PARTE I - Enquadramento Conceptual e Empírico
Capítulo 1. Teoria e Investigação da Vinculação
1.4. Metodologias de avaliação da vinculação
1.4.2. Medidas representacionais
1.4.2.2. Medidas representacionais para a idade adulta
No que diz respeito à avaliação da vinculação na idade adulta, destacamos a Adult
Attachment Interview (AAI; George, Kaplan, & Main, 1985). Trata-se de uma entrevista
semi-estruturada, de tipo clínico, de natureza biográfica, destinada a avaliar a segurança do modelo interno dinâmico da vinculação ou a segurança do self relativamente à vinculação de um modo global e não relativamente a uma relação específica presente ou passada. As questões da AAI centram-se nas relações de vinculação na infância e no significado atribuído actualmente às experiências passadas (Main et al., 1985). O entrevistado é estimulado a recordar episódios e acontecimentos ilustrativos de experiências passadas – memória episódica – e a avaliar o impacto dessas experiências no desenvolvimento da sua personalidade e das relações de vinculação – memória semântica.
A cotação da AAI, segundo o sistema de cotação de Main e Goldwyn (1984,1998), permite classificar a representação dos adultos, acerca da vinculação com os seus
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prestadores de cuidados, classificando os seus modelos internos dinâmicos em três categorias (semelhantes às identificadas na Situação Estranha): a categoria F,
Seguro/Autónomo (adultos que descrevem diversas experiências da infância, mantêm uma
visão equilibrada das relações precoces, valorizam as relações de vinculação e consideram que as experiências relacionadas com a vinculação influenciam o desenvolvimento); a categoria D, Inseguro/Desligado (correspondente à classificação inseguro-evitante, indivíduos que negam ou desvalorizam o impacto das relações precoces, têm dificuldade em se lembrar de determinados episódios específicos, idealizam experiências ou descrevem uma história precoce de rejeição); a categoria E, Inseguro/Emaranhado ou
Preocupado (correspondente à classificação inseguro resistente-ambivalente, adultos que
manifestam confusão sobre as experiências passadas, e as relações actuais com os pais são marcadas por raiva ou passividade). Para além destas três categorias, Main e Goldwyn (1984/1998) identificaram uma outra, categoria U/d, que designam de Estatuto Não
Resolvido/Desorganizado. Corresponde a experiências traumáticas relacionadas com
perdas ou experiências de abuso, em que os adultos revelam lapsos na monitorização do raciocínio ou do discurso, assim como pensamento desorganizado e desorientado na análise de experiências perturbadoras de abuso ou perda. Existe ainda uma categoria adicional, Categoria CC – “Cannot Classify”- que integra os casos que não se podem classificar de acordo com o sistema de Main e Goldwyn (1984/1998). Nestes casos não se encontra uma organização predominante em relação à vinculação, podendo verificar-se incoerência, com mudança do tipo de organização ao longo da entrevista (Hesse, 1996).
Para além da investigação, com base na AAI, surgem outros trabalhos, com outro tipo de instrumentos. É o caso das medidas de auto-relato que constituem uma enorme diversidade e que permitem a avaliação da vinculação do adulto. Hazan e Shaver (1987) desenvolveram o primeiro questionário que pretendia traduzir para a idade adulta, no
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âmbito da relação amorosa, o mesmo sistema de classificação de três categorias, que Ainsworth desenvolveu para a infância. Iniciam uma segunda linha de investigação, no domínio da vinculação do adulto, ao investigar o amor romântico como forma de vinculação, focando-se na relação com o companheiro e não nas relações parentais, como acontecia anteriormente (Canavarro, Dias, & Lima, 2006).
Com os instrumentos de auto-relato, as temáticas de avaliação da vinculação do adulto são diversas, estendendo-se desde as relações com os pares e amigos (Bartholomew & Horowitz, 1991), às relações românticas (Hazan & Shaver, 1990) e íntimas (Bogaert & Sadava, 2002). Esta diversidade reflecte-se na interacção com temáticas de natureza clínica e emocional, educacional e laboral, existindo estudos que mostram associação entre os estilos de vinculação e aspectos do funcionamento psicológico do indivíduo (Soares, 2007).
Como exemplos de questionários de auto-relato temos a Escala de Vinculação do
Adulto (EVA; Canavarro, 1996) e o Reciprocal Attachment Questionnaire (RAQ; West,
Sheldon, & Reiffer, 1987). A Escala de Vinculação do Adulto é a versão portuguesa da
Adult Attachment Scale (AAS; Collins & Read, 1990), um questionário de dezoito itens,
avaliados numa escala tipo Likert de cinco pontos, que se organizam em três factores - ansiedade, conforto com a proximidade e confiança nos outros -, os quais permitem, por sua vez, avaliar os três estilos de vinculação, seguro, preocupado e evitante. O Reciprocal
Attachment Questionnaire (West, Sheldon, & Reiffer, 1987) pretende avaliar os
componentes da relação de vinculação adulta e as dimensões dos padrões da vinculação ansiosa, sendo cotado numa escala de tipo Likert de cinco pontos, que permite expressar o grau de concordância, dos indivíduos, face a cada afirmação. Trata-se de um instrumento multidimensional traduzido para a população portuguesa por Fonseca, Martins, Soares, Carvalho, Tereno e Carvalho (2007).
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Pettem, West, Mahoney, e Keller (1993) procuraram comparar a representação da vinculação, avaliada através do RAQ, num grupo de indivíduos deprimidos com um grupo controlo, tendo concluído que os indivíduos deprimidos apresentavam padrões de vinculação insegura, caracterizados por elevada procura de cuidados na relação com a figura de vinculação ou afastamento com raiva quando o desejo de segurança era frustrado. Por sua vez, Aronson, Bender, Skodal e Gunderson (2006) utilizaram o RAQ para comparar o estilo de vinculação de indivíduos com perturbação borderline, com indivíduos com perturbação obsessivo-compulsiva. Os resultados mostram que os doentes com perturbação borderline têm maior probabilidade de apresentar afastamento com raiva e procura compulsiva de cuidados. Obtêm, também, pontuações mais elevadas nas dimensões medo da perda, disponibilidade e recurso à figura de vinculação e protesto pela separação. Consideram os autores que estes resultados são importante para perceber melhor esta perturbação e orientar a intervenção terapêutica.
Fraley e Waller (1998), Griffin e Bartholomew (1994) consideram que os questionários que permitem avaliar dimensões, como é o caso do Reciprocal Attachment
Questionnaire (West, Sheldon, & Reiffer, 1987), têm vantagens sobre os que avaliam
categorias, pois o facto de permitirem que o indivíduo se situe ao longo de dimensões contínuas, leva a que exista maior variabilidade inter-individual, não existindo fronteiras rígidas de pertença a grupos e possibilitando estudos psicométricos mais precisos. Apesar do seu contributo para a investigação empírica, o instrumento de Hazan e Shaver (1987), apresenta limitações (Collins & Read, 1990; Hazan & Shaver, 1987; Simpson, 1990). Dada a sua natureza categorial, assume que cada estilo é independente do outro, não permitindo avaliar o grau e extensão em que cada estilo é característico de um indivíduo. Por sua vez, os instrumentos que permitem uma abordagem prototípica procuram conciliar as abordagens anteriores. É o caso do modelo de Bartholomew (Bartholomew, 1990;
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Bartholomew & Horowitz, 1991). Este autor desenvolveu um sistema de avaliação da vinculação que inclui uma medida de auto-relato que permite o acesso aos estilos de vinculação definidos e uma entrevista de vinculação que permite o acesso à representação da vinculação na infância e nas relações actuais. Este autor conceptualizou um modelo da vinculação no adulto considerando duas dimensões: “o modelo de si” e “o modelo dos
outros”. Cada uma destas dimensões pode ser positiva ou negativa e combinando-as, é
possível chegar a uma classificação em uma de quatro categorias: Seguro (modelos de si e dos outros positivo), Preocupado (modelo de si negativo e dos outros positivo), Evitante (modelo de si positivo e dos outros negativo) e Evitante-receoso (modelo de si e dos outros negativos).