CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2. Método
2.3. Instrumentos e variáveis
2.3.2. Medidas da criança
Tendência para sentir culpa e vergonha: A tendência para sentir culpa e vergonha nas crianças foi avaliada através do Test of Self-Conscious Affect-C (TOSCA-C; Tangney et al., 1990). A escolha por esta medida deveu-se à maior correspondência que este instrumento apresenta relativamente às noções atuais de culpa e vergonha (Tangney, 1996).
A TOSCA-C é uma medida baseada em cenários desenvolvida para avaliar as diferenças individuais na tendência para sentir vergonha, culpa, externalização da culpa, despreocupação, orgulho em si e orgulho no comportamento, em crianças com idades compreendidas entre os 8-12 anos. Na presente investigação foram analisadas as escalas respeitantes à tendência para sentir culpa e vergonha e a escala de externalização da culpa, que passamos a definir. A culpa é definida como uma resposta adaptativa focada no comportamento após uma transgressão e traduz-se na intenção de reparar, desculpar e em sentimentos de arrependimento (e.g. “Pensaria que devia ter sido eu a ser acusado. Eu nem sequer devia estar a falar” ou “Se eu não dissesse a verdade à minha tia, alguma coisa dentro de mim me faria sentir mal”). Por sua vez, a vergonha é descrita como uma resposta desadaptativa focada no self e operacionalizada em reações de evitamento e retirada social (e.g. “Agora que eu tive notas tão baixas, sentiria que não tenho valor” ou “Sentiria que toda a gente estava a olhar para mim e a rir-se”). Por último, a externalização da culpa é definida como a desresponsabilização pessoal pelo sucedido e pela atribuição da responsabilidade a terceiros (“Pensaria que é só mais um teste”).
No que concerne aos procedimentos, este instrumento consiste na apresentação de cenários através de vinhetas (15 cenários breves - 10 negativos e 5 positivos) que refletem
56 experiências quotidianas de transgressão (e.g. Tu e o teu melhor amigo zangam-se na escola; A tua caderneta da escola não é tão boa como gostavas. Quando chegas a casa, mostra-la à tua mãe). Após a leitura de cada um dos cenários, os respondentes devem classificar numa escala de Likert de 1 (nada provável) a 5 (muito provável) a probabilidade de reagir da forma descrita.
Os autores (Tangney et al., 1990) reportam uma consistência interna razoável, com α que variam entre ,66 e ,79. Na presente investigação, para o índice da culpa, foi encontrado um α de ,698, e para o índice da vergonha um α de ,622. Ambos são considerados razoáveis. Por sua vez, o índice da externalização da culpa apresenta um α de ,708, considerado elevado.
Controlo por esforço: Day-Night Task (DNT; Gerstadt et al., 1994). O controlo por esforço pode ser medido através de tarefas que avaliam as funções executivas, e nas quais se destacam as Stroop Tasks3. Estas foram desenvolvidas para avaliar a capacidade do indivíduo ignorar aspetos menos revelantes de um estímulo e concentrar-se nos aspetos necessários para executar a resposta exigida. Os sujeitos devem, assim, inibir a resposta que habitualmente dariam ou a resposta predominante (Pasalich, Livesey & Livesey, 2010). Contudo, estas tarefas revelam-se mais eficazes em adultos do que em crianças pequenas, uma vez que pressupõem capacidades de leitura. Para superar esta limitação, optou-se pela realização da DNT, que envolve a apresentação de imagens em vez de palavras. Por outro lado, esta tarefa também se afigura compatível com a definição de controlo por esforço adotada e sua operacionalização nos construtos de foco atencional e controlo inibitório (Montgomery, Anderson & Uhl, 2008).
A DNT consiste, assim, na apresentação à criança de uma imagem que representa o dia (um sol) e uma imagem que representa a noite (lua e algumas estrelas) (anexo I). Após a apresentação, solicita-se à criança que diga dia quando lhe é apresentado a imagem - noite, e noite quando lhe é apresentada a imagem – dia (Gerstadt et al., 1994). A resposta predominante de nomear o estímulo (dia/noite) deve ser suprimida no sentido de produzir uma resposta “conflito” (noite/dia) exigida pelas regras estabelecidas pelo investigador (similares aos stroop-tasks com uso de palavras). Consequentemente, esta tarefa requer a inibição da resposta dominante e a produção de uma resposta “conflito” baseada na memória
3 Por exemplo, a Colour-Word Stroop Task requer que os participantes ignorem a palavra escrita (e.g. azul) e respondam em função da cor em que a palavra está escrita (e.g. verde) (Pasalich et al., 2010).
57 operatória. Tal como na Stroop Task, esta tarefa implica que a criança suprima a tendência para responder de acordo com o que as imagens realmente representam, ativando uma resposta de conflito (Gerstadt et al., 1994).
Ao nível dos procedimentos a adotar, a versão original da DNT envolve a apresentação das imagens em cartões (16) que devem ser misturados de forma a criar uma ordem randomizada para cada participante. A ordem das imagens deve ser escrita numa ficha de respostas e ser comparada com os registos áudio das respostas dos participantes. Antes da tarefa começar, os participantes devem treinar as respostas com o investigador. Este deve pousar as imagens na mesa, uma de cada vez, e nesse instante o participante deve fornecer a resposta verbal. O teste deve ser considerado correto quando o participante fornece a resposta correta e somente esta, ou seja, considera-se incorreto mesmo quando o participante inicialmente erra e posteriormente corrige a sua resposta (idem).
Para esta investigação, foi criada uma versão computadorizada da tarefa em conformidade com a versão original, e na qual as imagens dia e da noite surgiam aleatoriamente no ecrã do computador. Com recurso a um comando os participantes devem carregar no botão identificado com a palavra “dia” sempre que surgisse uma imagem da “noite”, e no botão “noite” sempre que surgisse uma imagem do “dia”. Foram realizados 20 trials para cada criança, sendo que os 4 primeiros tiveram como objetivo treinar e aferir se a criança tinha percebido as regras da tarefa. As respostas foram classificadas em termos de precisão medida através do número de respostas corretas, atendendo-se também ao tempo de resposta. Posteriormente foi calculada a proporção de respostas certas no total de 16 trials.