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3 NEGLIGÊNCIA: A VIOLÊNCIA MAIS PRATICADA CONTRA CRIANÇAS E

3.3 MEDIDAS PROTETIVAS DO ESTATUTO INFANTOJUVENIL

As medidas protetivas visam à salvaguarda de crianças e adolescentes que sofreram ameaça ou lesão aos seus direitos previstos em lei, haja vista a preocupação de tentar impedir que a violação de fato aconteça (TAVARES, 2014). Tais medidas encontram-se expostas no artigo 101 do ECA, in verbis:

Art. 101. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98, a autoridade competente poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:

I – encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade;

II – orientação, apoio e acompanhamento temporários;

III – matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental;

IV – inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente;

V – requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial;

VI – inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;

VII – acolhimento institucional;

VIII – inclusão em programa de acolhimento familiar; IX – colocação em família substituta. (BRASIL, 1990).

Destaca-se que o rol não é taxativo, permitindo a aplicação de outras medidas que sejam adequadas para o caso em concreto, dependendo, portanto, do entendimento das autoridades competentes (TAVARES, 2014). Na oportunidade, cumpre mencionar outras medidas que podem ser aplicadas, como o afastamento da moradia comum da família, prevista no artigo 130 do ECA.

No mais, cumpre trazer a baila o artigo 98 do Estatuto da Criança e do Adolescente:

Art. 98. As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados:

I – por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; II – por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; III – em razão de sua conduta. (BRASIL, 1990).

De acordo com o artigo exposto, observa-se a abrangência de aplicação das medidas de proteção, onde demonstram que não somente responderá o agente pela ação, ou seja, a conduta ativa de causar dano à criança ou ao adolescente, mas também pela omissão - a conduta passiva que reflete danos aos tutelados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (VATANABE, 2017).

Quanto ao negligenciado, o legislador não se preocupou em delimitar a aplicação das medidas, portanto, entende-se que não há discriminação na aplicação das medidas protetivas presentes no ECA, “bem como de outras que o caso em concreto e o aplicador da lei irão impor especialmente, desde que enquadrados na

pessoa “criança ou adolescente”, como determina a norma” (VATANABE, 2017, p.

45). Neste caso, observa-se a aplicação do princípio da proteção integral, visto no Capítulo 2, visto que a abrangência da norma de direito da criança e do adolescente se dá de forma ampla e igualitária, “possuindo característica essencialmente protetiva em sua plenitude, mesmo quando é a própria criança ou o próprio adolescente que inflige danos a si mesmo” (MACIEL, 2014, p. 31).

No mais, quanto à aplicação das medidas de proteção, além de se buscar aquela mais adequada ao caso concreto, destaca-se que há possibilidade de cumulação e substituição, consoante o artigo 99 do ECA: “As medidas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como

substituídas a qualquer tempo” (BRASIL, 1990). O referido dispositivo demonstra

que a fixação de uma medida de proteção, a depender do caso, não é definitiva, podendo ocorrer a sua substituição: “uma medida pode acabar não sendo tão eficaz diante de alguma mudança, portanto não teria sentido continuar aplicando uma medida que não surta os efeitos perqueridos pela norma, daí a importância dessa maleabilidade em relação à substituição das medidas de proteção” (VATANABE, 2017, p. 46). Outrossim, em relaçãoà cumulatividade, esta é semelhante aos preceitos da substituição, uma vez que, em determinados casos, diante das condições avistadas, a aplicação cumulativa de duas ou mais medidas de proteção oferece melhor salvaguarda dos direitos da criança ou adolescente, ante a negligência sofrida.

Por isso, é de suma importância a observação dos princípios impostos pela lei, uma vez que visam orientar o aplicador da medida de proteção na busca da mais adequada possível, levando-se em conta as características do caso.

No mais, diante da negligência praticada, o julgador pode, ainda, aplicar a multa prevista no artigo 249 do Estatuto da Criança e do Adolescente, ante o descumprimento dos deveres do poder familiar:

Art. 249. Descumprir, dolosa ou culposamente, os deveres inerentes ao poder familiar ou decorrente de tutela ou guarda, bem assim determinação da autoridade judiciária ou Conselho Tutelar:

Pena - multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência (BRASIL, 1990).

Além das medidas mencionadas, em determinados casos, conforme se observará em casos concretos expostos no Capítulo 4, pode o magistrado determinar a suspensão ou a perda do poder familiar, se verificado a ocorrência da negligência, a depender do caso concreto, consoante extrai-se dos artigos 22 e 24 do ECA, respectivamente:

Art. 22. Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais.

Parágrafo único. A mãe e o pai, ou os responsáveis, têm direitos iguais e deveres e responsabilidades compartilhados no cuidado e na educação da criança, devendo ser resguardado o direito de transmissão familiar de suas crenças e culturas, assegurados os direitos da criança estabelecidos nesta Lei.

Art. 24. A perda e a suspensão do poder familiar serão decretadas judicialmente, em procedimento contraditório, nos casos previstos na legislação civil, bem como na hipótese de descumprimento injustificado dos deveres e obrigações a que alude o art. 22 (BRASIL, 1940).

Nota-se, portanto, que todos os princípios elencados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente “perfazem observação obrigatória, a fim de nortear a aplicação das medidas de proteção contidas” (VATANABE, 2017, p. 46). Outrossim, percebe-se que o conteúdo da lei “demonstra que o legislador se preocupou em pormenorizar diretrizes na aplicação das medidas protetivas, sem as quais estaria prejudicada a efetividade da tutela do direito infanto-juvenil” (VATANABE, 2017, p. 47).

4 DECISÕES DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA:

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