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Medida Socioeducativa como Recidiva Penal

Voltando o olhar para a prática judiciária e tendo em conta a contradição entre o paradigma positivado pelo novo Estatuto da Criança e do Adolescente (proteção integral) e a atuação do nosso Poder Judiciário, destaca-se o último entendimento do Superior Tribunal de Justiça no RHC 73.121, que confirmou a decisão colegiada do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul.

Na ocasião, a fim de justificar a prisão preventiva do Paciente, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, em Acórdão de relatoria do Ministro Antonio Saldanha Palheiro, utilizou de passagens pelo sistema socioeducativo na tentativa de configurar algum dos requisitos exigidos pelo art. 312 do Código de Processo Penal e justificar a garantia da ordem pública e aplicação da lei penal.

Assim dispõe o Código:

Art. 312. A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria.

E a Ementa do referido Acórdão:

PROCESSO PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS . ROUBO MAJORADO. PRISÃO PREVENTIVA.

GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. REITERAÇÃO DELITIVA. ATOS INFRACIONAIS. RECURSO DESPROVIDO.

1. A validade da segregação cautelar está condicionada à observância, em decisão devidamente fundamentada, aos requisitos insertos no art. 312 do Código de Processo Penal, revelando-se indispensável a demonstração do que consiste o periculum libertatis.

2. A Terceira Seção desta Corte firmou orientação de que

"os registros sobre o passado de uma pessoa, seja ela quem for, não podem ser desconsiderados para fins cautelares. A avaliação sobre a periculosidade de alguém impõe que se perscrute todo o seu histórico de vida, em especial o seu comportamento perante a comunidade, em atos exteriores, cujas consequências tenham sido sentidas no âmbito social.

Se os atos infracionais não servem, por óbvio, como antecedentes penais e muito menos para firmar reincidência

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(porque tais conceitos implicam a ideia de "crime" anterior), não podem ser ignorados para aferir a personalidade e eventual risco que sua liberdade plena representa para terceiros " (RHC 63.855/MG, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, Rel. p/acórdão Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Dje 13/6/2016).

3. No caso, a decisão que impôs a prisão preventiva apontou que o recorrente, além de ter, em tese, praticado crime de roubo majorado, possui anotações, uma delas referente à prática de ato infracional equiparado a delito contra o patrimônio, há pouco realizado, evidenciando sua reiterada atividade delitiva. Assim, faz-se necessária a faz-segregação provisória como forma de acautelar a ordem pública.

4. Recurso desprovido. (Grifos da autora)

Ao acordado, o Ministro relator afirma:

"Portanto, depreende-se da leitura do decreto combatido que a prisão do recorrente foi decretada como forma de acautelar a ordem pública, haja vista a referência nele contida ao fato de já ter se envolvido em outras práticas delitivas.

Vale registrar que se justifica a imposição da prisão preventiva para a garantia da ordem pública, quando delineada a periculosidade do recorrente e o risco de reiteração delitiva.

(Grifos da autora)

E, a fim de substanciar o argumento de manutenção da ordem pública, exemplifica utilizando 3 acórdãos (RHC 66.123/MG, HC 327.892/MG, RHC 54.223/ MG). No entanto, em todos os exemplos, a manutenção da ordem pública está fundada na reincidência criminal, com trânsito em julgado na esfera penal, e não baseada em registros de passagem por medida socioeducativa. O que ainda justificaria a aplicação do artigo 312 do Código de Processo Penal, vez que se trata de continuidade delitiva dentro do mesmo procedimento judicial, o direito processual penal.

No detalhado do caso, o Assistido pela Defensoria Pública do estado do Mato Grosso do Sul não possui antecedentes criminais, reside com os pais em endereço fixo, é estudante e possui bom convívio social, apresentando somente 1 cumprimento de Prestação de Serviço à Comunidade por furto como menor de idade. Nada na descrição do adolescente leva a imputar dificuldade de aplicação da lei penal ou ameaça à ordem pública por

"personalidade voltada à prática delitiva". Estão ausentes todos os pressupostos do artigo do Código de Processo Penal para a decretação da medida extrema preventiva

No entanto, desde sua primeira audiência cognitiva a prisão já foi

36 declarada e sua manutenção confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça.

Ainda que não houvesse sequer um dos requisitos exigidos pelo artigo. Aqui sublinha-se que “risco de reiteração delitiva”, o argumento subjetivo utilizado por todos os julgadores ao apresentar a ficha infracional e temer pela ordem pública, não é requisito de decretação da prisão preventiva. Ao que se questiona a (des)necessidade do acautelamento.

Sem entrar no mérito da quantidade de medidas cautelares alternativas à prisão, previstas no art. 319, CPP43, e da desconsideração da excepcionalidade da prisão, ficou claro que o juízo de valor realizado pelo julgador foi baseado no etiquetamento social atribuído ao ali Paciente. Por que se não há sequer um registro capaz de ensejar recidiva penal, como diz a própria Ementa, então o que mais poderia subisidiar seu juízo de valor a não ser as características sociais e a presunção de periculosidade daí decorrente?

Está na Constituição Federal, art. 5º, LVII44, o princípio fundamental da presunção da inocência que requer para que haja a culpabilidade, o trânsito em julgado de uma sentença penal condenatória. Ora, se ele é primário e só cometeu um ato infracional na vida retribuído com prestação de serviço à comunidade, por qual motivo ele poderia ser ameaça à ordem pública? A decretação da preventiva imotivadamente, além de ferir o art. 315, CPP45,

43 Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão:

I - comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades;

II - proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar o risco de novas infrações;

III - proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante;

IV - proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução;

V - recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos;

VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais;

VII - internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração;

VIII - fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial;

IX - monitoração eletrônica.

44 LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;

45 Art. 315. A decisão que decretar, substituir ou denegar a prisão preventiva será sempre motivada.

37 nega a Constituição ao presumir culpado aquele que sequer teve iniciada uma

persecução penal.

E a presunção da inocência não se trata de opção do magistrado, é obrigação sua observância. Segundo LOPES JR, “a presunção da inocência impõe um verdadeiro dever de tratamento (na medida em que exige que o réu seja tratado como inocente), que atua em duas dimensões: interna ao processo e exterior a ele”46, “nesse terreno, excepcionalidade, necessidade e proporcionalidade devem caminhar juntas. Ademais, a excepcionalidade deve ser lida em conjunto com a presunção da inocência, constituindo um princípio fundamental de civilidade, fazendo com que prisões cautelares sejam (efetivamente) a ultima ratio do sistema, reservadas para os casos mais graves”47.

Em breve retorno à ilegalidade da preventiva e parcialidade dos julgadores, é importante destacar que o ECA prevê o devido processo legal e segue os princípios de presunção da inocência. Assim, as “passagens”

constantes na lista, sem o devido processamento na justiça e condenação transitada em julgado, não formam coisa julgada capaz de induzir culpabilidade. Justamente porque a máxima do ordenamento jurídico brasileiro é a presunção da inocência e não da culpa. Na sequência, a aplicação da preventiva igualmente presume a culpa de um crime ainda sequer investigado, penalizando baseada na suposição da “continuidade delitiva”, sendo, portanto insuficiente para subsidiar a preventiva.

Sequer investigado porque trata-se de ação de Habeas Corpus impetrado tão logo decretada a preventiva, o que ocorreu após a audiência de custódia. Não houve tempo para a persecução penal ser iniciada. Na imediata sequência à suposta conduta, foi encaminhado à Delegacia e preso em flagrante, sendo enviado ao presídio. Ao que se observa que os argumentos utilizados estão baseados em presunções de periculum libertatis e de equivocadas valorações de personalidade.

É nesse sentido que THOMPSON afirma: “sempre que existir algum motivo, mesmo não muito razoável, que justifique à máquina repressiva formalizar a anotação de uma infração, ela deve ser feita desde que o autor

46 LOPES JR, Aury. Prisões Cautelares. 4. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Saraiva, 2013. pp. 23.

47 LOPES JR, Aury. Prisões Cautelares. 4. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Saraiva, 2013. pp. 43

38 (ou suspeito da autoria) exiba o primeiro traço marcante do marginal - ser

pobre -, pois dessa maneira mais fácil ficará, no futuro, de identificá-lo como verdadeiro criminoso... por seu turno, a reiteração dos registros propicia maior segurança em re

conhecer o portador como criminoso. Por isso, quando surgir qualquer nova suspeita a seu respeito, tenderá a ser tomada como certeza, mais ou menos na base da ideia: pode ser que dessa vez não tenha feito nada, mas trata-se, evidentemente, de um criminoso, justificando-se, pois aproveitar a oportunidade para puni-lo pelo que deve ter feito ou pelo o que fará, se for deixado livre.”48

A atuação judicial também agiu em desconformidade com o preconizado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, visto que se trata de documento de segredo de justiça visando a proteção do adolescente e impedindo sua estigmatização social em respeito a sua peculiar condição de pessoa em desenvolvimento. E o mesmo vale para depois de atingir a maioridade. O histórico infracional não pode ser trazido à luz para efeitos de recidiva penal ou de valoração comportamental. Se assim pudesse, estar-se-ia destar-se-iante de uma afronta principiológica ao Estatuto e à condição peculestar-se-iar do adolescente.

Se antes se tratava de um adolescente com a ficha limpa, estudante, residente com os pais e adaptado ao contexto social e familiar, hoje ele é um detento. Privado de sua liberdade. Em sua comunidade é alguém que foi preso. E tudo isso às avessas do que diz a legislação. Estigmatizado socialmente pela simples atuação judicial desconforme com os institutos jurídicos legais.

“A elevação de certos comportamentos à classificação de crimes e, sobretudo, a designação de certos indivíduos para serem oficialmente considerados criminosos estão diretamente ligadas com a hierarquização social e o esforço de manutenção do status quo que interessa às classes dominantes”.49 (THOMPSON, 1998, p.

130)

48 THOMPSON, Augusto. Quem são os criminosos? Crime e o Criminoso. Entes políticos. Rio de Janeiro: Lumen Juris. 1998. p. 68

49 THOMPSON, Augusto. Quem são os criminosos? Crime e o Criminoso. Entes políticos. Rio de Janeiro: Lumen Juris. 1998. p. 130

39 Exatamente por isso é que LOPES JR chama atenção para a

dimensão externa da necessidade de observância ao princípio da presunção da inocência ao especificar que tanto os princípios quanto as garantias constitucionais são o limite democrático à exploração midiática em torno do caso, porque presumir a inocência exige a proteção daquele que está sendo acusado contra a publicidade e a estigmatização50.

Neste caso, ainda mais: alguém está sendo duplamente punido pelo mesmo fato. Uma vez pelo cumprimento da medida socioeducativa e outra vez pela prisão preventiva em decorrência do mesmo fato já valorado judicialmente. A rotulação de "menor infrator", " com personalidade voltada à prática delitiva" e "ameaça à ordem pública" atribuídas pelos Tribunais foi determinante para o acautelamento mesmo inexistindo envolvimento na seara criminal. Tanto é que é primário.

Segundo BARATTA, "a punição de um primeiro comportamento desviante tem, frequentemente, a função de um 'commitment to deviance', gerando, através de uma mudança de identidade social do indivíduo assim estigmatizado, uma tendência a permanecer no papel social no qual a estigmatização o introduziu".51 A antecipação da pena pelo crime de roubo que está em processamento não atinge sua completude de funções, pois sua característica educativa não existe, mas tão somente punitiva - e por um fato pelo qual já houve o cumprimento da punição imposta pelo Estado. Em não se atendendo à parte educativa, qual o cabimento de tal medida?

Simplesmente punitiva? Um puro bis in idem?!

Ao vergastar a Ementa, destacam-se as preocupações apresentadas:

periculum libertatis para a manutenção da ordem social e garantia da aplicação da lei penal e a contradição na valoração das passagens infracionais.

HABEAS CORPUS. PRISÃO PREVENTIVA. REQUISITOS LEGAIS. PRESUNÇÃO DE PERICULOSIDADE PELA PROBABILIDADE DE REINCIDÊNCIA. INADMISSIBILIDADE.

- A futurologia perigosista, reflexo da absorção do

50 LOPES JR, Aury. Prisões Cautelares. 4. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Saraiva, 2013. pp. 24.

51 BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito penal. Tradução Juarez Cirino dos Santos. Rio de Janeiro: Editora Revan: Instituto Carioca de Criminologia, 6ª edição, outubro de 2011. 1ª reimpressão, março de 2013. Pp. 89-90.

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aparato teórico da Escola Positiva – que, desde muito, têm demonstrado seus efeitos nefastos: excessos punitivos de regimes políticos totalitários, estigmatização e marginalização de determinadas classes sociais (alvo do controle punitivo) – tem acarretado a proliferação de regras e técnicas vagas e ilegítimas de controle social no sistema punitivo, onde o sujeito – considerado como portador de uma perigosidade social da qual não pode subtrair-se – torna-se presa fácil ao aniquilante sistema de exclusão social.

- A ordem pública, requisito legal amplo, aberto e carente de sólidos critérios de constatação (fruto desta ideologia perigosista) – portanto antidemocrático –, facilmente enquadrável a qualquer situação, é aqui genérica e abstratamente invocada – mera repetição da lei –, já que nenhum dado fático, objetivo e concreto, há a sustentá-la. Fundamento prisional genérico, anti-garantista, insuficiente, portanto!

- A gravidade do delito, por si-só, também não sustenta o cárcere extemporâneo: ausente previsão constitucional e legal de prisão automática por qualquer espécie delitiva. Necessária, e sempre, a presença dos requisitos legais (apelação-crime 70006140693, j. em 12/03/2003).

- À unanimidade, concederam a ordem.

(HC 70006140693/RS, publicada em 23/04/2003, de relatoria do Desembargador Amilton Bueno de Carvalho).

Ao primeiro ponto cabe ressaltar a ausência do periculum libertatis, definido como “o perigo que decorre do estado de liberdade do sujeito passivo (do decreto de prisão), previsto no CPP como o risco para a ordem pública, ordem econômica, conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal”,52 pois ausentes quaisquer justificativas ante a qualificação do Paciente nos autos.

“o estigma difundido no ‘imaginário coletivo’, via ‘violência simbólica’, passa a ser suficiente para se presumir a periculosidade do etiquetado, bem ao estilo lombrosiano, que carrega consigo - numa espécie de pena perpétua - a contingência de ser diferente de

‘nós’ e dos ‘nossos’”.53 (ROSA, 2013, p.93)

A periculosidade a que se faz referência é aquela criada no imaginário social - incluído o julgador - e dos poderes de controle do Estado, que pode ser explicada como o risco de reiteração e o temor pela fuga do processo. O primeiro, apesar de ser relacionado com a garantia da ordem pública, é incapaz de subsidiar o argumento da necessidade, vez que não se pode

52 LOPES JR, Aury. Prisões Cautelares. 4. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Saraiva, 2013. p. 93.

53 ROSA, Alexandre Morais da. FILHO, Sylvio Lourenço da Silveira. Para um processo penal democrático. Críticas à metástase do Sistema de Controle Social. Rio de Janeiro:Lumen Juris, 2008.

pp. 12.

41 supor que haverá possibilidade de reiteração delitiva sem que haja prova nos

autos para tal.

“a custódia cautelar voltada à garantia da ordem pública não pode, igualmente, ser decretada com esteio em mera suposição - vocábulo abundantemente usado na decisão que a decretou- de que o paciente obstruirá as investigações ou continuará delinquindo...“é imprescindível a existência de prova razoável do alegado periculum llibertatis, ou seja, não bastam presunções ou ilações para a decretação da prisão preventiva. O perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado deve ser real, com um suporte fático e probatório suficiente para legitimar a tão gravosa medida”.54

Além de ser um juízo impossível, saber se a pessoa reiteraria seus atos criminosos ou não, não é a hipótese do caso em análise. No mesmo sentido a suposição de fuga calcada somente no imaginário daquele que se coloca no lugar do “acusado” para presumir se, estando em igual situação, fugiria ou não. Assim frisa Lopes Jr, “recordemos que é absolutamente inconcebível qualquer hipótese de presunção de fuga, até porque substancialmente inconstitucional diante da Presunção da Inocência.

VIDE EMENTA E INDEXAÇÃO PARCIAL: HOMICÍDIO, VÍTIMA, RÉU, ÍNDIO, DISPUTA DE TERRA, RESERVA INDÍGENA, COMUNIDADE XUCURU.

I. Prisão preventiva: "indício de autoria": inteligência. O habeas corpus contra a prisão preventiva não comporta em linha de princípio, sopesamento do valor probante de elementos informativos contrapostos, mas a verificação da existência, contra o réu ou o indiciado, de "indício de autoria", locução na qual "indício" não tem o sentido específico de prova indireta - e eventualmente conclusivo - que lhe dá a lei (C.Pr.Pen., art. 239), mas, sim, apenas, o de indicação, começo de prova ou prova incompleta: existente um indício, só a contraprova inequívoca ou a própria e gritante inidoneidade dele podem elidir a legitimidade da prisão preventiva que nele se funda. II. Prisão preventiva: fundamentação cautelar necessária. Medida cautelar, a prisão preventiva só se admite na medida em que necessária para resguardar a lisura da instrução do processo, a aplicação da lei penal, na eventualidade da condenação e, em termos, a ordem pública; e a aferição, em cada caso, da necessidade da prisão preventiva há de partir de fatos concretos, não de temores ou suposições abstratas.

Inidoneidade, no caso, da motivação da necessidade da prisão preventiva, que, despida de qualquer base empírica e concreta, busca amparar-se em juízos subjetivos de valor acerca do poder de intimidação de um dos acusados e menções difusas a antecedentes de violência, que nenhum deles se identifica. (STF - RHC: 83179 PE, Relator: Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Data de Julgamento:

01/07/2003, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJ 22-08-2003 PP-00022 EMENT VOL-02120-35 PP-07299) (Grifos da autora)

54 Trecho do voto do Ministro Eros Grau no HC 95.009-4/SP, p. 29.

42 Toda decisão determinando a prisão do sujeito passivo deve estar

calcada em um fundado temor… deve-se apresentar um fato claro, determinado, que justifique o receio de evasão”.55 Inclusive, por não se ajustar ao perfil do Assistido da DPU/MS, observa-se a infração de mais um preceito fundamental: a individualização da pena, art. 5ºXLVI, e o devido processo legal, art. 5º, LIV, princípios estritamente ligados à presunção da inocência, art. 5º, LVII, e à dignidade da pessoa humana, art. 1º, III, no qual se funda a Constituição Federal.

Uma das mais claras tendências do Direito penal contemporâneo consiste na proteção preferencial dos bens jurídicos supraindividuais (coletivos, universais, difusos) que estão ocupando (com a conivência dos dogmáticos) a posição dos bens jurídicos clássicos (ignorando-se o ser humano). Não devemos adotar nenhuma postura radical contra os bens jurídicos supraindividuais;

todavia, isso só é possível quando pensados em função do ser humano. Nenhuma afetação de um bem jurídico por si só, pode ter validade no Direito penal que envolve o ius libertatis. Os bens supraindividuais foram imaginados para a tutela de bens pessoais.

É essa a perspectiva correta que deve guiar a interpretação de todos os tipos penais.

O risco mais concreto decorrente dessa universalização dos bens jurídicos consiste na utilização (“perversão”) do Direito penal para a tutela de “funções” ou “instituições”.56 (GOMES e BIANCHINI, 2002, p.81)

Aqui se remete à maximização do direito penal e ao seu fortalecimento, bem como da utilização dos seus órgãos para estereotipar o “inimigo da sociedade”.57 Ao identificar o adolescente como infrator, o juízo de valor do magistrado foi redirecionado para a imagem do criminoso, verdadeiro e atual inimigo do Estado, afastando-se das provas e informações constantes dos autos e firmando novo entendimento na Corte, em total desconexão com o anterior.

Até porque estar-se-ia diante da hipótese de bis in idem, vez que a valoração de um crime anterior para aplicação de privação de liberdade antes mesmo da nova persecução penal configura, de certo, a dupla punição pelo mesmo fato. Ora, uma vez cumprida a apenação imposta pelo ato infracional

55 LOPES JR, Aury. Prisões Cautelares. 4. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Saraiva, 2013. pp.

122.

56 GOMES, Luiz Flávio. BIANCHINI, Alice. O direito penal na era da globalização. Revista dos Tribunais, 2002. p. 81.

57 SODRÉ, Filipe Knaak. O direito penal e a vingança do leopardo. Porto Alegre: Núria Fabris Ed., 2011.pp. 38

43 anterior, não há que se utilizar do mesmo fato para aplicação de nova

privação, sob o argumento da cautelaridade do periculum libertatis. “O bis in idem, embora não esteja expressamente previsto no ordenamento constitucional, tem sido aceito no sistema jurídico-penal brasileiro e sua mitigação presume ocorrência de prejuízo à parte, sendo causa de nulidade absoluta”.58

Quanto ao segundo ponto, a contradição na tese apresentada sobre a valoração dos atos infracionais, certa é sua impossibilidade, como demonstrada anteriormente, porque se trata de procedimentos diferentes, incapazes de serem valorados de igual maneira, tendo em vista a “condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”, que está em processo de aquisição de valores e definição de comportamentos, levando em conta a intensidade dos acontecimentos nesta idade para o grau de ponderamento entre certo e errado, lícito e ilícito, etc.59

São vários os precedentes judiciais sobre a impossibilidade de justificar uma medida extrema de prisão, mais ainda extemporânea e inconstitucional, porque afronta diretamente a presunção da inocência e o devido processo legal.

PROCESSUAL PENAL E PENAL. HABEAS CORPUS . FURTO QUALIFICADO. PRISÃO PREVENTIVA. PACIENTE FABRÍCIO. FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA. REITERAÇÃO DELITIVA. ILEGALIDADE. AUSÊNCIA. PACIENTE GUSTAVO.

PROCESSO. CRIME. ATO INFRACIONAL. ILEGALIDADE.

1. Apresentada fundamentação concreta para a decretação da prisão preventiva, evidenciada na reiteração delitiva do paciente FABRÍCIO (é multirreincidente e mesmo após a expedição de alvará de soltura pelo cumprimento das reprimendas a ele impostas em outro processo) não há que se falar em ilegalidade a justificar a concessão da ordem de habeas corpus.

2. A prisão preventiva do paciente GUSTAVO teve por único fundamento a prática de ato infracional anterior, o que não constitui fundamento idôneo à custódia cautelar, porquanto a vida na época da menoridade não pode ser levada em consideração para quaisquer fins do Direito Penal, razão pela qual, no processo por crime, não podem atos infracionais servirem de fundamento à prisão preventiva.

3. Habeas corpus denegado quanto ao paciente FABRÍCIO HENRIQUE DA COSTA BULIO, e, concedido para soltura do paciente GUSTAVO HENRIQUE DIAS SABION, o que não impede nova e fundamentada decisão de necessária cautelar, inclusive

58 Acórdão do STM publicado em 08/05/2017, na Apelação 140-013.2014.705.0005/PR, de relatoria do Min Odilson Sampaio Benzi.

59 GARRIDO DE PAULA, Paulo Afonso. Ato infracional e natureza do sistema de responsabilização.

In: Justiça, Adolescente e Ato Infracional, 2006.

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