CAPÍTULO 4 O ENCONTRO COM OS ATORES – BUSCANDO
4.1 As faces do medo
4.1.2 O medo de errar
As pessoas não gostam de errar, mas erram. A melhor saída a meu ver é encarar os erros como oportunidades de aprendizado. No intuito de agradar, o ser
humano muitas vezes deixa de tentar algo novo para não correr o risco de ter que conviver com o fracasso. Reconhecer o erro cometido, admiti-lo para si mesmo e para os outros, é algumas vezes extremamente difícil. No entanto, os erros quando admitidos e devidamente utilizados podem auxiliar a evitar futuros obstáculos e ser precursores do sucesso.
O medo de errar foi um dos medos vivenciados por Marcelo no exercício da gerência e transparece em sua fala, quando diz:
No nosso nível o maior pânico, o maior medo é não saber se o caminho que estamos tomando é o certo. O que aconteceu foi quando eu tive que conversar com um americano que chegou na fábrica para realizar a entrega de uma máquina que nós tínhamos adquirido para a produção. Com minha inibição para falar inglês, entender eu até entendo, mas me trava a língua quando eu quero e preciso falar inglês. E isso criou um medo, porque eu entendia o que ele estava tentando me falar, mas eu não conseguia me fazer entender. Foi um medo porque naquele momento eu não podia perder a oportunidade que eu tinha de tirar as minhas dúvidas sobre o equipamento com aquele técnico que não falava a minha língua. Essa foi uma situação bastante angustiante. Me senti impotente e ao mesmo tempo muito inseguro. Também era preciso avaliar o equipamento que tinha sido comprado por outra pessoa. E agora cabia a mim receber esse equipamento e avaliá-lo. Acho que nós gestores, administradores somos desafiados sempre a encontrar melhores soluções, e quando nos deparamos com situações desconhecidas, isso gera o medo. Ocorre que tu podes ser desafiado, e o desafio ser de um tal grau de desconhecimento, que tu acabas fazendo bobagem motivado pelo medo.
O medo de cometer erros pode ser mais custoso às organizações do que os próprios erros. É preciso saber correr riscos para não ficar estagnado. Na mente humana, a necessidade de definir o que é certo e o que é errado, pode levar a pessoa a tomar uma atitude extrema num momento de decisão. O resultado pode ser desastroso quando a decisão é tomada a partir de julgamentos parciais e de pequeno alcance. A falta de compreensão da situação como um todo pode resultar em julgamentos equivocados. Esse é um dos medos de Arthur e que muitas vezes lhe gera desconforto.
Às vezes me deparo com uma situação de desconforto e até um medo de estar fazendo algo errado. Eu sou assim muito objetivo, muito imediatista. Eu tenho medo de tomar decisões erradas. Eu tenho esse medo de errar!
Pelo fato de eu me conhecer, de ser uma pessoa assim muito imediatista, sei que eu prefiro fazer primeiro pra depois ver no que vai dar.
De acordo com Pires (2003), o medo de errar é um dos medos mais comuns do ser humano. Para enfrentá-lo existe uma tática: “espere um pouco, vamos ver o que está acontecendo”. Este modo operacional de às vezes parar um pouco para ver o que está acontecendo ao redor, é extremamente eficaz.
Augusto também comenta o medo que sentiu de errar nos primeiros meses em que estava na gerência. Segundo ele, isso ocorria por não conhecer bem o próprio setor e por não saber que atitudes tomar quando era chamado pelo presidente da empresa.
Quando a gente assume qualquer coisa, a gente começa a pisar em ovos, porque você conhece bem a sua área, mas não conhece o todo da área. Então, quando cheguei a nível de gerente, meu Deus do céu que coisa! Tinha que tomar decisões, e na frente do presidente. Ver qual era a alternativa, qual era a melhor forma de decidir. Foi um semestre assim, de tomada de decisões, com vontade de fugir. Sabe, isso me passou várias vezes pela cabeça, vontade de abandonar tudo, com toda sinceridade. Você não sabe qual é a maneira melhor de se portar, quando o presidente chama. Não sabe se você rebate, ou não rebate, se você fala logo ou no outro dia, se você manda a resposta por e-mail, ou o que faz? Você tem medo de errar! E sofre muito por causa da educação que recebeu, e por imaginar que sempre tem que acertar.
Por medo de errar, de ser punido pelo erro, a pessoa pode desenvolver uma falta de confiança em sua capacidade realizadora e em seu talento. Sentimentos inconscientes gerados por esse processo podem fazer com que a pessoa desenvolva o medo como uma forma de defesa. A única garantia para jamais errar, é não agir, fugir da vida e de seus desafios. O erro é inerente ao desenvolvimento do ser humano e sempre oferece uma possibilidade de aprendizagem. Essa compreensão sobre o medo de errar é explicitada por Diogo, quando apresenta suas observações a respeito do assunto.
Você tem enfrentar os seus medos! Encarar os seus medos e pronto! A empresa aqui proporciona muito, muito medo, mas só medo de errar! Todo mundo tem medo de errar! Os gerentes aqui têm que tomar decisões e não
adianta ter medo de errar! Tem determinados momentos em que você tem que tomar decisões e daí isso dá medo, angustia! O medo de decidir errado é um medo terrível! Terrível, meu Deus do Céu, é terrível!
Para Tessari (2003), todas as pessoas algum dia já tiveram medo de errar, de tomar uma decisão e mais tarde chegar à conclusão de que aquela não era a decisão mais acertada. Há, porém, as que têm verdadeiro pavor de errar. Estão sempre preocupadas, agitadas, nervosas, aflitas, fazem de tudo para acertar, policiam-se o tempo todo. O pensamento fixo em não errar leva-as a prever as diferentes situações de um evento, com o intuito de proteger-se do erro. Essas pessoas têm necessidade de que tudo dê certo nos mínimos detalhes, pois não aceitam errar. Mas as coisas nem sempre acontecem como foram planejadas. Para aquele que tem medo de errar isso é o caos. Questiona obsessivamente onde foi que errou e tende a atribuir a si a culpa pelo insucesso. Mas qual foi de fato a sua culpa? Foi não ter sido capaz de prever aquela situação e é isso que lhe provoca uma dor insuportável, um sofrimento. No entanto, é preciso lembrar que as pessoas não são perfeitas, que errar é humano. É preciso aceitar os erros e aprender com eles.
Aprendi com Winther e Zatyrko (1999) que uma forma interessante de abordar o próprio medo de errar quando este se apresenta, é adotar uma atitude de alpinista, galgando o mais alto cume de uma montanha e lutando para vencer todos os percalços do caminho. Permanecendo serena e tranqüila diante das adversidades, a pessoa é capaz de gerar uma força interior que lhe possibilita enfrentar os obstáculos. Ao enfrentar os obstáculos, vai abrindo caminhos, descortinando horizontes e aprendendo a viver com sabedoria.