1.2 Legislações Recentes
1.2.4 Medida Provisória 746/2016 e Lei nº 13.415/2017
Desde 2013 tramitava no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 6.840/2013 (PL 6.840/13), propondo alterações na LDB 9.394/96, dentre elas a de instituir uma jornada em tempo integral no ensino médio e dispor sobre organização dos currículos desse segmento em áreas do conhecimento (BRASIL, 2013).
Em setembro de 2016 foi editada e promulgada a Medida Provisória 746/2016 (MP 746/16), em que era apresentado o Novo Ensino Médio. A referida MP destacava a implementação de escolas de ensino médio em tempo integral:
Institui a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral, altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e a Lei nº 11.494 de 20 de junho 2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, e dá outras providências (BRASIL, 2016).
Após tramitar e sofrer as modificações no Congresso Nacional a MP 746/16 foi promulgada em 16 de fevereiro de 2017 como a Lei nº 13.415/2017 (Lei nº 13.415/17):
Altera as Leis nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e 11.494, de 20 de junho 2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, a Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1o de maio de 1943, e o Decreto-Lei nº 236, de 28 de fevereiro de 1967; revoga a Lei nº 11.161, de 5 de agosto de 2005; e institui a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral (BRASIL, 2017).
As mudanças propostas pela Lei nº 13.415/17 podem ser agrupadas em dois eixos: o primeiro deles a carga horária, e o segundo; a organização curricular. A referida lei em relação à carga horária determina uma ampliação progressiva até 1.400 horas, sendo que os sistemas de ensino devem atingir 1.000 horas em até
cinco anos. Assim, a ampliação prevê para os próximos cinco anos uma carga inicial de cinco horas, devendo atingir progressivamente sete horas diárias e por consequência o período integral (KUENZER, 2017).
A partir da vigência da referida lei, as escolas que ofertarem o ensino integral e atenderem os critérios do MEC serão contempladas com apoio financeiro por um período de dez anos. Para tanto, é preciso formalizar o termo de compromisso, explicitar ações a serem realizadas, bem como as metas a serem atingidas. O repasse se dará mediante cálculo do número de matrículas cadastradas e da disponibilidade orçamentária do MEC (KUENZER, 2017).
Em relação à organização curricular determinada pela Lei nº 13.415/17, verifica-se uma forte inspiração, ao menos formal do princípio da flexibilidade, e sob essa justificativa a aparente oferta de diferentes trajetórias curriculares na busca de atender aos projetos de vida dos jovens. Isto se daria de uma organização curricular alegadamente pautada por diferentes percursos formativos oferecidos pelas redes de ensino públicas.
Desta forma, a carga horária de até 1.800 horas atenderá à BNCC e incluirá a parte diversificada prevista no art. 26 da LDB 9.394/96; tendo em vista que a Lei nº 13.415/17 no seu artigo 35, no quinto parágrafo estabelece somente a duração máxima do conteúdo curricular comum, "A carga horária destinada ao cumprimento da Base Nacional Comum Curricular não poderá ser superior a mil e oitocentas horas do total da carga horária do ensino médio, de acordo com a definição dos sistemas de ensino" (Art. 35-A, § 5º).
Nesse sentido a carga horária de até 1.800 horas que atenderá à BNCC corresponde à 60% de um percurso de três anos, o restante do tempo será destinado às cinco possibilidades de itinerários formativos: I - linguagens e suas tecnologias; II - matemáticas e suas tecnologias; III - ciências da natureza e suas tecnologias; IV - ciências humanas e sociais aplicadas e V - formação técnica e profissional (KUENZER, 2017).
De acordo com Kuenzer, a organização dos itinerários formativos ocorrerá da seguinte forma:
[...] serão organizados por meio de diferentes arranjos curriculares, podendo ou não estar integrados à formação comum, e devem levar em conta o contexto local e as possibilidades dos sistemas de
ensino. Só são duas as disciplinas obrigatórias nos três anos do ensino médio: língua portuguesa e matemática; as demais, e entre elas artes, educação física, sociologia e filosofia, devem ser obrigatoriamente incluídas, mas não por todo o percurso, o que pode significar apenas um módulo de curta duração. A língua inglesa tem oferta obrigatória; os sistemas de ensino poderão ofertar outras línguas, mas em caráter optativo (KUENZER, 2017, p. 335).
O quadro a seguir busca sintetizar as mudanças propostas pela Lei nº 13.415/17 em relação ao ordenamento legal anterior.
Quadro 4: As mudanças propostas pela Lei nº 13.415/17 Mudanças Antes da lei Depois da lei Carga horária 800 horas anuais 1000 horas anuais Disciplinas Artes, Biologia, Educação,
III – ciências da natureza e suas tecnologi-as;
IV – ciências humanas e sociais aplicadas;
V – formação técnica e profissional.
Língua Inglesa Não obrigatória. Obrigatória nos três anos de curso.
Turno Matutino, Vespertino ou Notur-no.
Proposta de escola em tempo integral a ser implementada de forma gradual.
Fonte: (BRASIL, 2017).
Cada sistema de ensino definirá quais itinerários formativos serão ofertados levando em conta suas condições concretas. Segundo o Parecer CNE/CEB nº 3/2018 homologado pelo MEC através da Portaria n° 1.210 de 21/11/2018, está estipulado que pelos menos dois itinerários formativos sejam ofertados aos alunos por município. Desse modo, o aluno pode não ter à sua disposição em sua escola ou mesmo no município em que reside, o itinerário formativo com o qual mais se identifica, minando a aparente alegação do caráter flexível da nova lei do ensino médio.
Art. 12. § 6º Os sistemas de ensino devem garantir a oferta de mais de um itinerário formativo em cada município, em áreas distintas, permitindo-lhes a escolha, dentre diferentes arranjos curriculares, atendendo assim a heterogeneidade e pluralidade de condições, interesses e aspirações (BRASIL, 2018).
A lei prevê que o aluno poderá cursar mais de um itinerário, desde que haja vaga. Os certificados habilitam a continuidade dos estudos no ensino superior, mas o itinerário cursado com o aprofundamento apenas em determinada área reduzirá a possibilidade de acesso às demais, o que pode incentivar os alunos a frequentarem os cursinhos pré-vestibulares. (KUENZER, 2017).
A Lei nº 13.415 também prevê, de forma geral em seu artigo 35A, oitavo parágrafo, a oferta futura de Educação a Distância (EAD):
Art. 35 A. - § 8º Os conteúdos, as metodologias e as formas de avaliação processual e formativa serão organizados nas redes de ensino por meio de atividades teóricas e práticas, provas orais e escritas, seminários, projetos e atividades on-line, de tal forma que ao final do ensino médio o educando demonstre:
I - domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna;
II - conhecimento das formas contemporâneas de linguagem (BRASIL, 2017).
O Parecer CNE/CEB nº 3/2018 que atualiza as Diretrizes Curriculares Nacionais, as quais servirão de parâmetros para BNCC, registra que a Educação a Distância pode ser ofertada de forma opcional, em até 20% no Ensino Médio Diurno e até 30% no Ensino Médio Noturno, preferencialmente, nos itinerários formativos do currículo e até 80% na Educação de Jovens e Adultos (EJA), tanto na formação geral básica quanto nos itinerários formativos do currículo.
Art. 17. § 5º Na modalidade de educação de jovens e adultos é possível oferecer até 80% (oitenta por cento) de sua carga horária a distância, tanto na formação geral básica quanto nos itinerários formativos do currículo, desde que haja suporte tecnológico – digital ou não – e pedagógico apropriado (BRASIL, 2018).
Art. 17. § 15. As atividades realizadas a distância podem contemplar até 20% (vinte por cento) da carga horária total, podendo incidir tanto na formação geral básica quanto, preferencialmente, nos itinerários formativos do currículo, desde que haja suporte tecnológico – digital ou não – e pedagógico apropriado, necessariamente com acompanhamento/coordenação de docente da unidade escolar onde o estudante está matriculado, podendo a critério dos sistemas de ensino expandir para até 30% (trinta por cento) no ensino médio noturno (BRASIL, 2018).
A lei trata, no §7º do referido artigo, da oferta de formações experimentais em áreas não contempladas pelo catálogo nacional de cursos técnicos do MEC. E
no §8º a Lei vincula a oferta à aprovação prévia pelo Conselho de Educação de cada unidade federativa e à homologação pelas respectivas Secretarias de Educação:
§ 8º A oferta de formação técnica e profissional a que se refere o inciso V do caput, realizada na própria instituição ou em parceria com outras instituições, deverá ser aprovada previamente pelo Conselho Estadual de Educação, homologada pelo Secretário Estadual de Educação e certificada pelos sistemas de ensino (BRASIL, 2017).
A lei permite a certificação profissional em nível nacional, com possibilidade de prosseguimento de estudos em nível superior:
§ 9º As instituições de ensino emitirão certificado com validade nacional, que habilitará o concluinte do ensino médio ao prosseguimento dos estudos em nível superior ou em outros cursos ou formações para os quais a conclusão do ensino médio seja etapa obrigatória (BRASIL, 2017).
No art. 36, §10, observa-se outra alteração relevante, diz respeito à introdução da possibilidade de organização do ensino médio em módulos e da adoção do sistema de créditos com terminalidade específica. Também são admitidos convênios com instituições de educação à distância:
§ 11. Para efeito de cumprimento das exigências curriculares do ensino médio, os sistemas de ensino poderão reconhecer competências e firmar convênios com instituições de educação a distância com notório reconhecimento, mediante as seguintes formas de comprovação:
I - demonstração prática;
II - experiência de trabalho supervisionado ou outra experiência adquirida fora do ambiente escolar;
III - atividades de educação técnica oferecidas em outras instituições de ensino credenciadas;
IV - cursos oferecidos por centros ou programas ocupacionais;
V - estudos realizados em instituições de ensino nacionais ou estrangeiras;
VI - cursos realizados por meio de educação a distância ou educação presencial mediada por tecnologias (BRASIL, 2017).
Caberia assim as unidades escolares, a orientação dos estudantes no processo de escolha das áreas de conhecimento ou de atuação profissional (art. 36,
§12).
De acordo com a referida lei são admitidos profissionais com notório saber para ministrar conteúdos de áreas afins a sua formação ou experiência profissional.
As exigências para a atuação desses profissionais são: comprovação de titulação específica ou prática de ensino em instituições educacionais; atuação em corporações privadas. Assim, as atuações docentes desses profissionais serão consideradas como complementações pedagógicas, e cumprirão o que é disposto pelo Conselho Nacional de Educação. O artigo 6º da lei explicita:
Art. 6º. O art. 61 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com as seguintes alterações:
[...] IV - profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino, para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação ou experiência profissional, atestados por titulação específica ou prática de ensino em unidades educacionais da rede pública ou privada ou das corporações privadas em que tenham atuado, exclusivamente para atender ao inciso V do caput do art. 36;
V - profissionais graduados que tenham feito complementação pedagógica, conforme disposto pelo Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2017).
A Lei nº 13.415/17 também traz impactos diretos na organização dos cursos de formação de professores, quando obriga através do Art. 7º, parágrafo 8º, de que os currículos dos cursos de formação de docentes terão por referência a Base Nacional Comum Curricular, implicando na reestruturação dos próprios currículos desses cursos, com base na exigência de competências e habilidades.
Art. 7º O art. 62 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com as seguintes alterações:
Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura plena, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nos cinco primeiros anos do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal.
§ 8º Os currículos dos cursos de formação de docentes terão por referência a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017).
A lei também altera a jornada de trabalho do professor quando flexibiliza o que era determinado pelo Artigo 318 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Art. 318 - Num mesmo estabelecimento de ensino não poderá o professor dar, por dia, mais de 4 (quatro) aulas consecutivas, nem mais de 6 (seis), intercaladas (BRASIL, 1943).
Assim, o estabelecimento de um número máximo de aulas em uma mesma instituição de ensino é retirado e passando a vigorar o que cita o artigo 8º da Lei nº 13.415/17:
Art. 318. O professor poderá lecionar em um mesmo estabelecimento por mais de um turno, desde que não ultrapasse a jornada de trabalho semanal estabelecida legalmente, assegurado e não computado o intervalo para refeição (BRASIL, 2017).
A implantação das alterações dispostas na Lei nº 13.415/17 tem prazo máximo para início em dois anos após a publicação da BNCC. Sendo assim, no primeiro ano subsequente à publicação da BNCC é necessário que os sistemas de ensino construam um cronograma para efetivação das alterações propostas e, no segundo ano iniciem o processo de implantação nas escolas.
O quadro abaixo ilustra as legislações referentes à Educação Profissional no Brasil a partir de 1988, o ano da promulgação da CF/88.
Quadro 5: Legislações recentes referentes à Educação Profissional no Brasil
Ano Evento e descrição
1988 a Constituição Federal de 1988 (CF/88 prevê no seu artigo 6º, o direito à educação, como um direito fundamental de natureza social.
1996
a Lei de Diretrizes e Bases nº 9.394 (LDB 9.394/96) configurou o ensino médio como etapa final da educação básica. Previu no art.35 a consolidação e o aprofundamento do ensino fundamental, a preparação básica para o trabalho e a cidadania e o reconhecimento àqueles que concluírem o curso básico como aptos ao ingresso no ensino superior.
1997
o Decreto nº 2.208 (Decreto 2.208/97) regulamentou a educação profissional definindo três níveis: básico, técnico e tecnológico. A educação profissional de nível técnico, é separada do ensino médio e transformada em modalidade de educação, podendo ser oferecida de forma concomitante ou sequencial a este.
2004
o Decreto 2.208/97 foi revogado pelo Decreto nº 5.154 (Decreto 5.154/04), de 2004, que determina a possibilidade de articulação do ensino médio com a educação profissional de nível técnico que passou a ter três possibilidades:
integrada, concomitante ou subsequente ao ensino médio.
2013
o Projeto de Lei nº 6840/2013 propõe alteração da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para instituir a jornada em tempo integral no ensino médio e dispor sobre a organização dos currículos do ensino médio em áreas do conhecimento.
2016 a Medida Provisória 746/2016 (MP 746/16) apresentou o Novo Ensino Médio, destacando a implementação de escolas de ensino médio em tempo integral.
2017 a conversão da MP 746/16 na promulgação Lei nº 13.415/17, acabou por estabelecer as novas diretrizes e bases para o ensino médio brasileiro com a prerrogativa de atender as expectativas e os projetos de vida dos jovens.
Fontes: (BRASIL, 1988, 1996, 1997, 2004, 2013, 2016, 2017).
1.3 Discussões da reforma do Novo Ensino Médio proposta pela Lei nº