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Medida da capacidade contributiva. Capacidade contributiva e capacidade

1.2 Do princípio da capacidade contributiva

1.2.5 Medida da capacidade contributiva. Capacidade contributiva e capacidade

Um aspecto importante na aplicação da capacidade contributiva diz respeito a natureza da aptidão econômica do contribuinte que se reputa necessário aferir, se seria

objetiva ou subjetiva.

A capacidade contributiva é subjetiva quando leva em conta as condições pessoais do contribuinte (capacidade econômica real69). Corresponde à concreta e real aptidão de determinada pessoa, considerados seus encargos pessoais inafastáveis, para o pagamento de certo imposto.

É objetiva quando toma em consideração manifestações objetivas de riqueza, ostentadas pelo contribuinte, como, p. ex., ter casa, carro, etc. É a aptidão abstrata e, em tese, para concorrer com os gastos públicos da pessoa que realiza os fatos indicadores de riqueza.

Roque Carrazza ensina que a aferição da capacidade contributiva do indivíduo deve ser feita com base em elementos objetivos que façam presumir que o contribuinte ostenta condições econômicas de arcar com o ônus tributário imposto. Desta forma, na visão do autor, a capacidade contributiva seria a aptidão abstrata de suportar a carga financeira.70

Segundo o autor, pouco importa se o que praticou o fato imponível do imposto não reúne condições de suportar a carga tributária, porque o fato de apresentar sinais presuntivos de riqueza – possuir um carro, ter um imóvel etc. – implica, objetivamente, o dever de recolher os impostos pertinentes a essas grandezas.

Segue o professor paulista a linha de pensamento de Alfredo Becker, o qual compreendia que, para a aferição da capacidade contributiva do indivíduo, não se avalia a totalidade da riqueza do contribuinte, mas exclusivamente um fato-signo presuntivo71 de sua renda ou capital.

Aliomar Baleeiro também ensina que o legislador, ao escolher as situações da vida passíveis de imposição, não teria discricionariedade, mas deveria se pautar pela regra da capacidade contributiva. Ao realizar esta seleção das situações imponíveis, “não podendo medi-la [capacidade contributiva] em todos os casos, nem contando com a inteira sinceridade

69 COELHO, Sacha Calmon Navarro. Comentários... p.90. 70

CARRAZZA, Roque Antônio. Op. cit., p. 86. 71 BECKER, Alfredo Augusto.Op. cit., p. 497.

do contribuinte, o legislador estabelece, através do fato gerador de cada imposto, um sistema de indícios e presunções dessa capacidade fiscal”.72

Não obstante, a capacidade relativa ou subjetiva refere-se à concreta e real aptidão de determinada pessoa (considerados seus cargos obrigatórios pessoais e inafastáveis) para o pagamento de certo imposto.

[...]

Por isso interessa mais, dentro das peculiaridades de nosso direito positivo, estabelecer a relação e a compatibilidade entre as prestações pecuniárias, quantitativamente delimitadas na lei e a espécie, definida pelo fato signo presuntivo de riqueza (na feliz expressão de Becker), posto na hipótese de incidência e pré-delineado nas normas constitucionais. Caberá ao legislador infraconstitucional fixar esta relação, porém a margem de discricionariedade de que dispõe é limitada. Do ponto de vista objetivo, a capacidade econômica somente se inicia após a dedução dos gastos à aquisição, produção, exploração e manutenção da renda e do patrimônio. Tais gastos se referem àqueles necessários às despesas de exploração e aos encargos profissionais. (V., nesse sentido, Joachim Lang, Tributación Familiar HPE, 94: pp. 407-435, 1985, p. 410; Klaus Tipke, Steuerrecht, 9, Otto Schmidt KG, 1983, p. 281). Ou seja, pode-se falar em uma capacidade econômica objetiva, que o legislador tem o dever de buscar, como a renda líquida profissional, ou o patrimônio líquido.

[...] A capacidade econômica subjetiva corresponde a um conceito de renda ou patrimônio líquido pessoal, livremente disponível para o consumo e, assim, também para o pagamento de tributo. Dessa forma, se realizam os princípios constitucionalmente exigidos da pessoa/idade do imposto,proibição do confisco e igualdade, conforme dispõem os arts. 145, § 1°, 150, II e IV, da Constituição.73

Noutro ponto, entendendo que a capacidade contributiva encartada no texto constitucional seria subjetiva, e não objetiva, se posiciona Sacha Calmon Navarro Coelho, segundo o qual o caráter pessoal a que alude o constituinte significa o desejo de que a pessoa tributada venha a sê-lo por suas características pessoais, ou seja, pela capacidade econômica real do contribuinte.74

Paulo de Barros Carvalho ensina que, a bem da verdade, a capacidade contributiva possui duas faces coexistentes, uma subjetiva e outra objetiva, de forma que para se tornar efetiva se faz necessária a realização dessas suas duas facetas:

[...] Da providência contida na escolha de fatos presuntivos de fortuna econômica decorre a possibilidade de o legislador, subseqüentemente, distribuir a carga tributária de maneira eqüitativa, estabelecendo, proporcionadamente às dimensões do evento, o grau de contribuição dos que dele participaram. Exsurge aqui a chamada capacidade contributiva relativa ou subjetiva, fator lógico de discriminação que atua decisivamente para que se realize o princípio jurídico da igualdade tributária.

72 BALEEIRO, Aliomar. Op. cit. p. 272. 73

Idem. Ibidem, p. 690.

Podemos resumir o que dissemos em duas proposições afirmativas bem sintéticas: realizar o princípio pré-jurídico da capacidade contributiva absoluta ou objetiva retrata a eleição, pela autoridade legislativa competente, de fatos que ostentem signos de riqueza; por outro lado, tornar efetivo o princípio da capacidade contributiva relativa ou subjetiva quer expressar a repartição do impacto tributário, de tal modo que os participantes do acontecimento contribuam de acordo com o tamanho econômico do evento.75

Para fins do presente trabalho, embora se reconheça a importância da característica subjetiva do princípio, o que interessa mais diretamente é sua feição objetiva, plasmada em fatos concretos que fazem presumir que o indivíduo produziu riqueza e que, por isso, deve recolher o tributo correspondente. No caso em estudo, a circunstância de que a atribuição da responsabilidade por substituição pressupõe a viabilidade da retenção/repercussão é manifestação da capacidade contributiva objetiva.

Superada esta questão preliminar, insta analisar quais seriam os parâmetros de aferição da capacidade contributiva dos indivíduos, para fins de graduação dos impostos.

Quanto a este ponto, Becker ensina que, a priori, a capacidade contributiva é aferida mediante a relação que se estabelece entre a riqueza de um indivíduo – ou seja, sua capacidade econômica – e a carga tributária por ele suportada.76

Hugo de Brito aponta que o jurista espanhol Francesco Moschetti entende serem distintas a capacidade econômica e a capacidade contributiva. Para ele, a capacidade econômica é apenas uma condição necessária para a existência de capacidade contributiva, visto que esta é a capacidade econômica qualificada por um dever de solidariedade, quer dizer, por um dever orientado e caracterizado por um prevalecente interesse coletivo, não se podendo considerar a riqueza do indivíduo separadamente das exigências coletivas.77

Em outro sentido, o autor cearense indica o posicionamento adotado por Federico Maffezzoni, que, por seu turno, sustenta que a capacidade contributiva não pode ser identificada na pura e simples capacidade econômica do sujeito passivo da tributação. Para ele, é problemática a determinação da capacidade econômica. A capacidade contributiva, no seu entender, há de envolver fato indicativo do gozo de vantagens decorrentes dos serviços públicos.78

Hugo de Brito Machado, por sua vez, entende que as referidas construções doutrinárias não são válidas no direito brasileiro, já que a Constituição brasileira,

75 CARVALHO. Paulo de Barros. Op. cit., p. 336. 76 BECKER, Alfredo Augusto. Op. cit., p. 497. 77

MACHADO, Hugo de Brito. Op. cit., p. 74. 78 Idem. Ibidem, mesma página.

diferentemente da italiana, não se reporta à capacidade contributiva, mas expressamente à capacidade econômica.79

No mesmo sentido, é o posicionamento de Roque Carrazza, para quem a hipótese de incidência e a base de cálculo dos impostos devem ter inequívoca dimensão econômica, sendo vedados, por exemplo, tributos sobre o celibato.80

Com efeito, no Brasil, por força do dispositivo constitucional que estabelece a gradação dos impostos segundo a capacidade contributiva, tem-se que esta grandeza, por menção expressa do texto, é o mesmo que capacidade econômica. Quanto a este ponto, portanto, no bojo do ordenamento jurídico pátrio, não há o que se discutir.