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1 O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, A DOUTRINA DA

2.2 Medidas protetivas X Medidas socioeducativas

Os direitos da criança e do adolescente estão assegurados no artigo 227 da Constituição Federal, estabelecendo como obrigados a família, a sociedade e o Estado, como já referido anteriormente.

Partindo daí, o artigo 98 do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que as medidas de proteção serão aplicadas sempre que houver ameaça ou violação dos direitos estabelecidos no próprio Estatuto, por ação ou omissão da sociedade ou do Estado, por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsáveis, bem como em razão da conduta do menor.

Nas palavras de Edson Sêda (2002, p. 303), o artigo 98 é o “coração do Estatuto, uma vez que, com este artigo, o legislador rompe com a doutrina da „situação irregular‟, que presidia o Direito anterior, e adota a doutrina da „proteção integral‟.”

Como já explanado, as crianças podem ser autoras de ilícitos penais, todavia não serão processadas e submetidas a qualquer espécie de sanção, recaindo sobre elas uma das medidas de proteção previstas no artigo 101 do Estatuto da Criança e do Adolescente, sendo elas:

I - encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade;

II - orientação, apoio e acompanhamento temporários;

III - matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental;

IV - inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente;

V - requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial;

VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;

VII - acolhimento institucional;

VIII - inclusão em programa de acolhimento familiar; IX - colocação em família substituta.

Estas medidas possuem natureza estritamente pedagógica, com o objetivo de fortalecer os vínculos familiares e comunitários, conforme se depreende do artigo 100 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Ainda, os artigos 119, II, 120, prágrafo 1º e 123 parágrafo único ratificam a importância das atividades pedagógicas, sendo estas obrigatórias, visando o resgate da pessoa humana (adolescente infrator), inimputável penalmente, mas que cometeu o ilícito penal.

Já as medidas socioeducativas visam responsabilizar os adolescentes que cometerem um ato infracional. Saraiva (2002, p. 63) refere que é fundamental que exista clareza de que o ECA impõe sanções aos adolescentes autores de atos infracionais, e que a aplicação destas sanções, que podem interferir, limitar e suprimir temporariamente a liberdade dos jovens, deve se dar dentro do devido processo legal, sob princípios extraídos do direito penal, e especialmente da ordem constitucional que assegura os direitos de cidadania.

O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece algumas condições que orientam a aplicação das medidas socioeducativas nos artigos 112, 113 e 121, como será visto.

Além de estabelecer as medidas que podem ser aplicadas aos adolescentes que praticarem ato infracional, os parágrafos do artigo 112 estabelecem alguns requisitos que devem ser observados, sendo eles:

§ 1º A medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua capacidade de cumpri-la, as circunstâncias e a gravidade da infração.

§ 2º Em hipótese alguma e sob pretexto algum, será admitida a prestação de trabalho forçado.

§ 3º Os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental receberão tratamento individual e especializado, em local adequado às suas condições.

Sobre o parágrafo 1º, Olympo Sotto Maior (2002, p. 365) descreve que “[...] a medida aplicada ao adolescente deve levar em conta sua capacidade de cumpri-la, ou seja, que apresente condições de exerqüilidade [sic] [...]”, ou seja, a imposição de uma medida que não possa ser cumprida “acabaria reforçando juízo negativo de incapacidade ou inaptidão para as coisas da vida”, assim tal medida não traria benefícios ao adolescente, mas sim prejuízos a sua personalidade.

O parágrafo 2º do artigo em comento veda a prestação de trabalho forçado. Segundo Maior (2002, p. 366), “[...] o trabalho, como instrumento educacional e emancipatório, somente contribuirá para a formação do adolescente se contar com seu consentimento [...]” Essa norma encontra respaldo no artigo 5º da Constituição Federal, onde em seu inciso XLVII, alínea “c”, veda as penas de trabalhos forçados:

Já o parágrafo 3º determina que os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental, devem receber tratamento individual e especializado em local adequado a suas condições. A regra já se encontrava estabelecida no Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 11, parágrafo 1º, e na própria Constituição Federal, no artigo 227, parágrafo 1º, inciso II, o qual prevê que:

§ 1º O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança, do adolescente e do jovem, admitida a participação de entidades não governamentais, mediante políticas específicas e obedecendo aos seguintes preceitos:

[...]

II - criação de programas de prevenção e atendimento especializado para as pessoas portadoras de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente e do jovem portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do

acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação.

Para Maior (2002, p. 366), “o não oferecimento ou a oferta irregular do tratamento individual e especializado [...] poderá dar ensejo à propositura de ação civil pública destinada à efetivação do multicitado [sic] direito.”

Por sua vez, o artigo 113 do Estatuto, que também estabelece princípios para a aplicação das medidas, nos remete aos artigos 99 e 100. O artigo 99 refere-se à permissão legal das medidas serem aplicadas isolada ou cumulativamente e substituídas a qualquer tempo. Já o artigo 100, dispõe que deverá ser levado em conta as necessidades pedagógicas. Segundo Marli Marlene Moraes da Costa (2013, p. 194):

O objetivo central do sistema é manter um modelo que valorize a convivência comunitária e a educação, e nada mais adequado do que ampliar essas possibilidades através das medidas de proteção. Ou seja, deve-se atentar às necessidades do adolescente, optando-se pelas medidas que garantam a proteção também à família e a sociedade.

O parágrafo único do artigo 100, com redação dada pela Lei 12.010/2009, estabelece os princípios norteadores da aplicação das medidas, sendo eles: condição dos menores como sujeitos de direitos, proteção integral e prioritária, responsabilidade primária e solidária do poder público, interesse superior da criança e do adolescente, privacidade, intervenção precoce, intervenção mínima, proporcionalidade e atualidade, responsabilidade parental, prevalência da família, obrigatoriedade de informação e a oitiva obrigatória e participação.

Além das medidas socioeducativas, também há previsão da remissão no artigo 126 do Estatuto, a qual, conforme expresso por Liberati (2010, p. 144), configura o perdão do ato infracional cometido pelo adolescente, sendo uma espécie de transação.

A remissão é concedida pelo Ministério Público, uma vez que, conforme preceitua o artigo 129, inciso I, da Constituição Federal, é o órgão competente para exercitar o direito de promover a ação penal pública, mas a execução é atribuição da autoridade judiciária.

O artigo 114 do Estatuto dispõe que a imposição das medidas de obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, inserção em regime de semiliberdade e internação em estabelecimento educacional, pressupõe a existência de provas suficientes de autoria e materialidade da infração, garantindo, assim, o devido processo legal e a ampla defesa. As medidas de remissão e advertência independem da prova, conforme dispõe do parágrafo 1º do referido artigo.

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