1 O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, A DOUTRINA DA
2.4 Medidas protetivas x Medidas socioeducativas
O ECA propõe medidas de proteção, tendo como destinatários as crianças e os adolescentes, nas circunstâncias estabelecidas pelo artigo 98, sempre que estes encontrarem- se em situação de risco, ou seja sempre que seus direitos forem ameaçados ou violados por ação ou omissão da sociedade ou do Estado, por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsáveis, e em razão de sua conduta. As medidas aplicáveis são as estabelecidas pelo artigo 101 do ECA (SARAIVA, 2002).
Já as medidas socioeducativas se aplicam aos adolescentes autores de ato infracional, após apurada a responsabilidade, mediante o devido processo legal. Essas medidas estão previstas no artigo 112 do ECA.
Compete ao Conselho Tutelar e ao Juiz da Infância e Juventude a aplicação das medidas de proteção, havendo entre eles competência concorrente. O Conselho Tutelar é órgão permanente e autônomo, de natureza não jurisdicional, encarregados pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos das crianças e dos adolescentes, devendo estar organizado ao menos um em cada Município, sendo compostos por cinco membros, eleitos por mandatos de três anos, escolhidos pela comunidade local (SARAIVA, 2002).
Medidas Protetivas, conforme Tavares (2011, p. 679) são:
[...] providências que visam salvaguardar qualquer criança ou adolescente cujos direitos tenham sido violados ou estejam ameaçados de violação. São, portanto, instrumentos colocados à disposição dos agentes responsáveis pela proteção das crianças e adolescentes, em especial, dos conselheiros tutelares e da autoridade judiciária a fim de garantir, no caso concreto, a efetividade dos direitos da população infanto-juvenil.
No entendimento dos Autores Costa e Porto (2013, p. 180) a adoção das referidas medidas “[...] trouxe aos países signatários o compromisso de adotar medidas apropriadas para estimular a recuperação física e psicológica, bem como promover a reintegração social de toda criança vítima de abandono, exploração ou abuso.”
Conforme anteriormente trabalhado, as medidas protetivas estão elencadas no art. 98 do ECA. O Art. 101, por sua vez elenca diversas medidas que poderão ser aplicadas para crianças e adolescentes que estiverem em situação de risco social.
Por diversas condições da existência humana, conforme Tavares (2011, p. 680) “[...] aqueles que em princípio seriam os responsáveis por acastelar crianças e adolescentes – o Estado, a sociedade e a família -, podem ser quem primeiro os coloca em risco.”
No que diz respeito ao primeiro inciso do art. 98 do ECA pode ser citado como exemplo, conforme Tavares (2011) crianças e adolescentes sem acesso a escola, saúde, ou
ainda aquelas em situação de rua, de exploração sexual ou usuários de drogas, os quais necessitam de políticas públicas e efetivas para efetuarem tratamento.
Já o inciso segundo expõe a situação em que a criança ou adolescente tornam-se vítimas da ação ou omissão no núcleo familiar. Conforme Tavares (2011, p. 681) esta “hipótese está diretamente ligada às crianças ou aos adolescentes cujos pais são falecidos, ausentes ou são desconhecidos.”
Por fim, outro motivo que justifica a aplicação de medida protetiva em favor de determinada criança ou adolescente é a sua própria conduta, quando esta se mostra incompatível com as regras que conduzem a vida em sociedade. O adolescente ou a criança que cometem ao infracional ou que praticam atos capazes de colocá-los em risco, embora não ilícitos, tais como a ingestão sistemática de bebidas alcoólicas, são exemplos clássicos desta situação.
As medidas de proteção elencadas no art. 101 do ECA, conforme Tavares (2011, p. 682) “[...] não constituem rol taxativo, pelo que devem as autoridades competentes estar sempre atentas para outras possibilidades de atuação para além daquelas especificadas.”
A primeira do rol do art. 101 “[...] consiste no encaminhamento da criança ou do adolescente aos pais ou responsáveis.” Tal medida caberá “[...] quando a criança ou adolescente estiver, de forma injustificada, fora da companhia daquele que possui sua guarda por força do poder familiar ou em virtude do exercício do encargo de guardião ou tutor [...]”. Conforme Tavares (2011, p. 688) pode ser citado como exemplo:
a constatação, pelo Conselho Tutelar, de que uma criança está perdida na rua ou de que determinado adolescente está em espetáculo noturno onde não é permitido o seu ingresso ou a sua permanência, sem a presença de seus responsáveis. Neste caso deverá o conselheiro tutelar prontamente providenciar o seu retorno ao lar, sem, no entanto, abrir mão da formalização do ato, por meio da lavratura de “termo de entrega” ou outro documento semelhante.
Segundo Tavares (2011) a segunda medida de proteção elencada no art. 101 do ECA é a orientação, apoio e acompanhamento temporários da criança ou do adolescente. Esta será aplicada quando não cessar por completo a situação de risco que ensejou a intervenção da autoridade competente. Exemplo dessa situação seria quando constatado que um adolescente está frequentando locais inadequados para sua faixa etária, não aceitando a aplicação de regras e limites impostos
“A terceira medida de proteção consiste na matrícula e na determinação de frequência obrigatória em estabelecimento oficial de ensino fundamental”. Tal medida se aplica quando “verificado que determinada criança ou adolescente não cumpriu todas as sérias anuais ou ciclos do ensino fundamental e está fora dos bancos escolares.” (TAVARES; 2011, p. 689).
No que tange a quarta medida de proteção elencada pelo art. 101 do ECA, conforme Tavares (2011, p. 689) consiste na:
inclusão de programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente. [...] Nestes casos, caberá à autoridade responsável pesquisar a rede de atendimento existente na localidade de residência da criança ou do adolescente, identificando o programa mais adequado às suas necessidades e de todos os integrantes de seu núcleo familiar.
São exemplos de programas o SUAS – Sistema Único de Assistência Social, PAIF – programa de Atenção Integral à Família, BPC – Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social, Bolsa Família, Brasil sem Miséria, dentre outros (MDS).
A quinta e sexta medidas de proteção consistem na requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial e inclusão de criança e adolescente em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. “Ambas providências vinculam-se ao direito à saúde que, em se tratando de crianças e adolescentes deve ser garantido de forma prioritária” (TAVARES, 2011, p. 690).
A sétima medida de proteção é o acolhimento institucional, denominado antigamente como abrigo. Tal expressão foi alterada pela Lei nº 12.010/2009. De caráter excepcional e provisório, uma vez aplicada, tal medida enseja na retirada da criança ou do adolescente do convívio familiar ou da comunidade em que está inserido. Ocorre normalmente “[...] em razão de abandono ou após a constatação de que a manutenção na família ou no ambiente de origem não é a alternativa mais apropriada ao seu cuidado e à sua proteção”. Esta medida deve ser utilizada “[...] como forma de transição para reintegração familiar ou, não sendo esta possível, para colocação em família substituta, não implicando em privação da liberdade” (TAVARES, 2011, p. 691). Neste diapasão a autora ainda estabelece que no:
parágrafo 1º do art. 19 do ECA determina que a reavaliação da medida de acolhimento institucional ou familiar ocorra, no máximo, a cada 06 (seis) meses, devendo a autoridade judiciária competente, com base em relatório da equipe interprofissional ou multidisciplinar, decidir de forma fundamentada pela possibilidade de reintegração familiar ou colocação em família substituta, em quaisquer das modalidade previstas no art. 28 da lei [...] O parágrafo 2º do art. 19 ainda estabelece como tempo máximo para a permanência no programa de acolhimento institucional, o prazo de 02 (dois) anos.
A oitava medida de proteção elencada no art. 101 do ECA consiste na inclusão em programa de acolhimento familiar. Conforme Tavares (2011, p. 694):
entende-se por acolhimento familiar o encaminhamento, pela autoridade judiciária, de determinada criança ou adolescente, à entidade que desenvolve programa homônimo, mediante a concessão de guarda provisória à casal previamente cadastrado, em razão do abandono, ou após a constatação de que a manutenção na família de origem não é a alternativa mais apropriada ao seu cuidado e à sua proteção. É medida que surge como opção ao acolhimento em instituição, devendo preferi-la, quando da decisão de afastamento da criança ou do adolescente do convívio com a família. Esta é a regra que hoje consta do art. 34 do ECA que, além de prever o estímulo do Poder Público a este programa, por meio de assistência jurídica, incentivos fiscais e subsídios, estabelece expressamente que “a inclusão de criança ou adolescente em programas de acolhimento familiar terá preferência a seua colhimento institucional, observado, em qualquer caso, o caráter temporário e excepcional da medida” (art. 34, parágrafo 2º, do ECA).
Assim como o acolhimento institucional o acolhimento familiar será reavaliado a casa seis meses, podendo prorrogar-se no máximo até dois anos, sendo de competência exclusiva da autoridade judiciária (TAVARES, 2011).
Por fim a última medida de proteção será a colocação em família substituta. Assim como o acolhimento familiar e institucional é de competência exclusiva da autoridade judiciária (TAVARES, 2011).
Saraiva (2002) diz que além das medidas de proteção o ECA estabelece em seu Art. 112 medidas socioeducativas aplicáveis a adolescentes autores de ato infracional. Estas dividem-se em meio aberto, sendo advertência, reparação de dano, prestação de serviços à comunidade e liberdade assistida e as de privação de liberdade, semiliberdade e internamento, sempre que estiverem presentes as hipóteses do art. 122 do ECA, ou seja tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência a pessoa; por reiteração no cometimento de outras infrações graves e por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta. Tais medidas serão aplicadas exclusivamente pelo Juiz.
Saraiva (2009) explica que a medida socioeducativa tem natureza punitiva, mas deve constituir-se em elemento pedagógico imprescindível à construção da própria essência da proposta educativa. Logo só pode ser sancionável o adolescente que cometer determinados atos típicos (crimes ou contravenções penais).
Ainda assim, para sofrer a ação estatal visando a sua socioeducação haverá de esta conduta ser reprovável, ser passível desta resposta socioeducativa que o Estado sancionador pretende lhe impor, na medida em que o Ministério Público, na Representação que oferece, deduz a pretensão socioeducativa do Estado em face do adolescente ao qual atribui a prática de ato infracional (SARAIVA, 2009, p. 102).
Dentro destas medidas há ainda aquelas com restrição da liberdade, que devem ser aplicadas somente em casos de extrema necessidade, sendo de inserção em regime de semiliberdade, possibilitando a realização de atividades externas. Nestes casos é obrigatória a escolarização e a profissionalização do adolescente. Esta medida não comporta prazo determinado. A internação em estabelecimento educacional constitui medida de privação de liberdade, em estabelecimento específico para internação de adolescente, respeitando sempre a condição de pessoas em desenvolvimento, idade e compleição física e gravidade de infração. Quando da aplicação desta, e quando não houver ordem judicial em contrário, será permitida a realização de atividades externas. A internação deve ser reavaliada a cada seis meses, por equipe técnica, sendo que o período máximo será de três anos. A partir do momento em que o adolescente atinge o limite estabelecido na medida ele deve ser liberado ou colocado no regime de semiliberdade ou em liberdade assistida. Nos casos em que o adolescente comete ato infracional com quase dezoito anos e passa a cumprir esta medida, a liberdade será compulsória ao completar 21 anos de idade (COSTA; PORTO, 2013).
Só será cabível medida de internação em estabelecimento educacional quando o ato infracional for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, em casos de reiteração de cometimento de atos infracionais graves ou ainda por descumprimento reiterado ou injustificável de medida anteriormente aplicada, sendo que a internação este último caso não poderá ultrapassar três meses (ANGHER, 2012).
A internação consiste em uma medida privativa de liberdade sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade, devendo ser aplicada somente a adolescentes autores de ato
infracional, levando sempre em consideração a condição especial de pessoa em desenvolvimento (COSTA; PORTO, 2013).
Devido ao caráter excepcional a internação deve ser aplicada com absoluta cautela, haja vista os efeitos que podem ocasionar ao jovem infrator. Somente deve ser aplicada se não houver nenhuma outra medida mais branda cabível, e nos casos específicos definidos pelo ECA.
Conforme Costa e Porto (2013), a internação não pode ultrapassar o período de três anos, devendo ser reavaliada a cada seis meses. Em caso de duas internações em processos distintos, por prática de atos infracionais diversos, é possível ultrapassar os três anos. Haverá A liberação compulsória do adolescente só ocorre aos 21 anos. As autoras ainda afirmam que o art. 122 é composto de rol taxativo, ou seja, somente cabe internação nas hipóteses elencadas no ECA.
Apesar das drogas estarem diretamente ligadas ao cometimento de atos infracionais, principalmente crimes contra o patrimônio, há jurisprudências do STJ e STF com o entendimento que “O tráfico de drogas, por ser cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa, sendo o jovem primário, a internação não é possível.”
Para corroborar tal entendimento há a Súmula nº 718 do STF que dispõe que “a opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposição de regime mais severo do que o permitido segunda a pena aplicada.” Nesse sentido:
No que diz respeito à aplicação de internação nos casos de reiteração de infrações previstas no inciso II do art. 122, caberá quando houver a prática de pelo menos três infrações graves, conforme informativo nº 235 (HC 37. 939-RJ, Rel. originário Min. Hélio Quaglia Barbosa, Rel. para acórdão Min. Hamilton Carvalhido, julgado em 15.02.2005) (COSTA; PORTO, 2013, p. 203).
Ainda ocorrerá internação nas hipóteses do art. 122, III do ECA, nos casos de regressão, onde o adolescente descumpre de maneira reiterada e injustificada a medida socioeducativa mais branda. Neste caso, conforme Costa e Porto (2013, p. 203) “será por período máximo de três meses.”
Analisando o impacto da medida socioeducativa de internação da vida dos jovens, Pelosini (2011) apresenta um estudo, desenvolvido a partir de um projeto de extensão universitária em unidades da FEBEM/SP com a pretensão de realizar um acompanhamento psicológico oferecido aos adolescentes autores de ato infracional grave. Para a realização do estudo foram ouvidos o relato de experiência do atendimento psicológico fornecido a 03 adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação.
[...] A FEBEM é uma instituição que deve oferecer aos jovens educação regular, atividades culturais, esporte e lazer, no entanto, em alguns momento percebemos a FEBEM funcionando como uma instituição total. Goffman (1961 apud Morato et.al.,2005) afirmam que pode ser caracterizada desta forma por ser um local de residência e trabalho, com várias pessoas vivenciando a mesma situação, os jovens são separados da sociedade e possuem um vida formalmente administrada. Além disso, tudo que ocorre dentro da instituição é relatado ao Juiz que deu a sentença ao jovem. É um ambiente em que existe uma vigilância constante e em que o comportamento é tido como algo possível de mensuração. (PELOSINI, 2011, p. 57).
Conforme o ECA estas instituições não devem ser equiparadas a penitenciárias, devido a condição de pessoa em desenvolvimento. Devido a estes e tantos outros problemas é que ocorrem fugas destas instituições, bem como toram-se ainda mais prejudiciais para aqueles adolescentes carentes de tudo que cometem atos infracionais. Para amenizar esta situação Morato et al (apud PELOSINI, 2011, p. 57) descreve como era o trabalho dos psicólogos no interior da FEBEM/SP:
O plantão psicológico encontra seu lugar como um pronto-atendimento aos adolescentes que são atendidos no momento em que há a emergência de uma determinada questão e tenta diminuir a institucionalização do jovem e um contato com a sua história e escolhas Este trabalho não era submetido à dinâmica institucional e se o adolescente não quisesse comparecer ao atendimento não havia nenhum tipo de punição em relação a isso, não havia nenhum tipo de informação dos adolescentes para a equipe técnica da instituição, visto que, a ideia é romper com a vigilância constância. A criação do vínculo de confiança com o adolescente facilita a comunicação do adolescente sem que ele tenha medo de ser julgado ou punido. Este espaço do plantão possibilita ao adolescente pensar mais sobre as suas questões individuais e se afastar um pouco do ambiente institucionalizado da FEBEM. É possível perceber nos atendimentos que há um “engessamento” do comportamento dos jovens, entravam na sala com as mãos para trás, com a cabeça abaixada e chamavam os profissionais de senhor ou senhora. O plantão psicológico resgatava a esperança de um sujeito autônomo existente dentro dos jovens. O adolescente dentro da FEBEM não deveria perder o seu direito de expressão, de integridade e de dignidade. É interessante que o trabalho do psicólogo seja realizado no sentido de não emitir julgamentos ou interpretações e sim que traga a possibilidade da reflexão e da história de vida destes jovens que em muitos momentos é negada pela instituição. A partir da experiência do plantão psicológico foi evidenciada a necessidade de fazer do plantão não somente um local de escuta da queixa trazida pela juiz e sim de um local em que vai além da queixa e que se aproxima de um
“fazer clínico próprio de um processo terapêutico. Aquilo que se procura não é algo que vai acontecer lá no fim do processo, mas algo que se dá passo a passo.”
Uma pesquisa a respeito das medidas socioeducativas de internação realizada com 15 profissionais em uma unidade de internação de Taubaté em que o diretor, durante a sua gestão, proibiu qualquer tipo de violência física, tentando minimamente seguir o que é proposto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A mesma tinha o objetivo de analisar a representação social das mudanças das práticas socioeducativas na FEBEM a partir da perspectiva dos funcionários/profissionais. Mudança esta relacionada à violência física. Para os profissionais violência física significa consolidação dos métodos tradicionais da instituição e o não cometimento da violência contribui para a busca da prática socioeducativa que não é vista como sendo sempre possível.
[...] Apesar de essa mudança ter ocorrido apenas dentro de uma unidade de internação, a ideia era de que isso provocasse uma mobilização nas outras unidades [...] Os procedimentos considerados de “segurança” no cotidiano como deixar os jovens sentados por horas no pátio e só deixá-los se levantar pedindo autorização a um dos funcionários e a obrigação do jovem em andar com as mãos para trás dentro da instituição foram abolidos; Os jovens podiam andar livremente pelos pátios e somente o diálogo poderia ser utilizado para resolver os conflitos; Foi privilegiado os trabalhos com a família, o vínculo com os jovens dentro da FEBEM e a parceria com a comunidade. (LIMA, 2006). Estas mudanças ocasionaram muita resistência entre os funcionários, os antigos não queriam refletir sobre o assunto e os novos não se sentiam a vontade com a metodologia da instituição. Apesar das resistências foi fundamental o movimento de pequenos grupos que acreditam na mudança. O diretor não deu continuidade a sua proposta porque foi transferido para uma unidade de crianças e jovens “abandonados”. Não existe uma proposta socioeducativa dentro da FEBEM. Existe uma escassez de funcionários (incluindo má formação), superlotação das unidades e espaço físico inadequado. A FEBEM não respeita os direitos dos adolescentes e é uma instituição resistente a mudanças. (LIMA, 2006). No entanto, este estudo mostrou que é possível ocorrer mudanças nas práticas institucionais se ocorrerem mudanças nas representações sociais dos funcionários da
FEBEM. (PELOSINI, 2011, p. 34).
No ano de 2008, outro estudo foi realizado, conforme Pelosini (2011) com cinco adolescentes que cumpriam medida socioeducativa de internação para discutir sobre a maneira como os adolescentes significam e subjetivam suas vidas a partir da família, da justiça e da medida socioeducativa de internação, bem como verificar como as instituições envolvidas no cumprimento da medida socioeducativa, tratam estas questões.
É comum encontrar na mídia notícias sobre rebeliões, maus tratos, mortes e superlotações nas antigas Fundações Estaduais de Bem Estar do Menor (FEBEM), estas notícias corroboram para a ideia de que os adolescentes autores de atos
infracionais são responsáveis pela violência urbana[...] Isto faz sentido se pensarmos que nos relatos dos adolescentes entrevistados neste artigo foi encontrado o discurso das instituições, juízes e técnicos. A família é uma referência muito importante na vida dos adolescentes, no entanto, os adolescentes e as famílias são subjetivados pelo discurso da mídia e acreditam que a família é a causa para o cometimento do ato infracional. Existe uma grande distância entre o discurso formal da justiça e o adolescente, visto que, nas entrevistas realizadas foi percebido que muitos