Geada branca
18.9. Medidas para minimizar os efeitos da geada
• Local e época de plantio/semeadura
Por meio de modelos probabilísticos adequados pode-se estimar os níveis de risco de ocorrência de temperaturas mínimas absolutas e das geadas (Distribuição dos valores extremos - Gumbell), em diferentes locais e períodos do ano, com base em séries históricas dessas informações. O resultado deste tipo de análise possibilita a escolha dos locais e épocas de plantio/semeadura de modo a se evitar os mais críticos com relação à ocorrência de geadas.
Para o Estado de São Paulo, Camargo et al. (1993) determinou a probabilidade de ocorrência de temperaturas mínimas do ar (no abrigo meteorológico), indicadoras da ocorrência de geadas, em várias localidades (Tabela 18.3). As maiores probabilidades de ocorrência das baixas temperaturas são para Junho, Julho e Agosto, havendo, ainda, diferença entre os níveis de probabilidade em função da região. No litoral do Estado de São Paulo, a probabilidade é muito baixa em todos os meses. Na região de Barretos, a probabilidade é de até 5% no mês de Julho; em Campinas chega a 12%; e em Capão Bonito e Mandurí ultrapassa a 50%.
Tabela 18.3. Probabilidade (%) de ocorrência mensal de temperaturas mínimas do ar indicadoras de ocorrência de geadas no Estado de São Paulo. Adaptado de Camargo et al. (1993).
Mês Capão Bonito Mandurí Campinas Barretos
Maio 10 23 1 1
Junho 59 56 6 2
Julho 45 50 12 5
Agosto 43 38 4 1
Setembro 0 3 2 0
No Estado do Paraná, Grozki et al. (1996) verificaram haver maior risco de geada, mas há variação entre as diferentes regiões do Estado. Na região norte (Londrina, Cambará e Paranavaí) e oeste (Cascavel), as geadas são freqüentes entre Maio e Setembro, enquanto que nas regiões centro-sul e sul, as geadas ocorrem desde Abril até Novembro, restando somente quatro a cinco meses livres de geadas.
Em Santa Catarina, Massignam & Dittrich (1998) determinaram o número médio e a probabilidade mensal de geadas concluindo que ambos se devem principalmente à altitude. Foi verificado também que o maior número e a maior probabilidade de geada se dá em Junho e Julho. Em média, ocorrem 2 geadas por mês nas regiões com 400 m de altitude, e 4 geadas por mês nos locais com 800m. A probabilidade de gear é da ordem de 60% a 400 m, subindo para 90% a 800 m.
Na Figura 18.4 é apresentado o histograma mostrando a ocorrencia de Tmin ≤ 2 °C, entre Abril e Outubro, em Piracicaba. Observa-se que a maior frequência de geadas é nos meses de junho e junho, com cerca de 41 eventos, representando cerca de 74% das geadas observadas entre os anos de 1917 e 1999.
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
Abr Mai Jun Jul Ago Set Out
Fr e q üê nc ia
Fobs (geadas por mês) Frel (%)
Figura 18.4. Frequência observada (FObs, eventos por mês) e frequência relatiba (FRel, %) de ocorrência de geadas (Tmin ≤ 2ºC), entre abril e outubro, em Piracicaba, SP.
• Utilização de variedades resistentes
O conhecimento das temperaturas letais para as diferentes espécies cultivadas, tanto anuais como perenes, possibilita a escolha daquelas mais adequadas para cada região, em função do nível de tolerância às baixas temperaturas. Por exemplo, ao se implantar um pomar de abacate na região sul do estado de São Paulo, onde a probabilidade anual de gear é maior do que 60%, deve-se plantar a variedade Geada que tolera até -4oC, ao invés da
Pollock que resiste somente até -1oC.
18.9.1. Medidas topo e microclimáticas
As medidas topoclimáticas têm por base a localização correta dos cultivos na bacia hidrográfica (encostas, espigões, e terrenos convexos). Evitar as baixadas onde o ar se acumula. Quando os plantios forem na meia-encosta deve-se evitar que matas e culturas de porte alto estejam abaixo, servindo como barreiras ao escoamento do ar frio. Vegetação de porte maior deve ficar nas cabeceiras, diminuindo o fornecimento de ar frio para a bacia. No caso da mata ciliar, deve-se ralear o sub-bosque para permitir o escoamento do ar frio.
Em regiões muito sujeitas à geadas pode-se optar pela implantação das culturas próximo a grandes massas de água (lagos, rios, açudes, etc), pois devido ao efeito termo-regulador da água, os efeitos da baixa temperatura são reduzidos nas suas proximidades.
As medidas microclimáticas são também muito importantes, e podem ser de curto ou longo prazo. As medidas de curto prazo são:
¾ em espaçamentos maiores, deve-se manter o solo desnudo nas entrelinhas, no período sujeito a geadas, de Maio a Setembro (mato e palha seca resfriam mais o ar do que o solo nú, funcionando como isolante térmico);
¾ eliminar todo obstáculo ao escoamento de ar frio noturno para as baixadas (brisa catabática), para não haver represamento de ar frio próximo à cultura;
¾ chegamento de terra (ou cobertura total, no caso de mudas) junto aos troncos das plantas, para se evitar a geada de canela.
As medidas de longo prazo, são aquelas tomadas logo no plantio. São utilizadas, principalmente, em culturas perenes, como o cafeeiro, e consiste da arborização ou sombreamento das áreas. A arborização é feita de modo a sombrear cerca de 20 a 30% da área, utilizando-se espécies como a Grevillea robusta, Minomosa scrabella, seringueira, pinus, etc., que além de minimizarem os efeitos do vento frio, também reduzem a perda de energia radiante (ondas longas) pela cultura (Caramori et al., 1995). Em experimentos realizados no Paraná, Caramori (1997) identificou que o espaçamento mais indicado para a utilização de Grevillea na arborização de cafezais, em Terra Boa – PR, foi de 10x14m, correspondente a 71 árvores/ha, mantendo a produtividade obtida no cultivo a pleno sol, e ao mesmo tempo propiciou boa proteção contra geadas, sendo as temperaturas mínimas sempre 2 a 4oC mais elevada em relação ao cafezal sem arborização (Tabela 18.4).
Tabela 18.4. Produtividade de cafezais arborizados com Grevillea robusta a diferentes espaçamentos, em Terra Boa, PR. Fonte: Caramori (1997).
Espaçamento das árvores (m) Árvores / ha Prod. café beneficiado kg / ha
8 x 10,5 119 7440 10 X 14 71 8849 12 X 17,5 48 9554 14 X 21 34 9233 16 X 24,5 26 8519 Pleno Sol 0 8744
Na Tabela 18.5 são apresentados os dados obtidos por Caramori (1997) de produtividade acumulada em cafezais arborizados com Minosa scrabella, durante o período de 1986 a 1994, quando ocorreram 5 geadas moderadas e 4 severas, em Londrina - PR. Foi nítido o efeito da arborização no balanço de radiação, minimizando o resfriamento e consequentemente os danos na cultura.
Tabela 18.5. Produtividade acumulada de cafezais arborizados com Mimosa scrabella submetidos a geadas de 1986 a 1994, em Londrina - PR. Fonte: Caramori (1997).
Densidade de Arborização (árvores/ha) Prod. café beneficiado (kg/ha)
Sem Arborização 4340
50 6584 83 6641 250 7229
18.9.2. Uso de produtos químicos
O uso de produtos químicos para combater geada baseia-se no princípio de que elevando-se a concentração de solutos na planta, o ponto de congelamento deve cair, aumentando-se a tolerância dessas plantas às baixas temperaturas. Os produtos utilizados, ainda em fase experimental, são: inseticidas sistêmicos (Disyston 85% e Thimet 95%); e adubos minerais (cálcio e potássio). A aplicação desses produtos deve ser feita com antecedência de alguns meses, e parceladamente. Porém, resultados a campo que comprovem a eficiência desse método são ainda inexistentes.
18.9.3. Proteção direta (no dia de ocorrência)
São aquelas realizadas no momento da ocorrência da geada e devem ser antecipadamente planejadas, porque sua utilização requer grande disponibilidade de mão de obra e treinamento, para que seja rápida e eficiente. Entre essas medidas estão:
• Nebulização artificial da atmosfera
Consiste na preparação de uma neblina artificial sobre a cultura. Essa neblina pode ser de dois tipos, aquosa e oleosa. A primeira, é produzida pela injeção na atmosfera de núcleos de condensação (partículas higroscópicas), como o ácido clorídrico (Brita Geada); a segunda, é produzida em termo-nebulizadores, normalmente por mistura de óleo diesel com serragem. Os nebulizadores devem ser localizados no alto do terreno, próximo à cabeceira da bacia hidrográfica. Deve-se iniciar a neblina quando um termômetro colocado na parte mais baixa do terreno acusar 2oC.