da filosofia ocidental. A visão ocidental se baseia na dualidade, certo e errado, bom e mau. Certo e errado são opostos e ambos não podem ser verdadeiros, um está errado, é mau e não desejável. O conceito de Yin e Yang é radicalmente diferente, esses são opostos, mas complementares, um não existe sem o outro e ambos são verdadeiros. Como afirma Maciocia (1992, p.1), “…,Yin contém a semente de Yang e vice versa, então, contrariamente à lógica Aristotélica, A pode ser NÃO A”.
Acredito que à medida que a(o) enfermeira(o), com sua habilidade e competência (uma forma de poder, de Qi) vai conseguindo mobilizar o poder de agenciar o autocuidado no cliente, o Qi invisível começa a se tornar visível e palpável, manifesto principalmente para o cliente e quando o cliente começa a acreditar no seu poder, o que é evidenciado na transição do lócus de controle externo para interno e diminuição no emprego de termos absolutos, está iniciando o seu processo de sarar. A dependência de autoridade externa começa a se modificar e o cliente começa a perceber como ele constrói a sua própria verdade e como ele cuida de sua saúde. Essa modificação concretiza-se e é revelada na forma do cliente se expressar, na estrutura semântica da construção da sua expressão verbal e escrita e diminuição nos níveis de dor.
A proposta central deste trabalho é a modificação da dor levando o participante a ver a dor crônica não somente como negativa, desprovida de significado, constituindo algo a ser simplesmente combatido, pois neste caso despreza-se uma dimensão na dor, uma informação, não havendo o todo. A dor necessita ser percebida como má e boa ao mesmo tempo. O lado mau é evidente, porém há necessidade de busca do lado bom que pode significar a libertação de uma energia perversa (Qi estagnado) a qual se condensa em um sentimento que vem perturbando o cliente há muito tempo.